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Em julho de 2013, em artigo de Adrian Wooldridge que analisa os ajustes no famoso estado de bem-estar social dos países nórdicos, lemos a seguinte declaração do historiador dinamarquês Gunnar Viby Mogensen: “O nosso Estado de Bem-estar é excelente em diversas formas. Só tem um pequeno problema, nós não temos como pagar por ele”.

A conclusão de Wooldridge sobre os motivos que levaram os países nórdicos a fazerem ajustes que recuperem o equilíbrio financeiro é óbvia para ele (e para mim): alcançaram o limite do tamanho do governo. Não há nem mesmo como manter o tamanho atual. O risco é “quebrar” e acabar de uma vez com a festa.

A situação da França de François Hollande é diferente mas também envolve a insustentabilidade de uma série de direitos adquiridos que são uma bomba-relógio muito perto da explosão. Não deixa de ser irônico, é claro, que a tarefa “neoliberal” tenha no comando um socialista.

Não é maldade. É a matemática exigindo um choque de realidade.

O fato é que a França demorou muito para fazer os ajustes necessários e, quanto maior a demora, mais o problema se agrava e mais drásticas se tornam as soluções.

É claro que em um país fortemente sindicalizado, tais ajustes enfrentam feroz e organizada resistência.

Entre os pontos mais polêmicos do projeto de lei da ministra do trabalho Myriam El Khomri, está a maior facilidade para demitir trabalhadores por razões econômicas e o aumento da jornada máxima de trabalho das 48 para até 60 horas semanais, incluindo ai as horas extras.

Ou seja, é preciso recriar condições para que a França volte a gerar riqueza capaz de cobrir, com impostos, os custos dos direitos adquiridos.

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As greves explodiram e explodiu também a violência em manifestações de rua.

Quem acompanha as opiniões da esquerda pôde observar um fremir, uma certa satisfação com a violenta reação dos trabalhadores franceses. O onipresente Zizek voltou a ser citado, evocando-se seu famoso conceito de potência disruptiva e negativa, obra de sujeitos não-substanciais. Outros discorreram sobre a insustentabilidade do capitalismo que, agora sim, estaria com seus dias contados.

Há, digamos assim, uma satisfação otimista e ingênua com a desgraça dos franceses, imaginando que venham a ser novamente o centro de uma revolução.

O triste é que mais uma vez a esquerda aposta suas fichas em uma esperança sem amanhã. Trata-se de um jogo que não tem como vencerem.

Se o governo recuar, os benefícios acabarão pela “fadiga de material”: as contas públicas e a economia francesa entrarão em colapso. Será ainda pior que o proposto por Myriam El Khomri e François Hollande. Será uma nova Grécia.

Se não recuar, a França talvez se recupere, mas a esquerda e os sindicatos terão perdido o braço de ferro.

Mais uma vez fica demostrado que no conflito entre a ideologia e a matemática, a dura realidade dos números se impõe.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

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