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Os diálogos entre Sérgio Machado e Romero Jucá publicados pela Folha de S. Paulo são graves, mas as conclusões alardeadas aos quatro ventos pela tropa de elite do PT, confortavelmente acomodada nas universidades, partidos de esquerda e em parte da imprensa são estúpidas.

Não há dúvida, Romero Jucá tem que se afastar do governo. Em minha opinião, deveriam sair também todos que de alguma maneira estão implicados na Lava-Jato ou outros casos de corrupção.

Mas isto está longe de significar que o impeachment tenha sido um “acordão” para sepultar a Lava-Jato.

Em momentos assim é fundamental socorrer-se de duas coisas: a memória e a lógica.

A memória nos socorre ao lembrar que há também uma gravação do Líder do PT no senado, Delcídio Amaral, tramando a fuga do Cerveró e envolvendo nomes do STF.

Há a delação premiada do Delcídio, homologada no STF, implicando Dilma e Lula.

Há a gravação de Dilma e Lula tramando abertamente a obstrução da justiça.

Há o fato de Jucá ter sido um forte aliado de Dilma até o final do mandato anterior.

Assim, a memória nos ajuda a concluir que há muitos políticos, de muitos partidos, que gostariam de ver a Lava Jato acabar em pizza. E neste momento vem a dureza da lógica.

A Lava-Jato tem seu foco principal na rapinagem da Petrobrás e Eletronuclear.

Pois bem. Quem tinha poder de chantagem era o governo federal e os partidos da base aliada.

Quem poderia aprovar ou dificultar contratos era o Governo federal e os partidos da base aliada.

Quem está preso por acharque e corrupção são pessoas ligadas ao Governo Federal e a partidos da base aliada.

Os desvios localizados envolvem pessoas ligadas ao Governo Federal e a partidos da base aliada.

E daí?, pergunta o militante. Isto quer dizer que os partidos de oposição são honestos?

Claro que não, mas o fato é que não estão no centro da investigação, não são os alvos, não tinham poder para influir nas negociatas, a não ser em consórcio com o governo federal e sua base aliada.

Em outras palavras, para que não haja dúvida: não são os principais interessados em acabar com a Lava-Jato.

Em um debate meu com uma socióloga e ativista chamada Simone Wolff, lá pelas tantas ela afirma que “Quando a corrupção é um fato geral não se torna mais critério”. Respondi que finalmente ela havia dito algo que fazia sentido e a lembrei que o foco do impeachment não foi a corrupção, mas sim a incompetência. Dilma está saindo porque quebrou o Brasil. O crime de responsabilidade foi apenas o fato formal que permitiu seu afastamento. Exatamente como no caso Collor.

Honestamente não tenho qualquer expectativa de que esta gente crie vergonha e mude de atitude. Cabe à nós, a quem pensa, a quem tem discernimento, identificar o engodo e denunciar o ridículo.

 

Artigo de Paulo Falcão.

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