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MAURO SANTAYANA, A CEGUEIRA VOLUNTÁRIA E OS PECADOS DOS OUTROS.

Eye M.C. Escher_thumb[6]

Curioso e revelador o artigo publicado por Mauro Santayana no Jornal do Brasil em 4 de agosto sobre a condenação do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, flagrado roubando dinheiro público na Eletronuclear. 70% do artigo é composto de impropérios contra tudo e todos que o jornalista vê como ameaça ao projeto de poder que apoia. Nos 30% restantes ficamos sabendo que:

– A titulação de Othon Luiz Pinheiro da Silva deveria dar ao almirante o direito de roubar em paz;

– Os 4 milhões que ele e a filha receberam da Odebrecht não são nada;

– Que um homem destes merece roubar 3% da obra sem ser perturbado;

– E que a Odebrecht também deveria ser deixada em paz para continuar seus relevantes serviços ao País.

A explicação para isto vai da loucura à cegueira ideológica, intervalo em que cabe muita coisa. Você, caro leitor, tire suas conclusões.

Aproveite para reparar em mais um detalhe importante: o artigo termina com aquele nacionalismo que Samuel Johnson definiu como o último refúgio dos canalhas*.

 

Esta introdução é de Paulo Falcão. Segue o artigo original, na íntegra.

* Originalmente eu havia me equivocado e atribuído esta frase a Nelson Rodrigues. Fiz a correção alertado pelo leitor Homero Amaral.

_______________________________

 

A Lava-Jato e o vice-almirante

Por Mauro Santayana para o Jornal do Brasil

Em uma sentença que chama a atenção pela severidade e a ausência de proporcionalidade, o ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, foi condenado, ontem, por um juiz do Rio de Janeiro – com uma decisão que atingiu também a sua filha – a 43 anos de prisão por crimes supostamente cometidos durante as obras da usina nuclear de Angra 3.

O vice-almirante Othon é um dos maiores cientistas brasileiros, um dos principais responsáveis pelo programa de enriquecimento de urânio da Marinha, que levou o Brasil, há 15 dias, a fazer a sua primeira venda desse elemento químico – usado como combustível para reatores nucleares – para o exterior, para uma empresa pertencente ao governo argentino.

Em qualquer nação do mundo, principalmente nos EUA – país que, justamente por ser brasileiro, e não norte-americano, o teria espionado, “plantando” um homem da CIA ao lado do seu apartamento – o vice-almirante Othon estaria sendo homenageado, provavelmente com uma medalha do Congresso ou da Casa Branca, por serviços de caráter estratégico prestados ao fortalecimento da Nação e ao seu desenvolvimento.

No Brasil de Itamar Franco – um homem íntegro e nacionalista, que cometeu a besteira de confiar em quem não devia e abriu a Caixa de Pandora da tragédia neoliberal dos anos 1990, ao apoiar para sua sucessão um cidadão em cujo governo, segundo o Banco Mundial, o PIB e a renda per capita recuaram e a dívida pública duplicou, deixando ainda um papagaio, com o FMI, de 40 bilhões de dólares – o Almirante Othon recebeu, em 1994, da Presidência da República, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Ele também é Comendador da Ordem do Mérito Naval; da Ordem do Mérito Militar; da Ordem do Mérito Aeronáutico; da Ordem do Mérito das Forças Armadas; da Medalha do Mérito Tamandaré; e recebeu, além disso, a Medalha do Pacificador, a Medalha do Mérito Santos-Dumont e a Medalha Militar de Ouro.

No Brasil kafquianamente imbecilizado, midiotizado, manipulado, plutocratizado, deturpado, moralmente, da atualidade, que caminha a passos largos para a instalação de um governo – de fato – de exceção e fascista – e, ainda por cima, entreguista e anti-nacional – a partir de 2018, ele está sendo condenado por uma justiça em que muitos membros recebem acima do teto constitucional, perseguem jornais que os denunciam, e podem fazer palestras remuneradas sem ter que declarar quanto estão, conforme resolução do CNJ divulgada no início deste mês de julho.

Com uma maioria de patriotas, nacionalistas, legalistas, constitucionalistas, os militares brasileiros tem suportado em silêncio digno a interrupção e as ameaças que pairam, como aves de rapina, sobre numerosos projetos de defesa que tiveram início na última década e sobre as empresas responsáveis por eles, como o dos submergíveis convencionais e o do submarino atômico – de cujo desenvolvimento do reator já participou o próprio Almirante Othon – sob responsabilidade da Odebrecht, um dos grupos mais prejudicados e perseguidos pela Operação Lava-Jato, que já teve que demitir mais de 120.000 pessoas no último ano, também encarregada, por meio da Mectron, da construção, em conjunto com a Denel sul-africana, do míssil A-Darter que irá armar os novos caças Gripen NG-BR, que estão sendo – também por iniciativa dos dois últimos governos – desenvolvidos com a Suécia por intermédio da SAAB.

