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SARAMAGO, A COLONIZAÇÃO DO OUTRO E A INDIFERENÇA ELEGANTE.

Saramago colonizando os ouvintes

José Saramago é um grande escritor. Li e recomendo vários de seus livros. Mas não posso dizer o mesmo de algumas de suas opiniões, reproduzidas de tempos em tempos como se fossem algo sábio, profundo. Ele é muito melhor no terreno da ficção.

Uma das frases que me incomoda particularmente é esta:

“Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.”

Já vi muita gente boa morder a isca, inclusive dois amigos que a reproduziram em suas páginas do Facebook. Uma pesquisa no Google identificará dezenas de portais republicando a frase de forma acrítica e até elogiosa.

Em minha opinião, trata-se, na melhor das hipóteses, de uma desculpa elegante para a indiferença.

Educar é uma forma de convencer o outro, seja pelo exemplo, seja pelas palavras. É uma colonização civilizadora. A alternativa é deixar que outros o façam.

É possível argumentar que a frase condena a doutrinação e não a educação. É possível lembrar que, como o modelo político que defende, o comunismo, é essencialmente um processo de homogeneização do pensamento, de doutrinação radical, a frase ganharia um sentido crítico, como a dizer: sou de esquerda, mas não apoio a violência da doutrinação.

Não é uma interpretação ruim, exceto pelo fato de que, sendo ele inteligente, não faz sentido imaginar que, ao reconhecer o caráter essencialmente violento e doutrinador do comunismo, continue defendendo-o, mas castrado de sua essência.

Voltemos à frase em si, sem tantas suposições.

Diante de um filho ou aluno que professe, por exemplo, admiração por homens-bomba, ou ache que Hitler estava certo, o que fazer? Qual a atitude mais ética?

Alguém realmente acha que o melhor caminho é abster-se e deixar que siga livremente com tais ideias?

Quem vê sentido na frase de Saramago concorda que seja uma violência questionar tais modelos e apresentar outros mais tolerantes?

Evidentemente o termo “colonização” traz uma conotação de conquista e submissão que não foi acidental. Não foi acaso. Ele escolheu cada palavra e teve consciência de seu efeito, ou não seria o escritor que é.

O fato desprezado na formulação de Saramago é que um mundo sem convencimento é um mundo de caos e conflito. Um mundo que não propaga ideias e conhecimento. Um mundo estagnado, sem evolução.

Ensinar a ser plural e questionar é uma forma de colonização do outro, sem dúvida, mas uma forma amorosa, respeitosa e necessária. É a forma inescapável de quem se importa.

 

Artigo de Paulo Falcão

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21 comentários em “SARAMAGO, A COLONIZAÇÃO DO OUTRO E A INDIFERENÇA ELEGANTE.

  1. João Pedro Roriz
    06/08/2017

    Ola! Obrigado por trazer o tema a baila. Saramago não fala em abster-se. Apenas aborda a importância da resiliência diante da dualidade das informações. A realidade é assim se lhe apraz. O diálogo (duas razões) mora na busca da verdade através da exposição. Saramago não se opoe a isso e jamais fica calado diante da oportunidade de expor sua opinião. Até porque, filosoficamente, se olharmos a maieutica socrática, o ser só pode ser reconhecido através de suas ideias. O que o magnífico escritor português esclarece é que, depois de apresentado o argumento, não cabe ao autor a necessidade de convencimento. Isso cabe ao outro, ou seja, ao receptor da mensagem. Exigir que o outro atenda ao interesse individual de acolhimento de uma ideia é uma forma de escravização, pois tira do outro o direito de filtrar a ideia proposta através do prisma de sua própria consciência. Espero ter ajudado. Abraço. João Pedro Roriz: http://www.joaopedrororiz.com.br.

    • Questões Relevantes
      06/08/2017

      João Pedro, obrigado pelo comentário didático. Sem dúvida sua argumentação enriqueceu o debate. No entanto, a frase de Saramago, ao ser usada de forma autônoma, está mais perto de minha análise do que da sua. De qualquer maneira, quem nos ler terá a oportunidade de conhecer diferentes pontos de vista e tirar suas próprias conclusões, o que é o objetivo último deste blog.

