ajuste_fiscal_e_confianca

“Certas ideias precisam ser combatidas porque trazem em si um grande potencial de sofrimento, principalmente para as camadas mais pobres da população”.

Cunhei a frase acima como ponto de partida para uma discussão necessária.

Ela pode ser utilizada para criticar a lei de responsabilidade fiscal e os dolorosos ajustes que hoje são exigidos no Brasil.

Também pode ser utilizada para criticar a irresponsabilidade fiscal que desarruma a economia, gera inflação, redução da atividade econômica e acaba por levar à medidas amargas para reverter o quadro.

Quem está com a razão? Simples: a matemática.

Toda vez que a ideologia aposta contra a matemática, o desastre é certo.

A crise de 2008, por exemplo, foi causada por irresponsabilidade fiscal do setor bancário, principalmente norte-americano, associada à falta de controle por parte dos órgãos responsáveis. O próprio Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, alertou em 1996 para a “exuberância irracional” do mercado de ações e imobiliário, mas de fato não fez nada para corrigir o problema e impedir a crise que acabou acontecendo.

Em 2005 o problema já estava na mesa de discussões há algum tempo mas uma “cegueira” (voluntária ou não)  impediu Ben Bernanke de reconhecê-lo. Na sabatina que precedeu sua aprovação como chairman do Fed, afirmou não acreditar que o aquecimento no mercado de imóveis fosse uma bolha prestes a explodir.

Sei que não é uma “irresponsabilidade fiscal” típica, porque este termo costuma ser aplicado ao setor público, mas sem dúvida foi uma aposta contra a lógica, contra a matemática, já que a capacidade de valorização de ativos e a capacidade de endividamento de agentes públicos e privados têm limites.

Outro exemplo importante é o da Inglaterra de Margaret Thatcher. A coleção de insultos da esquerda à Dama de Ferro é longa…e injusta. Criticar Thatcher pelos ajustes que realizou é como culpar o obstetra pela gravidez da paciente ou pelo sexo da criança.

Seu governo teve início em 1979 e encontrou uma economia em crise, fortemente estatizada. A inflação de quase 25% ao ano (um escândalo para o país da Libra Esterlina) era consequência de uma longa irresponsabilidade fiscal “em nome do bem”.

Os ajustes realizados por Thatcher foram duros e acusados de desnecessários pela esquerda que nunca consegue enxergar a relação de causa e efeito que existe entre irresponsabilidade fiscal e crise. A história demonstra com clareza que inflação e desemprego são filhos da irresponsabilidade fiscal, mas seus autores jamais reconhecem a paternidade/maternidade.

Como lembro no artigo Teoria das Gavetas, Margaret Thatcher “elaborou um programa rigoroso para inverter este cenário, com elevação dos juros (para reduzir consumo e ajudar a controlar a inflação), ajuste das contas públicas via redução dos gastos governamentais (contas públicas elevadas também pressionam a inflação) e redução da presença do estado na economia via privatização da maioria das empresas estatais. O resultado destas medidas, em um primeiro momento, foi negativo: a economia desacelerou, empresas e bancos quebraram, o desemprego triplicou, os conflitos com sindicalistas foram brutais (de ambos os lados e em todas as acepções do termo). Mas uma vez feitos os ajustes, a Inglaterra, que estava em rápido declínio econômico desde o pós-guerra, voltou a crescer, o emprego subiu, o investimento externo (não especulativo) triplicou.  Não foi uma retomada livre de sobressaltos, mas alguns números são importantes: em 1981 o PIB já havia retornado a patamar superior ao de 1979 com a inflação reduzida a ¼ da registrada quando assumiu o governo, e continuou crescendo com inflação em queda até 1989 quando o mundo foi sacudido por uma sucessão de crises”.

No Brasil, a história não foi diferente. O Plano Real e Lei de Responsabilidade Fiscal foram responsáveis pelo fim do imposto inflacionário, por significativo aumento real do salário mínimo, pela reestruturação das dívidas estaduais e municipais, pelos programas de distribuição de renda que se consolidaram no Bolsa família etc. Não reconhecer isto, não compreender a importância disso indica que a pessoa não entende do assunto e que se a deixarmos colocar em prática suas ideias, o resultado será um desastre econômico. Foi exatamente o que assistimos no Brasil.

Em um primeiro momento, Lula respeitou os fundamentos do Plano Real, rasgou o discurso de anos do PT e fez um bom governo.

Infelizmente, em 2008 começa a deliberada sabotagem aos fundamentos da boa gestão. Lula abandona os princípios de equilíbrio fiscal e controle da inflação do Plano Real e abraça a chamada “nova matriz econômica” desenvolvida pelos “economistas” do PT.

Muita gente alertou para o desastre que viria, mas Lula e Dilma preferiram não ouvir. Dilma aprofundou ainda mais os erros. Consequência: a economia se desarrumou, a inflação voltou, o desemprego aumentou e não há dinheiro para pagar as contas, inclusive vários benefícios sociais, como o PROUNI.

Os ajustes que se fazem necessários agora não são uma invenção “neoliberal” ou algum tipo de sadismo burguês. São consequência direta da incompetência na gestão do dinheiro público que, ao contrário do que alguns parecem acreditar, é finito. Tem limites. Agora a matemática impõe sua dura realidade aos “sonháticos”, aos adeptos do “realismo mágico”. O desequilíbrio, a inflação, o desemprego, a falta de dinheiro são consequência natural dos erros em série e da contabilidade criativa tantas vezes criticada.

Como dizia Margaret Thatcher: “não existe dinheiro público, existe dinheiro do pagador de impostos” e é importante gastar este dinheiro com cuidado e responsabilidade. A esquerda a odeia, mas a razão está com ela.

Se você acha importante programas de distribuição de renda, programas de bolsas para estudantes, maiores investimentos em saneamento básico, escolas de qualidade, melhores salários para professores, investimentos na saúde, lembre-se: sem responsabilidade fiscal tudo fica ameaçado. Tudo vai sofrer cortes e reduções.

Neste momento alguém ou muitos da esquerda gritarão como Adriano Benayon no site Viomundo que é tudo “coisa da direita para pagar juros a banqueiros”.

Não é verdade, claro. Este tipo de afirmação é apenas a ignorância arrogante exibindo todo seu esplendor, pronta para repetir e aprofundar os erros.

Simplesmente não dá para gastar mais do que se ganha por muito tempo, seja na esfera privada, seja na pública. Insistir nesta irresponsabilidade nos leva de volta à frase inicial: “Certas ideias precisam ser combatidas porque trazem em si um grande potencial de sofrimento, principalmente para as camadas mais pobres da população”.

Se algum guru lhe disser o contrário, peça um polpudo empréstimo a ele. Se ele acredita que os recursos são infinitos, não há porque recusar.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

Anúncios