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A ESQUERDA QUE CHAMA O IMPEACHMENT DE “GOLPE” É A MESMA QUE SILENCIA DIANTE DO CARRASCO DE CARACAS.

kkkkkkkkkkk

Há tempos chamo a atenção para o fato da Venezuela já não ser uma democracia.

O primeiro e longo artigo sobre isto é ainda do tempo de Hugo Chávez. A situação foi se deteriorando, o que era o curso natural daquele projeto de poder.

Mais recentemente, em outro artigo, lembrei que “Lula dizia então que por lá havia democracia até demais”.

Petistas e a esquerda em geral achavam que estava bom. Que aquele projeto merecia ser defendido, talvez até copiado.

Continuaram apoiando o governo venezuelano mesmo quando começaram a prender opositores e a assassinar pessoas em manifestações políticas pacíficas.

Agora a situação está ainda pior. O caos é o estado permanente das coisas. Mas segue o silêncio da esquerda, segue o silêncio de quem adora assinar listas e chamar de golpe o impeachment da Dilma. A esquerda brasileira continua apoiando o que a própria esquerda “chavista” já começou a criticar…

Este fato revela que o compromisso destas pessoas com a Democracia é apenas retórico. Na prática, no máximo a toleram.

Felizmente foram apeados do poder, espero que permanentemente. O novo governo começou titubeante, com indicações desastradas para ministérios, mas talvez já possa ser útil para ajudar a população venezuelana a defender-se do carrasco de Caracas.

Espero que José Serra siga rigorosamente o conselho de Clóvis Rossi no artigo abaixo.

_________________ 

Falar é pouco, Serra

CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP – 19/05

O ministro das Relações Exteriores, José Serra, discursa na transmissão de cargo no Itamaraty

Para ser fiel ao discurso de posse, em que prometeu ser vigilante com violações da “democracia, liberdades e direitos humanos em qualquer país”, o ministro José Serra deve apoiar a iniciativa da Human Rights Watch de pedir à Organização dos Estados Americanos a aplicação da cláusula democrática à Venezuela.

A HRW alega que “o colapso da independência judicial na Venezuela e a consequente propagação das violações aos direitos humanos e da impunidade afetam princípios fundamentais consagrados na Carta [da OEA] e em outros acordos regionais”.

Tem toda a razão, mas, para que a OEA possa de fato considerar a petição, é fundamental que um país-membro a respalde.

O Brasil deveria ser o primeiro a fazê-lo. Se a Venezuela de Nicolás Maduro pode dar palpites sobre assuntos internos do Brasil, como o fez ao considerar golpe o impeachment de Dilma, por que o Brasil não pode fazer o mesmo?

Como ensina Marcos Troyjo, em sua coluna online desta quarta-feira (18), “só na superfície, ou no senso comum, agir diplomaticamente é ‘colocar panos quentes’, ‘engolir sapos’ ou ‘ficar numa boa com a turma toda’. Às vezes, diplomacia é abandonar meias palavras; deve-se falar e agir no tom mais severo possível”.

No caso venezuelano não se trata de defender só a democracia, claramente violada pelo governo de Nicolás Maduro, mas de tentar salvar a própria Venezuela.

O cenário atual é descrito à perfeição por Moisés Naïm e Francisco Toro, em artigo para “The Atlantic”:

“Nos últimos dois anos, a Venezuela experimentou o tipo de explosão que raramente ocorre em país de renda média como ela, exceto em caso de guerra. As taxas de mortalidade estão disparando; um serviço público depois do outro está entrando em colapso; inflação de três dígitos [720% este ano] deixou mais de 70% da população na pobreza [76%, para ser exato]; uma onda incontrolável de crime mantém as pessoas trancadas em casa à noite; consumidores têm que permanecer na fila por horas para comprar comida; bebês morrem em grande número por falta de remédios simples e baratos e de equipamento nos hospitais, assim como os mais velhos e os que sofrem de doenças crônicas.”