  2. Osvaldo Jr
    05/28/2017

    Eu concordei com o autor do texto. Cheguei aqui porque li a frase num grupo de filosofia e fiz o mesmo tipo de argumento por lá.

    “[…] O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.”

    Imagine… se ninguém se apoderasse de ninguém, e ninguém aceitasse se submeter a ninguém… simplesmente não haveria regras! E regras é o que o ser humano não pode ficar sem, pois todos temos algum tipo de monstro dentro de nós. Essa frase parece ter sido falado por um psicopática, que superestima o poder, o excesso de liberdade e o prazer.

    • Questões Relevantes
      05/28/2017

      Obrigado pelo comentário. Mas psicopata é demais.

  3. Reginaldo Martin Cano
    12/28/2016

    O autor, que diz que no comunismo se pratica condicionamentos, em sua ingenuidade não percebe ou, se percebe tem má fé, não se apercebe que a mais sinistra máquina de lavagem cerebral é o capitalismo, vide nossa atual situação, com milhões de idiotas, enganados e, dentre tais, muitos já se arrependendo de haver apoiado esse golpe destruidor de nossa nação.

    • Questões Relevantes
      12/28/2016

      Reginaldo, o artigo não discute este varejo da política em que você se prende. Discute conceitos. As democracias liberais produzirem os melhores resultados da história da humanidade em liberdade individual, direitos civis, direitos de minorias, qualidade de vida, expectativa de vida etc. Já as experiências de esquerda que não ocorreram em simbiose com as democracias liberais foram ou são ditaduras, sem exceção. O próprio Marx reconheceu que seu sonho, seu Éden idílico, só viria após a ditadura do proletariado. Sobre este ponto, deixo o convite para a leitura de um artigo breve e esclarecedor:
      O PARAÍSO DE MARX E DO PROFETA ISAÍAS.
      http://wp.me/p4alqY-lw

  4. Homero Amaral
    08/31/2016

    Não me Peçam Razões…

    Não me peçam razões, que não as tenho,
    Ou darei quantas queiram: bem sabemos
    Que razões são palavras, todas nascem
    Da mansa hipocrisia que aprendemos.

    Não me peçam razões por que se entenda
    A força de maré que me enche o peito,
    Este estar mal no mundo e nesta lei:
    Não fiz a lei e o mundo não aceito.

    Não me peçam razões, ou que as desculpe,
    Deste modo de amar e destruir:
    Quando a noite é de mais é que amanhece
    A cor de primavera que há-de vir.
    José Saramago

    • Questões Relevantes
      08/31/2016

      Bela contribuição. A poesia sempre foi uma bela forma de colonização amorosa do outro.

  5. Homero Amaral
    08/31/2016

    Persistência é uma qualidade!

    • Questões Relevantes
      08/31/2016

      Inclusive na educação.

  6. Luiz Antonio Caetano Da Silva Júnior
    08/28/2016

    Fracassou a tentativa de criticar Saramago. Penso que este crítico deveria pensar melhor sobre o sentido da palavra liberdade antes de defender qualquer tipo e doutrinação, mesmo que se disfarce de amorosa e solidária. Se lesse Jangada de Pedra, por exemplo, perceberia que Saramago não é um mero ficcionista. Sua leitura da geopolítica e das relações entre colonizadores e colonizados é profunda e perturbadora. Mas não estranho esse comportamento colonialista, o Basil não aceitao pós-colonialismo porque se identifica e se confunde com os colonizadores, alimenta a ilusão de ser quem coloniza. Abalar esse sistema é o que mais temem.

    • Questões Relevantes
      08/28/2016

      Luiz, como disse, recomendo a leitura de todos os livros de Saramago, mas esta frase é o que se pode chamar de “bonitinha, mas ordinária”. O artigo explica detalhadamente porquê. O currículo do Saramago não tem o poder de transformar o erro em acerto.

