Domenico Losurdo e a arte de mentir falando a verdade

No vídeo abaixo, de aproximadamente 10 minutos, Domenico Losurdo acusa os EUA de serem o país mais tirano do mundo. Ao mesmo tempo nos dá uma demonstração prática de como mentir falando verdades. Ou melhor: selecionando algumas verdades e omitindo outras.

Não se trata nem mesmo de uma manipulação sofisticada, mas, mesmo fraca, tem encantado doutores, mestres e universitários pelo mundo, o que revela o miserê crítico e intelectual a que a esquerda levou a academia, principalmente na área das chamadas “Ciências Humanas”.

Para entender melhor a prestidigitação do badalado historiador Italiano, acredito relevante lembrar que é também autor do livro “Stalin: História e Crítica de uma Lenda Negra”, em que tenta resgatar o prestígio de um dos mais frios e virulentos assassinos da história. Livro, aliás, que teve boa acolhida entre a chamada “esquerda acadêmica”. Uma das raras críticas de alguém da esquerda a esta obra pode ser lida aqui.

Mas vamos à demonstração da picaretagem de Domenico Losurdo.

Ele até começa bem ao fazer uma comparação pertinente e defensável entre as impressões que Alexis de Tocqueville e Victor Schoelcher tiveram de suas respectivas visitas aos EUA em torno de 1830. Viram as mesmas coisas mas chegaram a conclusões opostas. Tais diferenças de olhar poderiam dar lugar a um rico debate, mas Losurdo prefere o truque fácil.

O historiador italiano poderia e deveria problematizar os motivos que levaram Tocqueville a escrever “A democracia na América” e seu encantamento com uma sociedade onde os partidos políticos ganhavam corpo para desafiar elites locais, estabelecendo cada vez mais o governo da lei sobre o poder econômico.

Poderia e deveria comparar o estágio da democracia americana com a de países europeus no mesmo período (o que daria uma régua temporal para as conclusões de Tocqueville).

Poderia e deveria fazer o mesmo com a escravidão e o conflito com os índios.

Mas não fez nada disso. Preferiu a crítica cínica em que inclusive deixa subentendida a superioridade de Victor Schoelcher sobre o autor do clássico “A democracia na América“.

Como fez isto?

Simples: avalia Tocqueville e os EUA com o olhar contemporâneo. Simplesmente ignora o momento histórico de uma sociedade em formação e em pleno processo de luta por direitos e pelo império da lei.

Aliás, seu desprezo por direitos e o império da lei é a pedra de toque para entender a segunda mistificação, o segundo truque, quando faz um salto temporal para imaginar Tocqueville e Schoelcher visitando os EUA no século XX.

Diz que Tocqueville valorizaria o Governo das Leis mais desenvolvido nos EUA que na União Soviética ou China, a imprensa livre e outros valores democráticos.

Já Schoelcher destacaria o genocídio conduzido pela França na Argélia e pela Inglaterra no Quênia (sim, quando lhe é conveniente, inclui comparações europeias), bem como os EUA impondo ferozes ditaduras na América Latina (o que é, no mínimo, falta de senso de ridículo, já que nenhuma ditadura Latino Americana chegou perto da ferocidade das ditaduras de esquerda pelo mundo, inclusive a de sua Lenda Negra).

A hipotética crítica de Schoelcher aos EUA inclui ainda a guerra contra os comunistas na indonésia.

Observem que Domenico Losurdo segue falando verdades ao apontar qualidades e defeitos dos EUA, França e Inglaterra, mas economiza muito quanto aos defeitos da URSS e China.

Ao falar da política de extermínio da França na Argélia, ou da Inglaterra no Quênia, “esquece” a política de extermínio da Rússia na Ucrânia, por exemplo. Ao falar da política do EUA impondo ditaduras ferozes por toda a América Latina, esquece que a URSS nada mais foi que a Rússia expandida por anexações de caráter colonialista que lhes impuseram um totalitarismo comandado de Moscou.

Assim, nosso picareta italiano fantasia um Tocqueville ingênuo, que se deixa impressionar pela democracia triunfante e o contrapõe a um Schoelcher sábio que veria a verdadeira face da América e da Europa: a opressão colonial feroz.

