porco

Parece ser um esforço inútil querer que a discussão sobre política econômica seja racional. Seria leviano dizer que todos que defendem a desastrosa política econômica que teve início em 2008, na metade do segundo mandato de Lula (e que Dilma levou ao paroxismo), são ignorantes ou não sabem matemática, mas a impressão clara é que a ideologia turva a visão e embota o raciocínio lógico dessa gente. A outra explicação é que sejam mentirosos ou sádicos. Ou talvez, sádicos mentirosos.

O fato é que no conflito entre ideologia e matemática, a ideologia sempre perde. É uma questão de tempo apenas. Então, por que não aprender com os erros? Por que insistir no desastre?

Como já disse em outro artigo, “quem de fato acredita que Responsabilidade Fiscal é uma bobagem e que é possível gastar irresponsavelmente para “resgatar dívidas sociais” me lembra membros da tribo Yahoos, personagens de um conto de Jorge Luis Borges chamado “O informe de Brodie”.

Para esta tribo primitiva e fictícia não existia o conceito de paternidade. Eles não conseguiam compreender que um ato ocorrido há 9 meses resultasse no nascimento de uma criança agora.

Os defensores da “irresponsabilidade fiscal” padecem desta incapacidade de reconhecer a relação de causa e efeito entre a gastança e a crise.”

Agora, com a queda do “cordeiro” (ou seria o bode na sala?) Joaquim Levy e sua substituição por Nelson Barbosa, um Yahoo de alta patente e um dos pais desta fantasia desenvolvimentista chamada “nova matriz econômica”, fica evidente que esperar qualquer racionalidade ou bom-senso na condução da economia, com Dilma na presidência, é ignorância ou um otimismo doentio.

Num esforço (sei que inútil) de evitar que o Brasil trilhe este doloroso caminho do desemprego e da inflação, com todas as suas nefastas consequências, reproduzo abaixo uma “fábula moderna” que talvez, com sua linguagem semi-infantil, ajude algum prisioneiro ideológico a se  libertar e lutar contra o absurdo que este governo nos impõe.

A única correção que acho necessária na Fábula abaixo é que os porcos são onívoros e comem cordeiros se tiverem a chance.

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O PORCO E O CORDEIRO

Por Alexandre Schwartzman na Folha de São Paulo.

 

“Estava o Cordeiro a tocar o Ministério da Fazenda quando apareceu o Porco, de horrendo aspecto, e perguntou: “Que desaforo é esse de reduzir meu PIB?”.

Ao que o Cordeiro respondeu: “Mas, seu Porco, como é que eu poderia ter reduzido o seu PIB se só cheguei aqui no começo do ano e a economia vem em recessão desde o meio do ano passado?”.

“Ah”, disse o Porco, “mas você cortou o gasto público, o que fez o PIB cair ainda mais.”

“Olha”, retrucou o Cordeiro, “desde que estou aqui o consumo do governo aumentou. Só um pouquinho, sabe, mas foi o único componente da demanda doméstica que subiu em 2015.”

“Esse negócio de argumentar com números não me convence”, voltou o Porco, “porque, em primeiro lugar, só interessa aos esbirros do conservadorismo, na cúspide de uma sociedade submissa ao rentismo, prisioneira da defesa da riqueza estéril, e, em segundo lugar, porque eu não conheço as quatro operações e não entendo o que você está falando. Fora isso, o investimento também está desabando, e o multiplicador keynesiano diz que isso vai fazer a renda cair ainda mais.”

“É verdade”, confirmou o Cordeiro, “mas o investimento despenca desde o segundo trimestre de 2013, ao menos, quando ainda o que valia era a tal Nova Matriz Macroeconômica, que, segundo eu soube, veio da cabeça de Porcos que nem o senhor.”

“Aliás”, continuou, “pelo que me disseram, os Porcos sumiram quando ficou claro que o investimento seguia em queda e que a recessão viria para valer. Só ficou por aqui um jumentinho italiano, otimista ‘pra’ burro (sem trocadilho, sabe?), que me passou as chaves da casa.”

“Não quero saber!”, vociferou o Porco. “Quando o jumentinho te deu as chaves, a inflação era menor que 6,5%, mas agora já varou os 10%.”

“Também verdade”, admitiu o Cordeiro. “Acontece que, ao chegar aqui, encontrei uma porcaria (sem querer ofender, sabe?): tinha um monte de preço congelado, saindo caro para o Tesouro, mais caro ainda para a Petrobras. Só me restou ajustar tudo de uma tacada.”

“Aliás, foi difícil achar um Porco que assumisse a responsabilidade pelo congelamento dos preços. Até o final do ano passado vários deles estavam ainda comemorando que a inflação não tinha estourado o teto da meta, e havia até uma Leitoa afirmando que era tudo ‘terrorismo econômico’.”

“Mas vocês clamam pelo aumento do desemprego!”, grunhiu o Porco, “a Pnad diz que já alcançou 9%. Sua culpa, Cordeiro!”

“Aí, seu Porco”, respondeu o Cordeiro, “é que lhe faz falta saber ler os números. A Pnad diz que o desemprego também vem crescendo desde o meio do ano passado, e o Caged revela que a perda de empregos formais também ocorre desde aquela época.”

“Você, Cordeiro, quer pôr a culpa num governo popular, cujo único erro foi ter adotado o programa adversário, que jogou o país na depressão”, guinchou o Porco, já fora de si com a atitude do Cordeiro.

“Olha, seu Porco, seus colegas de vara deixaram as coisas aqui em pandarecos. Dívida crescendo, inflação em alta (mesmo com preços congelados), desemprego idem, economia em recessão, um buraco sem precedentes nas nossas contas externas. Tanto estrago que nem Dona Anta aguentou vocês e teve de chamar um Cordeiro para arrumar a bagunça.”

E, já que Porco não come Cordeiro, deu-lhe as costas e o deixou chafurdando na lama.”

 

Link para o artigo original na Folha:

http://goo.gl/MwJLYO

 

 

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