Tudo isso, em nome de um pseudo combate à corrupção hipócrita, ególatra, espetaculoso e burro, em que, para descobrir supostos desvios de um ou dois por cento em programas estratégicos de bilhões de dólares, condena-se ao sucateamento, atraso ou interrupção – como era o caso, há anos, das obras de Angra 3 antes de sua retomada justamente pelo Vice-Almirante Othon – os outros 97% dos projetos, sem nenhuma consideração pela aritmética, a lógica, o bom senso, a estratégia nacional, o fortalecimento ou o desenvolvimento brasileiros.

Isso, ainda, para vender, falsa e mendazmente, com a cumplicidade de uma parcela da mídia irresponsável, apátrida, estúpida e venal, a tese de que se estaria “consertando” o país, quando o que se está fazendo é jogar o bebê pela janela junto com a água do banho, e matando a boiada inteira para exterminar meia dúzia de carrapatos, no contexto de um projeto de endeusamento de um personagem constantemente incensado por uma potência estrangeira – justamente aquela que espionou o próprio Almirante Othon – quando se sabe que para prender corruptos não era preciso arrebentar com as maiores companhias de engenharia do país, como se está arrebentando, nem com os principais projetos bélicos e de infraestrutura em andamento, ou com a Estratégia Nacional de Defesa, arduamente erguida nos últimos anos, ou com um conjunto de programas do qual toma parte, ainda, o Astros 2020 da Avibras; a nova família de fuzis de assalto IA-2, da IMBEL; o Cargueiro Militar multipropósito KC-390 da Embraer; a nova linha de radares SABER; os 1050 novos tanques Guarani, desenhados pelo Departamento de Engenharia do Exército, até algum tempo atrás – ao que se saiba – ainda em construção pela IVECO; os novos navios de superfície da Marinha; ou o novo satélite de comunicações que atenderá às Forças Armadas.

Os alegados 4 milhões de reais em “propina” eventualmente pagos em consultoria ao Almirante Othon – uma das razões de sua condenação a mais de 40 anos de prisão – seriam, caso sejam comprovados, uma migalha diante do que ele mereceria receber, em um país mais patriótico e menos hipócrita, como cientista e como compatriota, e uma quantia irrisória, se formos considerar, por exemplo, o preço de um apartamento de quatro quartos em Higienópolis, em São Paulo – há os que são vendidos a preço de “ocasião” – ou o fato de ratos como Eduardo Cunha, Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, com dezenas de milhões de dólares na Suíça, terem sido soltos pelo Juiz Sérgio Moro e, tranquilos, estarem em casa neste momento.

Só no Brasil, também, um cientista desse porte é enxovalhado, como o Vice-almirante Othon está sendo, nas redes sociais, por um bando de energúmenos, ignorantes, preconceituosos e estúpidos que não tem a menor ideia do que está ocorrendo no país, e que pensam mais com o intestino do que com a cabeça.

Só não dá para dizer que dá vergonha de ser brasileiro porque o Brasil é maior que esta corja tosca, anti-nacional, vira-lata, manipulada e ignara, e porque mesmo que os cães ladrem a caravana irá passar, finalmente, um dia, altaneira e impávida.

Como diria Cazuza, o tempo não para.

Aos que estão arrebentando com a Pátria – e com as suas armas, seus heróis e seus exemplos – sacrificando-os no altar de suas inconfessáveis, imediatistas e rasteiras ambições, sobrará o inexorável e implacável julgamento da História.

Link para o artigo original:

http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2016/08/04/a-lava-jato-e-o-vice-almirante/

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14 comentários em “MAURO SANTAYANA, A CEGUEIRA VOLUNTÁRIA E OS PECADOS DOS OUTROS.

  1. Questões Relevantes
    08/07/2016

    Aguardando moderação.

  2. adilson
    08/07/2016

    Leio pessoas escrevendo as maiores besteiras,mas tudo se resume a um ponto.Roubo,gatunagem,então, deixemos a quem de direito tomar conta; ou seja um Juiz, ou a polícia. A sociedade menos ignorante já tem seu veredicto.

  3. Milton Henrique
    08/06/2016

    JÁ ESTOU CONCORDADNDO COM UMA AÇÃO DE SOBERANIA NACIONAL DAS FORÇAS ARMADAS CONTRA ESSA CORJA DE GOLPISTAS RECONDUZINDO A PRESIDENTA ELEITA AO CARGO E DANDO UM BASTA A ESSE INERGUMENO JUIZ ENTREGUISTA QUE VIVE RECEBENDO INSTRUÇÕES DOS IMPERIALISTAS estadunidenses QUE SÃO RESPONSAVEIS PELA EXPLOSÃO E MORTE DE 21 CIENTISTA NACIONAIS NO FOGUETE BRASILEIRO EM ALCANTARA COM MOTORES DESLIGADOS ISSO JÁ É QUESTÃO DE SEGURANÇA NACIONAL ANTES QUE ESSES TRAIDORES DA PATRIA ALÉM DE ENTREGAR O PRE-SAL, ENTREGUE TODA A NAÇÃO AOS PIGS estadunidenses.

