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Há um texto atribuído a Chomsky sendo reproduzido por páginas e pessoas de esquerda que é, em si, uma manipulação descarada da realidade. A ironia é que se trata de uma reflexão sobre a manipulação midiática. Procurei o original em inglês e não o encontrei. Não quer dizer que não exista, mas pela qualidade do que veremos abaixo, tenho quase certeza que não é dele. Ele é mais sofisticado do que isso.

De qualquer maneira, o texto é um dos melhores exemplos práticos da famosa formulação de Althusser : “O método precípuo da ideologia é a utilização do discurso lacunar. Nesse, uma série de proposições, nunca falsas, sugere uma série de outras, que o são. Desse modo, a essência do discurso lacunar é o não dito (porém sugerido)”.

Tudo que o artigo diz pode ser aplicado a qualquer sociedade complexa, mas como utiliza a democracia liberal como pano de fundo, dá a impressão de que estamos diante de uma revelação da alma cruel do capitalismo em que governo e mídia formam um só corpo. Sobre sua ocorrência nos totalitarismos de esquerda, nem um pio.

Segue o artigo intercalado com os comentários.

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(CHOMSKY) AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MEDIÁTICA

 

O linguista Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação” através da mídia.

  1. A estratégia da distração. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

Comentário: É apenas uma forma prolixa e afetada de dizer o que os romanos sintetizaram em “pão e circo”. Não há novidade, nem tão pouco é “de direita” ou “de esquerda”.

 

  1. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

Comentário: Pura teoria da conspiração. Este tipo de formulação chega a ser infantil. Sugere uma articulação entre governo, mercado e imprensa que pode ocorrer eventualmente, como ocorreu no Nazismo, mas não é a regra. Os agentes são múltiplos, os interesses diversos. Considerar isto como regra é simplesmente ridículo.

 

  1. A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram rendas decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

Comentário: Em primeiro lugar, impor condições socioeconômicas radicalmente novas e adversas não é uma característica das democracias liberais, mas sim dos totalitarismos, inclusive os de esquerda. Além disso, os chamados “ajustes neoliberais” das décadas de 1980 e 1990 ocorreram por necessidade, para corrigir situações criadas por protecionismos e irresponsabilidade fiscal de governos que elevaram o endividamento para além de sua capacidade de pagamento e o peso do estado na economia atingiu um ponto em que esta já não funcionava com um mínimo de eficiência. Havia inflação e desemprego elevados, causados por quem antecedeu os tais “neoliberais” (qualquer semelhança com o que vivemos hoje no Brasil não é mera coincidência). Para que se entenda melhor este ponto e o valor da responsabilidade fiscal sugiro a leitura complementar do artigo A AURORA NÓRDICA PARA O CAPITALISMO http://wp.me/p4alqY-bQ

 

  1. A estratégia de diferir. Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

Comentário: Este tipo de ação é antes uma ação de governo do que de mídia. Nas democracias liberais, governo e mídia são entes distintos. Mais do que isso: as mídias são plurais, muitas delas críticas do governo. Esta afirmação é, antes de mais nada, uma tentativa de dizer que as democracias liberais são totalitárias, são um só corpo dotado de uma inteligência perversa. É engraçado como este monstro se parece com os totalitarismos de esquerda que conhecemos.

 

  1. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico”.

Comentário: Isto se dá mais por uma questão do nível intelectual de quem recebe a mensagem. Há programas e publicações inteligentes e sofisticados, mas não têm público. Na medida em que as mídias atingem públicos maiores, rebaixa a sofisticação da mensagem. O que acaba motivando este rebaixamento é a disputa pela audiência. Ao invés de veicular o que eventualmente gostariam, veiculam o que lhes garante a sobrevivência. É a ditadura da estupidez numerosa sobre a mídia, não o contrário.

 

  1. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…

Comentário: isto se refere muito pouco à imprensa formadora de opinião e muito mais à publicidade e à indústria do cinema/TV. Mas novamente: é uma estratégia utilizada tanto nas democracias liberais quanto nos totalitarismos de direita e esquerda. O artigo só estabelece a relação com as democracias…

 

  1. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar.”

Comentário: novamente é pura teoria da conspiração e novamente uma visão totalitária e fraudulenta. O autor do artigo, seja quem for, sabe disso, mas sabe também que sempre haverá incautos a engolir suas bobagens sem pensar. Não existe esta diretriz governamental e muito menos o alinhamento entre governo, imprensa e outras mídias. Existem, por exemplo, muitas críticas ao sistema educacional americano. Existem também democracias que oferecem modelos virtuosos na área da educação. Ou seja: a realidade desmente categoricamente esta coleção de tolices.

 

  1. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

Comentário: é um efeito colateral da democratização do acesso. O público é, de fato, majoritariamente estúpido, vulgar e inculto. A mensagem, ao se adequar a ele, incomoda a elite intelectual à qual Chomsky, eu e você pertencemos (sim, estar lendo e compreendendo este artigo o coloca em uma elite).

  1. Reforçar a autoculpabilidade. Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!

Comentário: blá, blá, blá panfletário de péssima qualidade, revelador, mais uma vez, do viés autoritário das crenças do autor. Misto de teoria da conspiração com psicologia de auto-ajuda. É o ponto que mais me deixa em dúvida sobre o verdadeiro autor.

 

  1. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência geraram uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

Comentário: mais uma vez confunde democracia e totalitarismo. Tem uma visão dos múltiplos atores que fazem parte de governos, imprensa, cinema, TV, rádio, internet etc com um Grande Irmão malvadão, de cabeça única dirigindo este grande corpo dominador. Nas democracias até existe este estudo, este conhecimento, mas novamente observamos sua aplicação por diversos atores concorrentes, disputando espaço, audiência, preferência. Apenas nos totalitarismos, onde todos os agentes são controlados pelo estado, a visão apresentada pelo artigo tem consonância com a realidade.

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Espero que tenha ficado clara a coleção de equívocos deste pseudo artigo. Para coroar, para colocar aquela cereja final no bolo, faltou apenas defender o “controle social da mídia”.

Artigo de Paulo Falcão

 

PS – Um amigo me enviou o link para comprovar que é do Chomsky mesmo. Não retirei uma vírgula das críticas que fiz ao texto. De tão ruim, parecia falso. Inconformado com Chomsky ter realmente escrito algo desse nível, enviei o artigo e meus comentários a ele, que respondeu o seguinte:

Noam Chomsky

13 de mar

 

“The article is a complete fabrication, as has been reported over and over on the internet”

Ou seja, o artigo abaixo é de um falso blog de Chomsky.

 

Publicado em português originalmente no site da ADITAL: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=52520&langref=PT&cat=

Republicado pelo Portal Anarquista:

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/07/03/chomsky-as-10-estrategias-de-manipulacao-mediatica/

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