fé cega faca amolada e balas de borracha

“Fé cega, faca amolada” é o título de uma bela canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, gravada no disco MINAS de 1975.

Me lembrei da música lendo diversos sites de esquerda em que o impeachment de Dilma está sendo tratado como estopim revolucionário…Sim, eu sei que é ridículo, mas tem gente acreditando que a soma deste desastre econômico criado pela irresponsabilidade fiscal de Lula e Dilma com os protestos violentos, depredações e confrontos com a polícia, serão capazes de “acirrar as contradições sociais” e levar à deposição da burguesia…

Dá um certo constrangimento ter que escrever uma frase destas, constatar que realmente temos gente que acredita nestas bobagens, mas não posso brigar com os fatos.

Roberto Requião, por exemplo, delira alto. Dia 30 de agosto, com Dilma presente no senado, foi explícito:

“As senhoras e os senhores estão preparados para a guerra civil? Não? Entrincheirem-se, então, porque o conflito é inevitável. O povo brasileiro, que provou por alguns poucos anos, o gosto da emergência social não retornará submissamente à senzala”.

Segundo o senador, as propostas defendidas por aqueles que se opõem a Dilma alimentam as contradições de classe e, em consequência, a luta de classes.

É uma estupidez auto evidente.

O que os brasileiros querem, os pobres, os desempregados, os pequenos comerciantes, as pessoas de classe média, é que a economia funcione, que voltem as contratações, que a inflação seja controlada. O brasileiro médio quer trabalhar e viver em paz. Não tem qualquer vocação para revolucionário.

Observe que a grande maioria das pessoas envolvidas na realização da ameaça de Requião, aqueles que praticam protestos violentos, é classe média e não depende do próprio suor para pagar as contas.

As exceções são basicamente militantes do MST e do MTST.

O MTST é composto pelo que Marx definia como lumpemproletariado, pobres coitados explorados e manipulados por Guilherme Boulos. Caso você não saiba, eles precisam fazer o que o mestre mandar ou voltam para o final da fila da casa própria. É isto mesmo: um dos critérios mais importantes para seleção dos contemplados dos projetos do Minha Casa, Minha Vida administrados pelo MTST (são 10 dos 11 no estado de São Paulo) é a participação em ocupações e manifestações.

Os militantes do MST seguem a mesma sina, explorados e manipulados por João Pedro Stédile.

Em editorial recente a Folha de S. Paulo lembra que “toda democracia digna desse nome assegura a mais ampla liberdade de manifestação, desde que pacífica. Atos de violência são reprimidos —e seus autores detidos e processados pelas autoridades.

Essa distinção essencial entre o legítimo e o intolerável em protestos de rua vem-se perdendo no Brasil”.

Aqui nestas terras macunaímicas, “a indefinição é o regime”, como disse Caetano Veloso na música “Americanos”.

A ideia de que a violência nos protestos de esquerda seja causada pela polícia tem duas explicações opostas: má-fé ou ingenuidade. Outra ideia que tem as mesmas explicações é que as manifestações pacíficas, de esquerda, não são um direito assegurado.

O que não está assegurado é o direito de parar o trânsito, de desviar a rota da manifestação para tumultuar, partir para depredações etc. Manifestações dentro das regras são toleradas, mas não interessam. Os organizadores destas manifestações querem o confronto. Eles sabem que se não houver confronto serão irrelevantes.

Assim, os líderes entram com a estratégia, os otários com a fé cega e a faca amolada, e os policiais com as balas de borracha, bombas de gás e cassetetes.

Curiosamente, no tipo de “democracia” que gente como Guilherme Boulos e seus milicianos defendem, as balas não seriam de borracha, como no massacre na Praça da Paz Celestial em Pequim.

 

Artigo de Paulo Falcão

 

Links para as músicas citadas:

Fé Cega, Faca Amolada – gravação original, cantada por Milton Nascimento e Beto Guedes

Fé Cega, Faca Amolada – versão dos Doces Bárbaros (Caetano, Gil, Gal e Bethânia)

 Black or White e Americanos – gravação original com Caetano Veloso.

 

 

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