    • Questões Relevantes
      08/06/2016

      Milton, cada vez tenho menos paciência com quem escreve tudo em maiúsculas, como se estivesse gritando. Mas compreendo: pelo teor de seus argumentos, a sua única chance de convencer alguém é pela intimidação, já que pouca gente dá ouvidos a teorias da conspiração e devaneios autoritários de direita. Neste quesito a esquerda tem uma platéia mais numerosa, embora os dois lados seja indesejados.

  4. Homero Amaral
    08/06/2016

    Completando: pátria/patriotismo – nação/nacionalismo, aqui não existe. O que existe nestas plagas e o conluio de corruptos, corruptores, sonegadores, fraudadores e outras qualificações do gênero. Isto aqui (Brasil) é um grande negócio escuso, apenas isto um grande negócio escuso. A Pátria cidadã preconizada por Ulisses Guimarães na Constituição de 1988 não existe e nunca existiu.

    • Questões Relevantes
      08/06/2016

      Caro Homero, não existe, é verdade, mas acredito que é importante perseguir o conceito de Pátria Cidadã, tentar aumentar a consciência das pessoas para o absurdo que é este vale-tudo que você aponta.

      Neste sentido, o artigo de Mauro Santayana é, na hipótese benigna, uma piada de mau gosto.

      De qualquer maneira, deixo aqui o convite para a leitura de um artigo que trata justamente das características que fazem do Brasil este “grande negócio escuso”, para usar suas palavras:
      BRASIL, A SÍNTESE DE TODOS OS VÍCIOS.
      http://wp.me/p4alqY-fl

  5. xangaizoom
    08/06/2016

    Nenhuma novidade. O autor deste blog não sabe nem a hora em que está com fome.

    • Questões Relevantes
      08/06/2016

      Xangaizoom, certas críticas dizem mais de quem escreve do que do objeto da crítica. É precisamente o caso aqui: você não aponta um único erro objetivo no que escrevo, até por que não há. Sua única alternativa é tentar uma gracinha ofensiva. Talvez funcione para pessoas do seu perfil, mas não para o perfil médio dos leitores deste blog.

  6. Homero Amaral
    08/06/2016

    Pátria/patriotismo, nação/nacionalismo. O que temos aqui nestas plagas é um grande e escuso negócio entre corruptos, corruptores, sonegadores e todos outros tipos de falcatruas. Aqui é o refúgio dos bandidos, de colarinho branco é claro!

    • Questões Relevantes
      08/08/2016

      Caro Homero,acredito que é importante tentar aumentar a consciência das pessoas para o absurdo que é este vale-tudo que você aponta.

      Neste sentido, o artigo de Mauro Santayana é, na hipótese benigna, uma piada de mau gosto.

      De qualquer maneira, deixo aqui o convite para a leitura de um artigo que trata justamente das características que fazem do Brasil este “grande negócio escuso”, para usar suas palavras:
      BRASIL, A SÍNTESE DE TODOS OS VÍCIOS.
      http://wp.me/p4alqY-fl

  7. Homero Amaral
    08/05/2016

    Ops!!! A frase: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”não é do admirável e mordaz Nelson Rodrigues, mas sim de Samuel Johnson pensador inglês do século XVIII.

    • Questões Relevantes
      08/06/2016

      Obrigado pela correção.

      • Homero Amaral
        08/06/2016

        Pátria/patriotismo – nação/nacionalismo aqui neste pais não existe! O que existe é um grande conluio entre corruptos, corruptores, sonegadores, fraudadores e outras qualificações do gênero. A “nossa pátria” é apenas e tão somente um grande negócio escuso, apenas isto. A pátria cidadã concebida por Ulisses Guimarães na Constituição Federal de 1988 foi um sonho, só um sonho.

      • Questões Relevantes
        08/08/2016

        Caro Homero, não existe, é verdade, mas acredito que é importante perseguir o conceito de Pátria Cidadã, tentar aumentar a consciência das pessoas para o absurdo que é este vale-tudo que você aponta.

        Neste sentido, o artigo de Mauro Santayana é, na hipótese benigna, uma piada de mau gosto.

        De qualquer maneira, deixo aqui o convite para a leitura de um artigo que trata justamente das características que fazem do Brasil este “grande negócio escuso”, para usar suas palavras:
        BRASIL, A SÍNTESE DE TODOS OS VÍCIOS.
        http://wp.me/p4alqY-fl

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