Até a esquerda “chavista” (a do Chávez original, não a de seu sucessor desastrado) critica o governo e duvida de sua alegação que trava uma “guerra econômica” e acena com uma invasão que só ele vê.

Escrevem para o sítio “Aporrea”, em que essa esquerda se expressa, Toby Valderrama e Antonio Aponte: “Outra vez, o governo fala de guerra, de invasões, de perigos estrangeiros, comportando-se como a criança que fez estragos na cozinha e acusa a irmã, a empregada (…). Que estranho esse governo que nunca se equivoca, não retifica nada, ao contrário, reafirma os decretos e condutas que todos veem que não funcionaram.”

Só o referendo revogatório daria aos venezuelanos a chance de escolher um novo governo capaz de tentar condutas que, de repente, funcionem. Mas só a pressão externa permitiria, eventualmente, que ele se torne realidade.

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Abertura e costura do artigo de Paulo Falcão.

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7 comentários em “A ESQUERDA QUE CHAMA O IMPEACHMENT DE “GOLPE” É A MESMA QUE SILENCIA DIANTE DO CARRASCO DE CARACAS.

  1. Fabio
    05/21/2016

    Paulo com inflacao anual beirando 200% nao tem bolivarismo que resista como diz Mujica o Maduro esta louco se levar para o estagio 4 vai ser guerra civil .

    • Questões Relevantes
      05/21/2016

      Já está quase em guerra Civil. Acho que está é faltando armas para a população.

  2. Marcus Vinicius
    05/20/2016

    O mais violento enfrentamento vem exatamente da Organização dos Estados Americanos a quem Maduro sempre recorreu e se escondeu embaixo do seu guarda-chuvas. O Secretário Geral da entidade, Luiz Almagro divulgou no final da tarde desta quarta, 18, em sua conta oficial do Twitter uma nota devastadora. Em um dos trechos rebate a afirmação de Maduro que seria um agente da CIA. Noutro trecho da mensagem diz: Deves devolver a Assembleia Nacional seu poder legítimo, porque o mesmo emana do povo e deves devolver a ele, o povo, o poder de decidir sobre seu futuro. Não poderás devolver nunca a vida das crianças que morreram nos hospitais por falta de médicos e medicamentos. Não escaparás da condenação por ter provocado tanto sofrimento, tanto medo, tanta miséria e tanta angústia no teu povo”.
    ( C.V )
    Exato! Nao escaparas da condenacao! Nem você nem aqueles que te apoiaram. O PT apoiou você e seu regime e vice versa. Dilma e Lula apoiaram você e seu regime nefasto e criminoso. Não esqueceremos disso.

  3. Paulo: que eu saiba, a Venezuela é uma democracia liberal, sim. Tanto que recentemente a oposição ganhou maioria parlamentar, o que a estimula a lutar pela deposição do presidente, algo previsto num referendo revogatório. Vários já foram tentados, mas Chávez ganhou. Foi a essas vitórias que Lula se referiu.

    Chávez ganhou: ditadura. Oposição ganhou: vitória da democracia. Vc sofre do mal do liberalismo brasileiro. Os liberais aqui existem sem revoluçao liberal, burguesa. Só exercitam seu liberalismo de forma fraca, pois como se viu em 64, facilmente cedem para soluções autoritárias se for do seu interesse, usando a democracia de forma puramente instrumental.

    O que há na Venezuela é um populismo em transe com a crise mundial. Mas o estado é dividido entre situação e oposição, tanto que vários estados e cidades são governados por opositores a Maduro.

    Mas eu reconheço que são inúmeras as contradições do populismo, só não são as que vc consegue enxergar, antolhado por uma mídia muito conservadora. Por exemplo: os tais conselhos populares são para inglês ver, sem poder efetivamente. Já a lei habilitante parece ser algo como as leis que DIlma manipulou: lei geral da Copa, lei anterror. Mas nada disso te preocupa. Aliás, a imagem escolhida dá a entender que na Venezuela vc apoia os black block. E os daqui?