Neste ponto, se usarmos a mesma régua para medir o que acontecia na URSS e na China, veremos que a opressão atrás da chamada cortina de ferro era muito maior, com um agravante: não havia de forma alguma o Governo das Leis e a violência totalitária atingia brutalmente não apenas os países anexados, mas também a própria população em nome de quem exercia seu terror.

Aliás, a frase “oprimia ferozmente o mundo colonial, oprimia ferozmente todos aqueles que se mostravam suspeitosos ou hostís em relação ao império” é totalmente verdadeira também para as ações da URSS e da China. Mas ele, claro, omite este detalhe.

Isto se mostra ainda mais deletério quando cita Hegel e o conceito segundo o qual “a verdade é o todo”.

Observem. Em sua fala, o “todo” do ocidente é o governo das leis somado a barbáries colonialistas e imperialistas.

Já o “todo” dos países socialistas é menor desenvolvimento no governo das leis (eufemismo para ditaduras) e silêncio vergonhoso sobre extermínio, colonialismo, opressão e guerras.

Isto não é papel de um historiador ou de um intelectual sério. É papel de um reles prosélito, de um militante sem escrúpulos.  Losurdo não tem pudores em omitir o que não lhe favorece e assim dar maior relevo à suas críticas.

Na hipótese otimista, nem percebe o erro e está mentindo para si mesmo, como fazem os ingênuos que o aplaudem. Na pessimista, é um embusteiro convicto.

A parte final do vídeo reforça ainda mais a segunda hipótese.

Ao falar da cobrança que as democracias liberais contemporâneas fazem sobre direitos humanos na China, coloca em linha, sem perspectiva, fatos com 150 a 200 anos de intervalo e os utiliza como justificativa para o necessário totalitarismo do socialismo Chinês.

Novamente não usa informações falsas, mas omite muitas outras que desmontariam sua tese.

O passo seguinte é explorar as guerras recentes em que se envolveram EUA e os principais países da Europa e com isto questionar a democracia e o governo das leis. A crítica é justa, diga-se, mas novamente passional e parcial.

Como bom esquerdista, daqueles de almanaque, se recusa a reconhecer que foi nas democracias liberais que as camadas mais pobres da população tiveram as maiores conquistas da história da humanidade em termos de renda, direitos civis, liberdade, acesso à educação e saúde, qualidade de vida, lazer e direitos políticos. Não há nenhuma experiência conhecida que se aproxime deste sucesso.

Já as experiências socialistas também apresentam pontos positivos, mas nada comparável ao estágio das democracias liberais. Foram e são ditaduras que jamais hesitaram em sacrificar a própria população em nome de um ideal mítico que nunca chega.

Como já salientaram Giovanni Sartori e Denis Lerrer Rosenfield, a esquerda tem o hábito de atribuir ao socialismo teórico todas as perfeições e então compará-lo com a prática real das democracias liberais. É uma fraude intelectual, claro, mas faz o maior sucesso por aí.

Ou seja, enquanto o socialismo é uma eterna promessa de um mundo melhor e uma ditadura na prática, “a democracia é, por definição, uma obra em constante processo de inclusão de demandas, inclusive demandas sociais de origem socialista. Isto ocorre porque é da essência da democracia ser plural no que tange a seus atores, mesmo que de forma assimétrica”, como já disse em outro artigo.

Para terminar, é bom lembrarmos uma bela observação de Milton Friedman que deveria funcionar como vacina contra tentações socialistas: o livre mercado não é, evidentemente, a única opção de organização da economia. Também não é uma imposição. O livre mercado é simplesmente a opção de todas as sociedades dos últimos 100 anos em que o indivíduo teve liberdade de escolha. Pense nisso.

Artigo de Paulo Falcão

 

 

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COMPLEMENTO EM 27 DE JULHO DE 2016

Hoje me deparei com o artigo AS 4 POSIÇÕES MAIS REACIONÁRIAS DEFENDIDAS POR KARL MARX, de JOEL PINHEIRO para o Spotniks e foi impossível não notar o quanto ele complementa o artigo acima.

Convém lembrar que Marx (1818-1883) era ainda um estudante quando Alexis de Tocqueville e Victor Schoelcher visitaram os EUA (1830).

Observem que Joel Pinheiro, embora obviamente seja um crítico de Marx e do marxismo, tem o cuidado de contextualizar as críticas, de lembrar qual era o “espírito da época” para que não se julgue suas opiniões com o olhar de hoje.

Ou seja: faz exatamente o que faltou a Domenico Losurdo. Mais do que isto: traz boa parte das informações que Losurdo preferiu esconder.

Penso que seja uma leitura fundamental.

 

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As 4 posições mais reacionárias defendidas por Karl Marx.

Por JOEL PINHEIRO para o Spotniks

 

É fácil julgar as gerações passadas. E equivocado. Tomamos nossos juízos de valor como universais e óbvios, quando na verdade as mudanças de valores e opiniões requerem muito esforço e o trabalho genial de muitos indivíduos.

Do mesmo modo, é também tolice tentar pintar os pensadores de outros tempos com as cores do presente, como se eles partilhassem conosco as mesmas preocupações, opiniões e modos de pensar hoje considerados corretos. Ao fazer isso, a gente corta a possibilidade de contato com o passado, preferindo uma versão falsa e mutilada dele, como se seus atores fossem importantes apenas na medida em que ajudaram a chegar até nós.

Karl Marx é, para muitos, um herói do pensamento. Para outros, um grande vilão. Seja como for, era um pensador que em muitos sentidos surpreende quem vive no século 21, inclusive aqueles que se consideram seus seguidores. Nesse espírito de revelar o pensador verdadeiro por trás da versão para consumo do século 21, vamos olhar quatro aspectos do pai do socialismo científico que hoje causariam um certo embaraço…

RACISMO E ANTISSEMITISMO

São muito poucos os autores do século 19 que escapam ao racismo. Marx não fugiu à regra. A questão da raça não ocupava papel central em seu pensamento. Ele foi, ademais, defensor ferrenho da abolição da escravidão. Mas em diversas ocasiões revelou sua crença na superioridade do europeu ocidental sobre negros e eslavos.

Isso era quase universal em sua época. O que distingue um pouco o caso de Marx é que ele, ao menos por uma curta fase, foi um crente entusiasmado do evolucionismo de Pierre Trémaux, cientista totalmente esquecido hoje em dia. Segundo Trémaux, a evolução dos diferentes tipos humanos era determinada pelo solo. Solos mais recentes davam origem a raças superiores, e solos antigos, de camadas de rocha mais velhas, a raças degeneradas.

Numa carta entusiasmada, Marx escreve a Engels maravilhado com a obra de Trémaux:

“Em suas aplicações históricas e políticas, Trémaux é muito mais importante e frutífero do que Darwin. […] Como ele indica (ele esteve na África por muito tempo) o tipo comum do negro é apenas a degeneração de um tipo muito superior.”

Outro detalhe curioso é que, em sua correspondência pessoal, Marx usava o termo “nigger” (escrito em inglês mesmo) para se referir depreciativamente a quem ele não gostava. Como no caso de Ferdinand Lassalle, rival intelectual seu no campo socialista, a quem chamava de “judeu nigger”.

Isso nos leva ao antissemitismo de Marx, outro preconceito amplamente difundido no século 19, especialmente na Alemanha. A família de Marx era originalmente judaica. Seu avô foi rabino, e seu pai, Heinrich Marx, se converteu ao cristianismo. Karl não teve nenhum grande contato com a cultura e religião judaicas.

Sendo assim, ele acabou partilhando de muito do antissemitismo de sua época, reproduzindo estereótipos comuns. Os judeus só pensavam em dinheiro, queriam enganar os outros, eram usurários, pouco confiáveis. Em A Questão Judaica, Marx elabora:

“Consideremos o judeu concreto, mundano, não o judeu do Sabbath, como Bauer faz, mas o judeu cotidiano. Não procuremos o segredo do judeu em sua religião, e sim o segredo de sua religião no judeu real. Qual é a base secular do judaísmo? A necessidade prática. O auto-interesse. Qual é a religião mundana do judeu? A pilantragem. Qual é seu deus mundano? O dinheiro.

Então muito bem! A emancipação da pilantragem e do dinheiro, e consequentemente do judaísmo prático, real, seria a auto-emancipação de nossa época.

Uma organização social que abolisse as pré-condições da pilantragem, e portanto a possibilidade da pilantragem, tornaria o judeu impossível. Sua consciência religiosa seria dissipada como uma névoa fina no ar real e vital da sociedade.”

Marx jamais defendeu nada próximo da deportação ou mesmo extermínio dos judeus, e nem de sua etnia mais detestada, os eslavos. Essa “honra” fica com seu amigo Engels. Conclui ele num artigo para o Neue Rheinische Zeitung, jornal que ele e Marx publicavam:

“Entre todas as nações e grupos étnicos da Áustria, há apenas três que têm sido portadores do progresso. […] Os alemães, os poloneses e os magiares. Por essa razão eles são, agora, revolucionários. A grande missão de todas as outras raças e povos – grandes e pequenos – é perecer no holocausto revolucionário.”

COLONIALISMO

Hoje em dia, ser socialista significa lutar contra a exploração imperialista das nações poderosas. Para Marx, a coisa era um pouco diferente.

Segundo sua teoria, o advento do socialismo dependia do desenvolvimento radical do capitalismo. Quanto maior o progresso tecnológico e a exploração do trabalho industrial, maiores as contradições econômicas que criariam as condições da revolução.

Povos e nações atrasados em nada ajudavam nesse processo. Por isso, a empreitada colonial das grandes potências de seu século era um elemento de progresso, tirando nações do atraso do modo de produção asiático e trazendo-as para o capitalismo. Nas palavras do Manifesto Comunista, a burguesia capitalista “arrasta para a civilização todas as nações, até mesmo as mais bárbaras”.

Foi por esse motivo que ele defendia a Inglaterra em sua dominação da China – e isso mesmo depois da sangrenta Guerra do Ópio –, assim como sua presença na Índia. O colonialismo, ainda que brutal, era uma força de progresso. Isso fica mais claro em seus comentários sobre a Índia no artigo “O Domínio Britânico na Índia”, escrito para o New York Daily Tribune em 1853. Marx reconhece o sofrimento causado pelos ingleses, mas os vê como importantes para destruir o modo de produção e a cultura arcaicos e obscurantistas da velha Índia.

“A Inglaterra, é verdade, ao causar uma revolução social no Hindustão, foi movida apenas pelos interesses mais vis, e foi estúpida em sua maneira de persegui-los. Mas essa não é a questão. A questão é: pode a humanidade cumprir seu destino sem uma revolução fundamental no estado social da Ásia? Se não, quaisquer que tenham sido os crimes da Inglaterra, ela foi uma ferramenta inconsciente da História em promover essa revolução.”

 

TRABALHO INFANTIL

Haverá causa mais unânime hoje em dia do que o combate ao trabalho infantil? Direita e esquerda se unem para proibir e coibir essa prática.

Marx vivia em outros tempos, tempos em que o trabalho infantil ainda era realidade comum, como sempre fora ao longo de toda a história. E muitas mentes humanitárias, olhando para o trabalho infantil nas fábricas, desejavam proibi-lo. Essa era uma das plataformas do Programa de Gotha, a carta de propostas do Partido Social-Democrata Alemão.

Marx, em sua Crítica ao Programa de Gotha, escolhe esse ponto para uma de suas críticas. O trabalho infantil, desde que regulamentado, é um propulsor do desenvolvimento produtivo, e não deve, por isso, ser proibido.

“Uma proibição geral do trabalho infantil é incompatível com a existência de indústria em larga escala e, por isso, um desejo piedoso e vazio. Sua realização – se possível – seria reacionária, já que, com uma estrita regulação do tempo de trabalho de acordo com as diferentes faixas etárias e outras medidas de segurança para a proteção das crianças, a combinação desde cedo de trabalho produtivo com educação é um dos meios mais potentes para a transformação da sociedade presente.”

CONTRA A UNIVERSIDADE PÚBLICA, GRATUITA E DE QUALIDADE

Na mesma Crítica ao Programa de Gotha, Marx revela uma outra opinião sua que não cairia bem dentro da esquerda brasileira atual: universidade gratuita. O programa pedia educação compulsória gratuita para todos. Marx questionava a relevância disso: educação básica já era compulsória na Alemanha. Será que o programa se referia à educação superior? Nesse caso, seria absurdo. Afinal, pensava ele, quem frequenta a universidade? A elite. Universidade gratuita, portanto, era um jeito do Estado – todo o povo – financiar um privilégio da elite.

“Se em alguns estados dessa nação [os EUA] as instituições de ensino superior também são ‘gratuitas’, isso significa apenas bancar o custo da educação das classes superiores da receita geral dos impostos.”

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