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Há um vídeo famoso de Deleuze em que ele arrisca uma definição do que é “ser de esquerda” e que já analisei em um artigo chamado DELEUZE, A ESQUERDA E O CEGO NO LABIRINTO CIRCULAR. Fui bastante irônico na ocasião. Resolvi voltar ao tema com um ponto de vista diferente: assumindo, ao menos inicialmente, como verdadeira sua tese.

O vídeo está aqui.

Nele, a síntese é que não existe governo de esquerda porque a esquerda não tem nada a ver com governo, com exercer o poder; e que ser de esquerda é pensar no coletivo antes que no indivíduo (teoria do código postal).

Se aceitamos que isto está correto, que realmente define a esquerda, precisamos concordar que toda forma de governo que se diz de esquerda já não o é. Ou seja: a esquerda só é esquerda enquanto pulsão, enquanto potência, enquanto desejo. No caso específico de Deleuze e sua obra, a esquerda só é esquerda quando inserida na democracia liberal e capitalista. É um processo de simbiose. Virou poder já não é esquerda.

Logo, a ditadura do proletariado prevista por Marx não é de esquerda.

O fim da propriedade privada dos meios de produção por meio de uma revolução não é de esquerda.

Os governos de Cuba, da China e da Coreia do Norte não são de esquerda.

Os governos da URSS, Alemanha Oriental, Camboja, Vietnã, Polônia e Albânia não foram de esquerda.

E são o que, então? Como defini-los?

Se aceitamos a proposta de Deleuze para “ser de esquerda”, do que vamos chamar estas outras alternativas?

Podemos colocar em um mesmo balaio Deleuze, Guattari, Badiou e Zizek, por exemplo?

 

AS PALAVRAS E AS COISAS

 

Em debates com acadêmicos que se declaram de esquerda, frequentemente me deparo com conflitos lógicos deste tipo. Escolhi a entrevista de Deleuze como ponto de partida porque ela explicita de forma muito clara a contradição.

Se tomarmos como base a esquerda original, a da Revolução Francesa,  ser de esquerda era defender valores burgueses, como nos lembra Mariana Nóbrega: “Foram os filósofos iluministas, representantes da burguesia, que consolidaram a concepção de direitos civis e políticos universais, o que permitiu o despertar da ideia de direitos humanos e o surgimento de movimentos como o feminista e o abolicionista (contra a escravidão). 

Os direitos civis têm como pedra de toque a liberdade individual. Nessa categoria estão os direitos à vida, à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei, prerrogativas que se desdobram na garantia de livre circulação, manifestação e organização, na inviolabilidade do lar e da correspondência, na garantia de um processo legal justo e no respeito às leis impostas pelo Estado por meio de uma Constituição. Os direitos políticos dizem respeito à participação dos cidadãos e cidadãs nas decisões relativas aos destinos da sociedade a qual compõem. O seu exercício corresponde à possibilidade de votar e ser votado, formar grupos políticos e organizar partidos. É possível existir direitos civis sem direitos políticos, no entanto, a plena realização dos direitos políticos só acontece com a realização dos de natureza civil”.

Por outro lado, se tomarmos como base as definições que se tornaram estatisticamente hegemônicas a partir do final do século XIX, ser de esquerda é ter como objetivo a superação da democracia liberal, bem como a expansão do controle estatal na economia até a extinção da propriedade privada dos meios de produção.

Observe que são definições mutuamente excludentes. Chamar as duas de “esquerda” é investir na confusão. Não podemos chamar semáforo de liquidificador e achar que faz sentido. Não faz.

Assim, ouso dizer que a definição de Deleuze para “ser de esquerda” está errada e que ele próprio era de direita.

Para ser bem claro: conceitualmente falando, quem tem a democracia representativa como valor fundamental ocupa uma estreita faixa do espectro político que vai do centro (social democracia) ao liberal conservador. Embora estreita, acomoda desde o libertário até o tradicionalista.

E quem são aqueles que não têm a democracia representativa como valor fundamental?

Quando à direita, são fascistas, nazistas, fundamentalistas, déspota e ditadores (populistas ou não).

Quando à esquerda, se auto intitulam revolucionários, socialistas, comunistas e até anarquistas. O curioso com aqueles que ocupam esta faixa do espectro ideológico é que conseguem ver mais democracia na “ditadura do proletariado” do que na nossa imperfeita e assimétrica democracia representativa.

Não faz sentido. Nenhum. Mas há dezenas de teses que insistem em chamar a “ditadura do proletariado” de democrática, mesmo que onde tenha ocorrido as pessoas tenham perdido até mesmo o direito de ir e vir.

Vão além em suas análises. Insistem que a democracia representativa, responsável pelo mais alto grau de liberdade que as sociedades humanas já experimentaram, é na verdade opressora.

Pense nisso. Como disse acima, não dá para chamar “semáforo” de “liquidificador”. Quer dizer, até dá, mas causa muito mais confusão do que esclarecimentos.

Quando as palavras e as coisas se alinham, o debate de ideias e a clareza só têm a ganhar.

É obvio. Só não acontece porque a esquerda prefere a imprecisão semântica. Chamar as coisas pelo nome que têm seria fatal para ela. Acabaria com todo o charme.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

 

 

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