    • Questões Relevantes
      05/19/2016

      Lúcio, eleições não definem uma democracia. No artigo escrito ainda nos tempos de Chávez, comento que “para um Governo ou Pais ser considerado democrático, há algumas pré-condições fundamentais: a ocorrência de eleições livres; a existência e independência de três esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário); a liberdade de opinião e expressão.

      Ao eliminar ou sabotar qualquer uma destas pré-condições, não temos mais uma democracia. Quando é o Executivo quem age minando a independência entre poderes, a liberdade de expressão ou a ocorrência de eleições em condições isentas, estamos diante da construção e/ou consolidação de um estado totalitário”.

      A esquerda tem dificuldade em admitir este fato porque de fato vê a “democracia burguesa” como algo no máximo tolerável, jamais como um valor fundamental.

      Chávez e Maduro não conseguiram silenciar totalmente a oposição na Venezuela e foram perdendo força à medida que suas ações pioravam a economia do país.No fim, é como dizia James Carville, o conselheiro de Clinton: é a economia, estúpido!

      Em outro artigo, do início de novembro de 2014, logo após a reeleição de Dilma eu dizia:

      “A esquerda e o PT acreditam que aparelhando tribunais, autarquias, congresso, repartições, estatais etc vão conseguir mudar até as leis da oferta e da procura ou a lógica da economia. Imaginam que todos os movimentos, todas as experiências internacionais falharam porque não tinham um Lula, um José Dirceu ou uma Dilma manejando o leme do destino. Mas para quem entende um pouco de economia, de natureza humana e de matemática, Brasil, Argentina e Vanezuela formam um gráfico que mostra diferentes estágios da evolução desta “doença”.

      No Brasil, com estrutura econômica e política mais sólida, com maior vigilância da sociedade civil, o caos evolui mais lentamente. Na Argentina, já vemos o estágio 2, com dólar paralelo e índice de inflação totalmente descolados da “verdade oficial”, desemprego crescente e falência financeira. Na Venezuela, infelizmente, chegou-se ao estágio 3, ou seja, terminal. Dificilmente o país sai desta crise sem muito sofrimento para toda a população.

      Dá para evitar o desastre no Brasil, mas apenas se o governo abandonar os dogmas do PT, como fez Lula quando ganhou a primeira eleição para presidente. Percebendo que havia um clima de pânico nos mercados por medo da agenda histórica do partido, com forte alta do dólar (beliscou os R$ 4,00), inflação acelerando e economia parando, Palocci lançou a famosa “Carta aos Brasileiros”, Lula nomeou o ex-presidente mundial do Banco de Boston como presidente do Banco Central e o próprio Palocci como ministro da fazenda. Mais do que isso, rasgou os panfletos petistas e adotou a agenda do PSDB. Os mercados se acalmaram e ele pode fazer um bom governo.

      Mas sabem como é, velhos hábitos são difíceis de serem abandonados. Desde a metade do segundo mandato de Lula, como disse o ex-ministro Nelson Jobim, os idiotas perderam a modéstia e passaram a acreditar que podiam inventar a roda quadrada. O país entrou na descendente e se viu novamente em estado de alerta, agora por conta da vitória de um projeto de poder movido a rompantes, com a gestão voluntariosa e pouco profissional do governo e dos fundamentos da boa governança econômica.

      Se Dilma abandonar a cartilha do PT e colocar gente que o mercado reconheça como competente à frente da economia, tudo vai se acalmar. Se insistir nos imodestos companheiros e neste script para o desastre, a vida dos brasileiros será cada vez mais um inferno. O demônio da economia não aceita desaforos por muito tempo”.

      Não deu outra.

  4. Jornal do Siúves
    05/19/2016

    Excelente. Da coluna do Rossi, o artigo da The Atlantic, que comentei no jornal, é de arrepiar os pelos. Você me deu a ideia de aproveitá-lo melhor.

    • Questões Relevantes
      05/19/2016

      Obrigado.

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