      • Luiz Antonio Caetano Da Silva Júnior
        08/28/2016

        O que disse é que a argumentação não sustenta a crítica. Especialmente por não permitir a opinião contrária. Estabele um critério de validade impossível, pois não há como prever um cenário futuro sem nenhum tipo de doutrinação, seja ela como for. Apostar que a hipótese traria caos é facil, mas não é mais verdadeira que qualquer versão mais positiva dos que defendem uma total liberdade

      • Questões Relevantes
        08/28/2016

        Luiz, para Marx a verdade de uma ideia é a sua realização prática, sem o que teríamos utopias vazias. Um mundo em que todos os homens concordem é, na melhor das hipóteses, um ideal mítico, utópico. O mundo sem “a colonização do outro” é o estado da natureza, a volta a um tempo que prescinde inclusive da palavra e prevalece o mais forte, como lobos em uma alcateia.

  7. Cris Gonçalves
    08/28/2016

    Colonização civilizadora… ainda estou nessa frase…

    • Questões Relevantes
      08/28/2016

      Cris, se preferir uma abordagem menos liberal e mais marxista, posso deixá-la como próprio Marx. Segundo sua teoria, o advento do socialismo dependia do desenvolvimento radical do capitalismo. Quanto maior o progresso tecnológico e a exploração do trabalho industrial, maiores as contradições econômicas que criariam as condições da revolução.

      Povos e nações atrasados em nada ajudavam nesse processo. Por isso, a empreitada colonial das grandes potências de seu século era um elemento de progresso, tirando nações do atraso do modo de produção asiático e trazendo-as para o capitalismo. Nas palavras do Manifesto Comunista, a burguesia capitalista “arrasta para a civilização todas as nações, até mesmo as mais bárbaras”.

      Foi por esse motivo que ele defendia a Inglaterra em sua dominação da China – e isso mesmo depois da sangrenta Guerra do Ópio –, assim como sua presença na Índia. O colonialismo, ainda que brutal, era uma força de progresso. Isso fica mais claro em seus comentários sobre a Índia no artigo “O Domínio Britânico na Índia”, escrito para o New York Daily Tribune em 1853. Marx reconhece o sofrimento causado pelos ingleses, mas os vê como importantes para destruir o modo de produção e a cultura arcaicos e obscurantistas da velha Índia.

      “A Inglaterra, é verdade, ao causar uma revolução social no Hindustão, foi movida apenas pelos interesses mais vis, e foi estúpida em sua maneira de persegui-los. Mas essa não é a questão. A questão é: pode a humanidade cumprir seu destino sem uma revolução fundamental no estado social da Ásia? Se não, quaisquer que tenham sido os crimes da Inglaterra, ela foi uma ferramenta inconsciente da História em promover essa revolução.”

  8. Francisco Fábio
    08/28/2016

    Paulo, alvíssaras! Enfim concordo com você quase integralmente (a discordância é sobre você confundir conceitos, anulando-os por erros de quem tentou praticar estes conceitos. O socialismo que você confunde com comunismo continua cada vez mais válido mas ele continua dependendo da conscientização da humanidade para ser implantado. Ainda não é a hora mas chegará). Sobre o artigo foi didático e eficiente. Acho que não só podemos mas devemos influenciar o outro falando (sem catequese) o que achamos certo e o que achamos errado do outro. Claro no campo das ideias. Na formação do inconsciente da pessoa é necessário ela receber informações vinda de onde vierem. Só assim ela será capaz de tirar suas conclusões. Por isso sou contra a chamada escola sem partido. O professor é e tem que ser um influenciador. Na escola o aluno tem oportunidade de conviver com várias informações de professores diversos. Se receber só um pensamento, claro, só colocara na cabeça este pensamento..

  9. Jorge Coutinho
    08/28/2016

    Bela análise. Parabéns.

    • Questões Relevantes
      08/28/2016

      Obrigado.

  10. Isadora
    08/28/2016

    Interessante. Confesso que achava a frase uma coisa assim de moral profunda, bela e edificante. Você demoliu minha interpretação. Sua leitura foi melhor que a minha. Acho que o próprio Saramago, se estivesse vivo, teria dificuldade em rebater sua análise. Nunca mais lerei esta frase da mesma maneira.

    • Questões Relevantes
      08/28/2016

      Obrigado pela contribuição.

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