questões relevantes

espaço para debate de ideias sobre a cultura e a civilização

O CAPITALISMO É REVOLUCIONÁRIO?

 

Dalit_or_Untouchable_Woman_of_Bombay_Mumbai_according_to_Indian_Caste_System_-_1942 corte

O capitalismo, como a democracia, tem muitos defeitos. Alguns graves. Mas veja só que curioso: desde a revolução industrial, a experiência democrática só ocorreu em países capitalistas e permitiu uma revolução impressionante das sociedades em termos de direitos civis, direitos trabalhistas, liberdade individual e direitos para minorias.

O termo “revolucionário” é bem aplicado quando se analisa esta questão. Nenhum outro sistema político-econômico implantado desde o século XIX chegou perto das conquistas obtidas nas democracias liberais.

É preciso melhorar mais? Evidentemente há muito o que ser melhorado. A beleza da coisa é que as democracias liberais oferecem todas as ferramentas necessárias para que o indivíduo e/ou a sociedade lutem por tais mudanças, conquistem novos direitos, implantem novos conceitos.

Bem, e fora das democracias liberais, como atua o capitalismo?

Analisando as experiências da China e da Índia pode-se dizer que o capitalismo em si também é um importante indutor de mudanças.

As mudanças na China são evidentes, embora não suficientes.

Na Índia, com seu milenar sistema de castas, começam a aparecer resultados surpreendentes, como podemos ver no artigo abaixo.

_____________________ 

 

COMO O CAPITALISMO ESTÁ DESTRUINDO O SISTEMA DE CASTAS NA ÍNDIA.

Por Swaminathan S. Anklesaria Aiyar, pesquisador associado ao Cato Institute com foco na Índia e na Ásia, tendo mestrado em Economia pela Oxford University, do Reino Unido.

Karl Marx estava errado sobre muitas coisas, mas em algo ele acertou: o ataque e destruição ao feudalismo promovido pelo capitalismo foi inigualável. Como explico em um novo estudo, desde as reformas econômicas de 1991, a ascensão do capitalismo na Índia vem minando o tradicional sistema de castas, uma hierarquia social rígida que punha quatro castas no topo e uma quinta casta – os dalits – abaixo da poeira levantada pelos pés das outras. Os dalits, comumente chamados de “intocáveis”, tradicionalmente não tinham acesso a qualquer meio de vida que não envolvesse a servidão para os donos de terras e a execução dos trabalhos mais sujos, e que, quase sempre, eram vetores de doenças, como limpar fossas sanitárias e manusear corpos de humanos e animais mortos. A abertura da economia indiana permitiu aos dalits abandonar suas antigas ocupações e lhes abriu caminho para iniciarem seus próprios empreendimentos.

A Câmara do Comércio e Indústrias dos Dalit Indianos (em inglês, DICCI) conta hodiernamente com mais de 3.000 milionários entre os seus membros. Esta revolução ainda está engrenando, mas já é incontrolável.

Milind Kamble, presidente do DICCI, acredita que o capitalismo tem sido fundamental para derrubar o antigo sistema de castas. Durante o período em que a Índia vivenciou uma experiência quase socialista de planejamento econômico, alguns poucos industriais detinham concessões para operar e costumavam requisitar insumos e serviços de logística apenas para membros da sua própria casta. Entretanto, após as reformas econômicas de 1991, as empresas rapidamente descobriram que para sobreviver em um mercado mais livre, elas tinham que se tornar mais competitivas. O que importava agora não era mais a casta do fornecedor, mas o preço que ele ofertava.

A falta de eficiência levou um sem número de companhias há muito tempo estabelecidas a falência, abrindo novos espaços que poderiam ser preenchidos por novos empreendedores, inclusive dalits. Os membros do DIOCCI faturaram 500 milhões de dólares em 2014 e objetam dobrar esse número em cinco anos. Para Kamble, os dalits deixaram de ser objeto de pena e passaram a ser objeto de inveja. Eles deixaram de procurar empregos para se tornarem criadores de empregos.

