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QUE TAL IMPORTAR UNS POLÍTICOS DA NORUEGA?

BANDEIRA DA NORUEGA

Devo a um amigo e eventual antagonista ter conhecido o bom artigo de Claudia Wallin estabelecendo relações entre os benefícios projetados para o Pré-Sal brasileiro e o “Oljefondet” alimentado pelo petróleo norueguês.

Na verdade, o artigo vai além da questão do petróleo em si. Tangencia também um tema para o qual tenho chamado atenção neste blog: a importância do equilíbrio financeiro como fator indispensável para assegurar direitos conquistados pela sociedade.

Respeitar a matemática é uma forma bastante prática e inteligente de evitar desastres como os que podemos observar na Venezuela (com todo seu petróleo) ou crises como esta em que a inconsequente “nova matriz econômica” adotada por Lula e Dilma a partir de 2008 colocou o Brasil.

Outro detalhe curioso: a frase sobre o desemprego dita por Siv Jensen, ministra das finanças da Noruega, poderia perfeitamente ser atribuída a Margareth Thatcher.

Já a seriedade na gestão do dinheiro público que o artigo indica é a um só tempo relevante e incômoda: mostra que é possível, mas o quanto estamos longe de tal seriedade.

No fim, foi uma agradável surpresa descobrir que há vida inteligente e sensata no DCM.

Fiquem com o artigo. Os negritos são meus*.

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O Fundo do Petróleo norueguês e o Pré-Sal brasileiro

 

CRÔNICAS DA ESCANDINÁVIA

Por Claudia Wallin

 

A essa altura, os noruegueses poderiam estar razoavelmente desesperados, ou já tramando algum pacto de suicídio. Os preços do petróleo despencam como uma jaca madura, e a Noruega deve sua riqueza e bem-estar ao ouro negro.

Mas não se fala em crise no país. Por quê?

Porque nos anos 90 a Noruega criou um Fundo do Petróleo (o “Oljefondet”), a fim de economizar a fabulosa fortuna do petróleo e assim assegurar o bem-estar dos cidadãos e das gerações futuras.

É o modelo que serviu de inspiração, em parte, para o fundo brasileiro do pré-sal.

Trata-se do maior fundo soberano do mundo – e pertence ao povo norueguês. Isso quer dizer que há limites rigorosamente demarcados para que os políticos possam tocar o dinheiro do petróleo, e que a gestão pública dos recursos obedece a rígidos critérios de transparência e ética.

Pergunte a um norueguês, e ele dirá: o Fundo foi criado para beneficiar os nossos filhos, e também os filhos dos nossos filhos.

O Oljefondet é controlado pelo Ministério das Finanças, mas gerenciado pelo Banco Central da Noruega. Foi o seu conselho de ética que decidiu no fim de janeiro, sob pressão das recorrentes denúncias de corrupção na Petrobrás, colocar em observação o investimento do Fundo na estatal.

No modelo norueguês, a regra de ouro é que o governo só pode gastar o dinheiro gerado pelo retorno dos investimentos das aplicações do Fundo, a um teto fixado em 4% ao ano. Mexer no capital do Oljefondet, só em circunstâncias especiais – o que nunca ocorreu, até a recente virada na maré dos preços do barril.

Desde o princípio, consolidar uma sociedade igualitária e manter a estabilidade da economia, com práticas de boa governança, foi a prioridade dada pelos noruegueses ao dinheiro que caiu do céu. Aliás, do mar.

A Noruega era um país de camponeses e pescadores quando descobriu imensas reservas de petróleo no Mar do Norte, no fim dos anos 60. O casamento da sorte com a prudência gerou uma prosperidade meteórica, que alçou o país ao clube dos mais ricos do planeta.

O povo norueguês deixou de ser um dos mais pobres da Europa, para se tornar um dos mais afluentes e socialmente justos: o país passou a escalar o topo de todos os rankings globais de progresso e bem-estar social, com sua sociedade que escolheu como ideal dar a todos os cidadãos as mesmas oportunidades e garantias de uma vida digna.

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Aos poucos, a Noruega se converteu no maior produtor de petróleo da Europa Ocidental, e o terceiro maior exportador de gás natural do mundo. E conseguiu transformar os recursos obtidos, sobretudo através dos impostos pagos pelas companhias petrolíferas e pelas licenças de exploração, em riqueza e prosperidade para a população como um todo.

Mas a queda dramática nos preços do petróleo vem perturbando o éden norueguês.

O valor do barril caiu de mais de 110 dólares, em 2014, para os atuais cerca de 30 dólares.

Dizem os noruegueses que o momento não é de crise – e sim de adaptação.

“Vendemos muito petróleo quando os preços estavam altos, e economizamos grande parte do dinheiro que recebemos”, diz Ragnar Torvik, professor de Economia da universidade de Trondheim.

“O resultado é que a economia norueguesa está bem equipada para enfrentar a queda dos preços do petróleo, e o desafio da diversificação”.

Mas o país acende a luz amarela: pela primeira vez desde a criação do Oljefondet, os noruegueses recorrem agora ao seu gigantesco Fundo soberano do petróleo, de mais de 800 bilhões de dólares, para equilibrar o orçamento.

O setor petroleiro responde por cerca de 25% do PIB norueguês, e diversificar a economia para quebrar a dependência do ouro negro é preciso. Já.

No país que é um dos mais ricos do mundo em termos per capita, a demissão de quase 30 mil trabalhadores do setor desde 2014 é um fato, e o índice de desemprego atingiu 4,1% em 2015.

“A economia norueguesa, como um todo, não está em crise”, diz a ministra das Finanças, Siv Jensen. 

“Mas é uma crise para as empresas, as regiões e as famílias afetadas pela transformação estrutural da economia”.

Fica a lição norueguesa: a palavra de ordem é usar o dinheiro do Fundo com sabedoria, e agir como se o petróleo já tivesse acabado.

10 de Julho de 2016 para o Diário do Centro do Mundo

___________________________________

* Comentários iniciais e negritos de Paulo Falcão.

 

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11 comentários em “QUE TAL IMPORTAR UNS POLÍTICOS DA NORUEGA?

  1. JPaulo Borba de Quadros
    07/12/2016

    Se corromperiam pelo nosso sistema. O sistema não deve esperar que o político seja honesto. Ele deve ser naturalmente blindado. Ou seja, a constituição deve ser um limitador incondicional do poder do estado. Quanto menos estado e menos poder para políticos, menos corrupção. Onde existe estado, existe corrupção.

    • Questões Relevantes
      07/12/2016

      JPaulo, o título do artigo é uma brincadeira, um provocação para nos lembrar o quanto ainda temos que caminhar.

      Quanto à questão de “onde existe Estado, existe corrupção” é uma frase de efeito. O tamanho do Estado na Noruega é maior que no Brasil e a corrupção é menor. Mas concordo com você que precisamos construir sistemas que obriguem as pessoas a serem honestas. Sistemas que dependem de sorte, do “homem certo no lugar certo”, são sinônimo de problemas.

  2. Já tinha lido o artigo da Cláudia Vallin no DCM. Comentários sensatos. Só que não podemos fazer comparações com o caso do Brasil. Em primeiro lugar a Noruega descobriu grandes jazidas de petróleo em 1960. A Petrobras nasceu, contra tudo e contra todos, em 1953 e já tinha uma faca nos peitos do “relatório Link” dizendo: “O BRASIL NÃO TEM PETRÓLEO”. A luta foi ardua e graças ao fantástico “corpo técnico” dela chegamos ao Pre-Sal. Nós ainda nem somos auto suficientes para nosso consumo. Então foi só reinvestimentos de lucros para chegarmos aonde chegamos. Como criar um Fundo? Agora que íamos tentar uns entreguistas estão bombardeando! Então Paulo, cuidado com estes sofismas seus e ainda mais distorcendo o assunto para nos chamar de idiotas dizendo que somos contra o equilíbrio fiscal com esta história da “nova matriz económica” do Lula. O que o Lula teve foi competência para não deixar o país cair no atoleiro criado pelos “donos do mundo” com seu capitalismo selvagem. Conseguiu chegar até 2014 só não continuou porque os “donos do mundo” não conseguiram resolver seus problemas. E claro o Brasil não é uma ilha está sendo afetado além de sofrer desestabilização violenta de golpistas, como se já não bastasse a queda do preço do Petróleo. Mas concordo com você, temos que mudar os nossos políticos.

    • Questões Relevantes
      07/12/2016

      Francisco, não estou comparando a exploração de petróleo na Noruega e no Brasil. Apenas ressaltando que evidentemente eles possuem uma ética e mecanismos de controle que nos faltam.

      Quanto à questão da responsabilidade fiscal, tem gente que acredita em contabilidade criativa, papai noel e que os deuses serão benevolentes conosco porque os absurdos cometidos são todos com boas intenções. Nunca dá certo.

      Sua leitura do governo Lula pós 2008 é uma leitura ingênua ou militante. Tanto faz. O fato é que o Brasil caminhou em direção à crise enquanto países Sul Americanos como Colômbia, Paru e Chile caminharam para fora dela. Na Europa, os Países com maior responsabilidade fiscal fizeram o mesmo. Os que apostaram contra a matemática estão pagando caro.

      Ao contrário de você, não brigo com os fatos nem crio narrativas convenientes para explicar fracassos.

      Como já disse no artigo BRASIL, A SÍNTESE DE TODOS OS VÍCIOS: ““de todos os conceitos derivados de “As Veias Abertas da América Latina” o que teve maior penetração e causou mais estragos no continente foi o que podemos chamar de “a exterioridade da culpa” ou “coitadismo”. Isto significa que a culpa dos problemas da América Latina é externa e não interna. É dos outros e não nossa. Não são nossas escolhas cotidianas que nos afligem, mas as imposições de exploradores.”

      No Brasil, somamos a esta desculpa eterna a característica de escolher o vício como traço cultural. O resultado não tem sido bom. Ou nos libertamos do determinismo auto infringido ou continuaremos contando os anos em fracassos e lamentações. É preciso entender que valorizar a malandragem e o “jeitinho brasileiro” é cultivar o vício e não a virtude.

      • Francisco Fábio de Paula Colares
        07/14/2016

        Para fazer comparações você tem de ver as condições dos comparados. Noruega, país pequena descobriu as maiores jazidas de petróleo da época, Preço deste elevado. Praticamente para exportação, pois o consumo era baixo. Resultado: grandes lucros. No caso do Brasil você deve conhecer a história, não preciso falar. Porque você insinua que não houve controle dos lucros. A Petrobras deu lucro, muito lucro e este foi bem aproveitado. Fez a Empresa chegar ao Pré-sal. Você acha pouco? Não queira denegrir a empresa porque uma meia dúzia de ladrões estavam roubando. Ela é muito maior do que isto. E não é isto que cria as dificuldade dela. O montante do roubo é insignificante para a grandeza dela. As dificuldades são outras que inclui o preço aviltado do petróleo. Acho que nós devíamos era estar enaltecendo o corpo técnico dela. Que com todo o chafurdo que estão fazendo continua a bater recordes de produção inclusive com aumento significativo no Pré sal.
        O resto da sua resposta é só ladainha de quem é incapaz de ver as realidades do que ocorre no mundo. Não existe “vitinismo” quando falo das conjunções externas. Elas são evidentes não só na América Latina, na Europa, na África e em todo mundo periférico aos “donos do mundo”. Pinçar um ou dois exemplos de alguém que está “menos ruim” só confirma a regra. São países pequenos que não servem de comparação. Na Europa então a grande maioria está bem pior do que o Brasil a não ser a desigualdade, que, esta sim, nos causa os seniores problemas. O que temos de fazer é combater esta desigualdade, o resto é bla bla bla

      • Questões Relevantes
        07/14/2016

        Francisco, tenho a impressão que você não entendeu nada do que leu. Em momento algum falei mal da Petrobrás. Criticar a roubalheira da qual foi vítima não é criticar a empresa.

        O resto de seu comentário, fazer o quê? Sua percepção da realidade não corresponde aos fatos.

        Quanto à desigualdade, sou a favor de iniciativas como a da Noruega, que reduz a desigualdade de oportunidades na educação e saúde e correlatos, ou seja, na infância. Combater a desigualdade entre adultos é sempre algum tipo de autoritarismo, de arbitrariedade.

      • Tudo que fala a meu respeito retorno. Você é que não quer enxergar como o mundo realmente é. Nos temos de combater a desigualdade é aonde ela estiver, não é só no iníco da vida. Concordo que esta fase é essencial mas tem que ter atuação ao longo de toda vida. Não sei onde você encontra autoritarismo ou arbitrariedade no amparo a um adulto fragilizado., não entendi.Quem tem de trabalhar contra a desigualdade é o Estado não é o individuo, se este o fizer ou é caridade (para ganhar o ceu) ou para ter um retorno. É da natureza humana, pela sua parte animal, dominar o mais fraco. .Temos que evitar isto por leis, que sendo leis, na democracia são acordadas. Você quer deduzir que a qualidade de vida nos países nórdicos vieram das leis do “mercado” e não é verdade. Elas vieram do socialismo por eles cultuado. Compare a carga tributária deles e não só a carga como também onde ela incide.Ela é alta, para o Estado ter as condições e é realmente proporcional a renda de cada um. Se adotarmos estas políticas chegaremos à onde eles estão. O resto é blb bla bla que você tanto gosta.

      • Questões Relevantes
        07/15/2016

        Sobre o governo da Noruega e outras socialdemocracias, leia
        A PROVA DE QUE A DIREITA TEM CORAÇÃO
        http://wp.me/p4alqY-kz

        Sobre a desigualdade, Eduardo Gianetti da Fonseca afirma que quando o governo age para promover igualdade “na partida” , como educação de qualidade para todos, por exemplo, está sendo justo e democrático. Quando age para promover a igualdade na chegada, como o rebaixamento das exigências de acesso à Universidade por sistemas de cotas, por exemplo, não reduz a desigualdade, já que não houve uma melhora na formação dos cotistas, houve apenas um truque estatístico, mas está sendo injusto e autoritário.

      • Já tinha lido o artigo que você recomenda agora. Não me diz muita coisa. São disserações teóricas que tem seus valores como teoria. Já falei, não sou teórico nem erudito. Que seja! Sou um “casca grossa” Leio tudo sem me apegar a nada.Você já me definiu que sou uma pessoa que quer um “socialismo para chamar de meu”. É possível! A sua concpção de esquerda me dá pavor. Você ainda acha que comunismo “come criancinha”. Inclusive deturpa o que outros teóricos disseram e diz qua a esquerda quer luta para dominar. Isto é uma bobagem e grande bobagem.No “meu socialismo” todos terão liberdade individual ATÉ ESTA ENTRAR NA LIBERDADE DO OUTRO E NO CONFLITO O COLETIVO É PREVALENTE. É simples assim. Os países nórdicos estão no caminho!
        -Sobre desigualdades. Gianetti como você erram. Primeiro não existe rebixamento de exigencias para acesso. O que existe é uma reserva de vagas para “cotista” o que difere muito de rebaixamento. As exigências são as mesmas. Sim. a primeira vista parece injusto com os não cotistas. Mas não é. É um resgate de um dívida do Estado para este indivíduo. O Estado não cumpriu as obrigações com ele. O Estado não promoveu, quando ele criança, o que você mesmo fala “a igualdade na partida” Quando isto for feito, cotas não serão necessárias. “Cotas raciais” é resgte de PRECATÓRIA não paga. O Estado legalizou injustiças contra os negros tornando-se cúmplice de crimes. O mínimo que tem que fazer hoje é minimizar as consequencias das consequencias do que aconteceu.

      • Questões Relevantes
        07/16/2016

        Francisco, você está errado do começo ao fim, mas acredita que está certo. Quem nos ler que tire as próprias conclusões.

      • Devolvo com mais vigor…

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