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Vivemos tempos estranhos, de preconceitos salientes e cegueira ideológica. Tempos em que a elite universitária confronta “a fila de soldados, quase todos pretos, (…) de tão pobres”* com a certeza de que sua superioridade de classe lhes dá imunidade.

Tempos em que vemos a esquerda fazendo uma campanha Macarthista (com sinal trocado, evidentemente), defendendo que se sufoque economicamente quem dela discorda. Isto já havia começado no Governo do PT de forma pragmática, ignorando critérios técnicos, cortando verbas publicitárias de desafetos e irrigando o coro dos contentes. Com o impeachment, ganha tom de campanha pública. Gente como o escritor Fernando Morais defende abertamente o boicote a empresas e empresários que “apoiaram o golpe e dão suporte ao governo ilegítimo de Temer”.

A campanha tem alvos genéricos e alguns específicos, como a editora Contraponto, de César Benjamin, esta megacorporação de três funcionários e ótimos títulos, cujo pecado é a independência. Como explica um texto que circula na internet, César Benjamin “tem se manifestado, sub-repticiamente, a favor do golpe, em suas redes sociais. (…) o celebra como se fosse um acerto de contas com o partido no qual, inclusive, foi membro de campanha presidencial de Lula”.

Neste balaio de ódios está a conhecida estratégia do “quanto pior, melhor”. É a estratégia que levou o PT a não reconhecer e não assinar a Constituição Federal de 1988; a punir Luiza Erundina por aceitar ser ministra de Itamar Franco após o impeachment de Collor; e a boicotar de todas as maneiras o Plano Real.

A recíproca não é verdadeira. Muitas pessoas que nunca votaram no PT torceram para que ele fizesse um bom governo. Principalmente os empresários, os comerciantes, os profissionais liberais. Não interessa a ninguém com bom-senso um país parado, a economia estagnada ou a inflação acelerando. Aqui neste blog mesmo, quatro dias após a reeleição de Dilma publiquei um artigo que terminava com o seguinte parágrafo:

“Se Dilma abandonar a cartilha do PT e colocar gente que o mercado reconheça como competente à frente da economia, tudo vai se acalmar. Se insistir nos imodestos companheiros e neste script para o desastre, a vida dos brasileiros será cada vez mais um inferno. O demônio da economia não aceita desaforos por muito tempo”.

Dilma até ensaiou fazer a coisa certa nomeando Joaquim Levy, mas logo ficou claro que era apenas jogo de cena. Ela não reconhecia os próprios erros, queria apenas que alguém “do mercado” endossasse sua prepotência. Deu no que deu. Mas não foi por falta de aviso, nem tão pouco foi culpa “das elites”.

Aqui voltamos ao ponto que destaquei no primeiro parágrafo: a elite universitária que confronta prepotente “a fila de soldados, quase todos pretos, (…) de tão pobres”.

Reinaldo Azevedo, em sua coluna da Folha de S. Paulo em 9 de setembro resgatou um texto de Pier Paolo Pasolini, cineasta, poeta e escritor italiano,  publicado em junho de 1968, que eu não conhecia. Me chamou a atenção a grande afinidade com o célebre e furioso discurso improvisado de Caetano Veloso no Festival Internacional da Canção em setembro de 1968, durante a apresentação da música “É proibido proibir”.

Pasolini, declaradamente de esquerda, teve a coragem de nadar contra a corrente e criticar os estudantes nos confrontos com a polícia.

Caetano, mais libertário que esquerdista, teve a coragem de enfrentar de forma dura a plateia, majoritariamente de universitários de esquerda, que criticavam sua “música alienada”, cobravam músicas engajadas de protesto contra o governo militar e a favor do sonho socialista.

No fim, ambos enfrentavam o mesmo grupo, o mesmo cercadinho ideológico, a mesma prepotência.

Comparem.

Pasolini:

“Sinto muito. A polêmica contra o PCI (Partido Comunista Italiano) já tinha sido feita na primeira metade da década passada. Vocês estão atrasados, queridos. Pouco importa se vocês ainda não haviam nascido. Pior para vocês. Agora os jornalistas do mundo todo (inclusive os dos canais da televisão) ficam lambendo (como se diz na linguagem do baixo clero universitário) a bunda de vocês. Eu não, queridos! Vocês têm cara de filhinhos de papai. Eu os odeio como odeio seus pais (…). Vocês têm o mesmo olhar maligno. São medrosos, hesitantes, desesperados, mas sabem também ser prepotentes, chantagistas, convencidos, descarados – prerrogativas estas pequeno-burguesas, meus amigos”.

“Ontem, quando vocês lutavam com os policiais em Valle Giulia, eu me identificava com os policiais. Porque os policiais são filhos de gente pobre. Eles vêm das periferias rurais ou urbanas. Eu conheço muito bem o modo como foram meninos e rapazes, seus minguados tostões. Conheço o pai deles, que também nunca foi senhor de si, mas por causa da miséria, não da falta de altivez. Conheço a mãe, calejada como um carregador, ou magra como um passarinho por causa de alguma doença. E tantos irmãos; o casebre entre as árvores, em áreas invadidas; casa de cômodos onde há esgoto a céu aberto, ou apartamentos em grandes habitações populares.”

“(…)Em Valle Giulia, ontem, houve um fragmento de luta de classes: e vocês, queridos (ainda que do lado certo), eram os ricos, enquanto os policiais (que estavam do lado errado) eram os pobres. Bela vitória, pois, a de vocês! Nesses casos, é aos policiais que se entregam as flores, meus caros. La Stampa, Corriere della Sera, Newsweek e Le Monde estão lambendo a bunda de vocês. Vocês são os filhos deles. (…)”

 

Agora, Caetano:

“…Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? (…)

(…) “Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? (…) Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores!* Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. (…)

(…) Nós, eu e ele (Gil), tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem… se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!

 

Ambas as manifestações são bem claras e ficam ainda mais atuais quando observamos o quanto permeiam ainda hoje o pensamento e a prática da esquerda encravada nas universidades.

Em março de 2016 tive um debate algo fora do tom com Fernando Nogueira da Costa, professor da UNICAMP e autor do blog Cidadania & Cultura. Ele publicara um artigo tosco como não era de seu feitio até então. Nele, fazia a seguinte tentativa de gracejo:

“Depois de longa e profunda pesquisa, descobri em conversa com meu filho porque os “reaças” brasileiros são denominados de “coxinhas” pelos democratas. Falseou minha hipótese, aliás, como é praxe na boa ciência. Eu imaginava que os “coxinhas” eram uma referência aos seus corpos com muito músculo e pouco cérebro. (…)

(…) Mas, enfim, por que são chamados de “coxinhas”? É porque assim são denominados os policiais do governador tucano que batem em estudantes no campus da USP. Sem dinheiro para se alimentar bem, eles comem apenas “coxinhas” nos botequins. E então descontam sua fome e rancor batendo no que acham ser “filhinhos-de-papai-rico”. Essa frustração face à inteligência alheia é compensada com a violência manifesta. (…)

Trocamos, então, comentários nada gentis em que sugeri que chamasse seu filho e fizessem juntos uma audição da música Haiti de Gil e Caetano, prestando atenção especial nos versos que dizem:

“Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos

Dando porrada na nuca de malandros pretos

De ladrões mulatos e outros quase brancos

Tratados como pretos

Só pra mostrar aos outros quase pretos

(E são quase todos pretos)

Como é que pretos, pobres e mulatos

E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados”

 

Lembrava a ele que o comentário de seu filho não era incomum, como ele próprio reconhecia. Era típico das pessoas da Casa Grande que frequentam a USP e a UNICAMP e que defendem direitos genéricos para os pobres distantes e afrontam sempre que podem os pretos e quase pretos que os servem. Ao contrário do venerável cardeal da mesma canção que vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal, Fernando e seu filho viam muito espírito nos marginais que estavam no poder e nenhum no simples policial que os serve.

Fernando respondeu, entre outras coisas, que “a música sobre “capitães-do-mato” (negros caçadores de negros em fuga) não se relaciona com o caso. A explicação de “apenas comer coxinha” é uma crítica à má remuneração dos policiais”.

Contra-argumentei chamando sua atenção para o fato de que seu ódio o estava deixando com problema de hermenêutica e expliquei:

“A música de Gil e Caetano não é uma crítica ao “capitão do mato”, mas a quem observa a cena da sacada, ou seja, a nós, eu, você, seu filho, meu filho, que tivemos as oportunidades que lhes faltou. A música não nega humanidade aos soldados, ao contrário do que fazem você e seu filho, dando porradas metafóricas e impunes na nuca e no amor próprio deles, com galhardia e superioridade. É a insensibilidade que faz de vocês representantes da Casa Grande, não a origem ou as oportunidades”.

Se você pensa que ele entendeu, se engana. Aparentemente, cada vez fica mais claro o lugar-comum segundo o qual a esquerda e os esquerdistas têm enorme dificuldade de aprender com os próprios erros, mesmo que eles pululem diante de seus olhos.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

*Os atores da peça Roda Viva foram atacados por fascistas membros de um grupo clandestino conhecido pela sigla CCC, comando de caça aos comunistas. Caetano compara a esquerda que o vaia, que o impede de cantar, a estes fascistas.

 

Seguem links relacionados:

Debate com Fernando Nogueira da Costa.

Artigo de Reinaldo Azevedo na Folha

Artigo poema de Pasolini em italiano

Versão do artigo poema de Pasoline em espanhol

Discurso de Caetano ao vivo

Música Haiti de Caetano Veloso e Gilberto Gil

 

Sugestão de artigo complementar:

O DISCURSO DE CAETANO NO FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO

Há 45 anos… dia 15 de setembro de 1968.

 

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