cara-pau-dest

Os fatos deveriam ser o único fator considerado em um trabalho jornalístico e deveriam ter o mesmo peso nas opiniões que emanam da academia.

No jornalismo, tal necessidade, embora óbvia, é frequentemente trocada pela preguiça de verificar os fatos, alinhamentos ideológicos e acertos comerciais.

Nas universidades brasileiras a situação tem se mostrado ainda mais grave, principalmente na área de humanas. Professores, mais ainda quando se manifestam em bloco, usam a força das instituições em que trabalham e fazem crer que falam em nome delas. Dão peso e respeitabilidade ao assunto. Quando fazem isto fraudando os fatos, o prejuízo é enorme, para eles e para nós.

Foi exatamente assim que nasceu a narrativa de que o impeachment de Dilma foi um golpe. Quem analisar direitinho o desenvolvimento desta teoria da conspiração vai perceber que trata-se de uma aula de como vender uma fraude.

Nestas terras macunaímicas há quem veja isto como esperteza. É o tal dos fins que justificam os meios. Mas acredite: é o fim da picada.

Alguém poderá dizer que os principais jornais do mundo já disseram ou insinuaram ser golpe. É verdade. Mas quem são as fontes destes jornais?

Pense um pouco. Nos EUA ou na Europa um professor que minta deliberadamente estará liquidado em sua carreira acadêmica. Será demitido. Não terá mais qualquer espaço. Logo, para eles é praticamente impossível acreditar que tantos professores brasileiros estejam mentindo juntos, em bloco.

Assim, a narrativa do golpe é passada adiante como “verdade” e amplificada pela mídia, em alguns casos com a ajuda de jornalistas internacionais, alinhados à esquerda, como neste exemplo relatado em editorial pelo Estadão: um jornalista usou uma rotineira entrevista do porta-­voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Mark Toner, para tentar induzir a Casa Branca a reconhecer que houve um “golpe” no Brasil e que a democracia no País foi arruinada. Na entrevista, dia 24 passado, o jornalista, não identificado, mencionou os diálogos entre o então ministro do Planejamento, Romero Jucá, e o ex­-presidente da Transpetro Sergio Machado – a quem o repórter chamou de “ex-­magnata do petróleo” –, sugerindo ter havido ali um arranjo para derrubar Dilma. Então o repórter perguntou: “À luz dessas revelações, não seria hora de começar a considerar que o que aconteceu no Brasil pode ter sido um golpe brando?” 

O porta-­voz Mark Toner respondeu que, para o governo americano, conforme já manifestado “várias vezes”, o processo democrático brasileiro e suas instituições “são estáveis o bastante e fortes o suficiente”, razão pela qual o País “é capaz de superar sua crise política”. Em seguida, para encerrar a conversa, disse: “Desse ponto em diante, não falarei sobre a política interna do Brasil”. O verdadeiro papel daquele jornalista ficou explícito: não se tratava de fazer uma entrevista, mas sim de provocar um constrangimento. Disse o repórter: “Bom, isso é interessante. O novo governo acabou com todas as investigações anticorrupção contra os políticos que a ele haviam aderido” – algo que simplesmente não é verdade. E ele desatou a fazer um discurso como se estivesse numa assembleia estudantil: “Eles começaram a vender bens estatais, estão falando em mudar a política externa brasileira e formaram um Ministério inteiramente masculino, feito de gente ligada ao mercado e à indústria, gente que era hostil a uma porção de prioridades do governo anterior, e nada disso foi feito com o voto popular. O povo não teve nenhuma palavra nisso. Houve mesmo um processo democrático? Os Estados Unidos consideram aquilo um processo democrático?” 

Ele não estava, evidentemente, questionando o porta-voz Mark Toner, mas pautando os colegas. Talvez tenha ganho o dia. Talvez tenha feito outros jornalistas perseguirem esta mentira, mas em algum momento ficará clara a monumental fraude desta tese.

E quando isto acontecer? Nenhum dos professores vigaristas que assinou listas e manifestos com esta tese será importunado ou demitido, claro, já que gozam de imensa estabilidade. Então, neste momento, o mundo olhará com desdém para nossas universidades e nosso país e daremos um salto de 53 anos para trás, pois fatalmente alguém lembrará a famosa frase de Carlos Alves de Souza Filho diplomata brasileiro, erroneamente atribuída a Charles de Gaulle: “O Brasil não é uma país sério”.

 

PS depois de alguns dos debates da área de comentários: Quem desejar se aprofundar no assunto e entender a fundamentação legal do impeachment, o link abaixo leva ao pedido de impeachment aceito pela câmara e avaliado no senado. O principal está nas páginas 15 a 30:http://www.zerohora.com.br/pdf/17802008.pdf

Artigo de Paulo Falcão.

 

 

Anúncios