Até mesmo nas áreas rurais os dalits obtiveram melhoras nas duas últimas décadas. Uma pesquisa conduzida no estado de Uttar Pradesh mostra que a quantidade de dalits que moram em casas de tijolos saltou de 38 para 94%, o número dos que tem o próprio negócio saiu de 6 para 36,7%, e a porcentagem daqueles que tem o próprio celular aumentou de 0 para 33%. Uma quantidade crescente de dalits tem adquirido terras, e, às vezes, até mesmo contratam pessoas de casta superiores. Para os dalits, o mais revolucionário disso tudo é a mudança em seu status social.

No passado, eles eram encarados como mão de obra destinada a serviços sujos, e não podiam comer ou beber junto as castas mais altas. Agora, a maior parte destes trabalhos foi eliminada, e os dalits são donos dos restaurantes em que as castas altas comem e bebem. Eles ainda continuam relativamente pobres e sofrendo discriminação, mas as reformas econômicas vêm revolucionando desde 1991 seu status econômico e social.

 

Link para o artigo original: http://goo.gl/cEHvUW

 

 

 

Anúncios

2 comentários em “O CAPITALISMO É REVOLUCIONÁRIO?

  1. Thomaz Herler
    02/27/2016

    O capitalismo é um sistema que já esgotou suas possibilidades revolucionárias e hoje se depara com suas contradições. Claro que em países em que vigoravam um sistema de castas, o feudalismo, práticas semiescravistas, a teocracia, dentre outros traços do mundo antigo e medieval, os avanços liberais são progressistas, mas mesmo eles terão limites dependendo do país.

    Acredito que, infelizmente, capitalismo não precisa vir acompanhado de avanços liberais em direitos civis e políticos. Fosse assim, movimentos LGBT, feministas e negros em nosso país não seriam empurrados para a esquerda política. Além da via revolucionária, em diversos países o capitalismo se desenvolveu pela via conservadora, com destaque para a Alemanha com a “via prussiana”.

    • Questões Relevantes
      02/27/2016

      Thomaz, o capitalismo sempre se deparou com suas contradições e, nas democracias liberais, foi mudando, foi se adaptando. É da natureza do capitalismo que ocorre dentro de democracias evoluir.

      Na segunda parte de sua afirmação, eu, você e Marx estamos de acordo: o capitalismo e as ideias democráticas contidas no liberalismo econômico mostram sua face revolucionária ao derrubar o feudalismo, mas o fez pela força das ideias. A razão, a racionalidade, estava clara. Não havia argumentos sustentáveis em contrário. E ainda não há.

      Outro ponto. Ao dizer que não acredita que o capitalismo precisa vir acompanhado de avanços liberais em direitos civis e políticos, me lembrei de uma excelente explanação de uma militante de esquerda conhecida deste blog chamada Mariana Nóbrega, em artigo para o Blog Pandora Livre que está disponível e comentado neste outro artigo: http://wp.me/p4alqY-jz . Vale à pena ler. Ela é realmente boa.

      Por último, esta coisa da Via Prussiana destou muito. A Alemanha tem seus problemas, mas realizou uma espetacular integração democrática com a queda do muro de Berlim e oferece uma das melhores qualidade de vida da Europa, inclusive para os imigrantes. É evidente que ao comparar o patrão de vida dos imigrantes com a dos alemães “históricos” vamos encontrar desníveis gritantes, mas ao compararmos com as condições que tinham em seus países de origem, estão melhores.

      Mas o importante do artigo é notar o efeito libertador e, sim, revolucionário, que o capitalismo está tendo sobre o sistema de castas da Índia. E novamente, uma revolução pela força das ideias, não das armas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 02/27/2016 por em Ciência Política, Econonia, Política, Sociologia e marcado , , , , .
%d blogueiros gostam disto: