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Nos últimos dias temos visto manifestações vexatórias do que, supostamente, seria a elite intelectual Brasileira. Comentei algumas delas neste blog. Outra que teve repercussão foi a matéria de Luiz Carlos Azenha paro o Blog VIOMUNDO intitulada “Chauí: Golpe agora fará 64 parecer pão doce” publicado em 16 de dezembro de 2015. O título desta matéria dá a medida da alienação de parte considerável da esquerda. É chocante imaginar que alguém que se diz intelectual estabeleça a relação entre um golpe de estado e um eventual impeachement. É tão ou mais chocante que no mesmo artigo outro pretenso intelectual diga que a crise é obra “da oposição”. Quando li, achei que era coisa do site “Sensacionalista”. Mas não era. Infelizmente, Roberto Schwarz, Luiz Gonzaga Beluzo e outros que emitem opiniões semelhantes são como os membros da tribo Yahoos, personagens de um conto de Jorge Luis Borges chamado “O informe de Brodie”. Para esta tribo primitiva e fictícia não existia o conceito de paternidade. Eles não conseguiam compreender que um ato ocorrido há 9 meses resultasse no nascimento de uma criança agora.

Os defensores da “irresponsabilidade fiscal” padecem desta incapacidade de reconhecer a relação de causa e efeito entre a gastança e a crise, como explico aqui.

A matéria do Azenha nem merece ser reproduzida na íntegra porque é, em si, apenas mais uma peça de propaganda pró-Dilma. Mas o link está aqui.

 

ALIADOS INESPERADOS

Ao contrário da matéria chapa branca do Azenha, o artigo abaixo, publicado no blog “São João del Pueblo – Página comunista de São João del Rei – Minas Gerais”, traz uma análise relevante sobre esta situação de vergonha para a “intelligentsia” brasileira.

O artigo é assinado por Wlamir Silva, que está em um campo ideológico oposto ao meu, de quem discordo em muitas coisas, mas neste caso concordo com o essencial: um eventual impeachment de Dilma não é golpe.

Fiquem com o artigo que tem a honestidade intelectual que faltou àquela constelação da vergonha.

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PÃO DOCE COM BOLACHA: RELATIVIZANDO O GOLPE NO PASSADO PARA FORJAR O FALSO GOLPE NO PRESENTE

Por Wlamir Silva

 

A farsa histórica não agrega consciência.

 

A comparação esdrúxula da crise atual com a conjuntura de 1964 alcançou o paroxismo. Para defendê-la, até mesmo edulcoram-se o golpe e a ditadura impostos em 64! Um “pão doce com bolacha”! O golpe que se desenharia no horizonte é pior! E se requenta uma velha e inusitada ameaça oligárquica! E ainda uma estranha e caricatural luta de classes… Com objetivos políticos menores, arrisca-se a uma farsesca comparação histórica que não contribui para a reflexão da sociedade e, em especial, a classe trabalhadora (1).

Um golpe sem militares, sem Guerra Fria e sem apoio estadunidense, sem IPES ou IBADE, sem articulações com setores empresariais e com os grandes proprietários de terra fincados no ministério da Agricultura… Uma ameaça oligárquica a ser barrada por Ciro Gomes, Renan Calheiros e afins! Uma guinada do capital contra o governo que enriqueceu os bancos, as mineradoras, os agroexportadores e as empreiteiras, tendo com eles não só excelentes relações políticas, mas também promíscuas relações financeiras… Relações cada vez mais evidentes para a população e a classe trabalhadora, e cuja defesa se resume, cada vez mais, ao “todo mundo faz”.

De um capitalismo que vai, estruturalmente, muito bem obrigado. Que não tem contradições com políticas compensatórias, recomendadas pelo Banco Mundial, e adora créditos públicos, já teve atos e promessas de flexibilização trabalhista e, apenas, se ressente um pouco da incompetência em infraestrutura…

O delírio micro-coletivo vê até “milícias fascistas” em ação. Um ex-ministro neoliberal, antigo defensor de uma reforma típica do Estado mínimo, vê a democracia ameaçada pelos “liberais” e em risco “os direitos civis e o sufrágio universal”! Outro, defensor da tese embolorada de um liberalismo fora de lugar no Brasil, opõe um suposto “campo popular” aos “os interesses do dinheiro”. Um “filósofo” fala de uma etérea “energia sequestrada” da sociedade em defesa de “um sistema estruturalmente podre e corrupto”.

 

Delírio que abstrai o desconforto da sociedade para com o governo, em especial para com o estelionato eleitoral realizado por Dilma Rousseff e sua trupe. A rejeição popular para com um Estado incapaz de gestão e planejamento, inchado de assessores inúteis e imerso em esquemas de corrupção. Fatos visíveis a olho nu, até porque se multiplicam e refletem em administrações estaduais, municipais e órgãos públicos, tais como as universidades. Abstraem este incômodo refletido nos 70% de aceitação do impeachment nas pesquisas de opinião. Que esses intelectuais certamente atribuirão à manipulação da mídia, afinal, “campo popular” sem povo, faça-me o favor…

 

A senhora Marilena Chauí, autora da comparação do golpe de 64 com um “pão doce com bolacha”, diz que o impeachment é a “a ‘cereja no bolo’ da direita”, de uma pauta conservadora no Congresso. Citando a redução da maioridade penal e a lei antiterrorismo. A redução da maioridade penal, um ataque ao “campo popular” que tem apoio de quase 90% da população mais pobre, que não entende nada de si mesma, uma lástima… E uma lei antiterrorismo curiosamente proposta e defendida pelo governo a ser derrubado… Para a senhora Chauí trata-se da “vitória completa do capital na luta de classes”. Com o apoio de “uma classe média [a cômica obsessão da filósofa] ‘proto fascista’ para implantar um governo reacionário”.

O que importa o delírio destas “esquerdas” alavancando o impeachment, ou não, de Dilma Rousseff a um fato transcendental? Certamente muito pouco para o desenrolar do imbróglio institucional. Isso porque eles têm alguma razão: são as oligarquias que o definem. Oligarquias no sentido posto por Robert Michels, ou seja, de grupos que controlam o jogo político em detrimento do seu caráter representativo, não exatamente no sentido dado pelos delirantes. Aliás, já o fazem, sempre o fizeram, e não o deixaram de fazer, “podre e corrupto”, nos últimos treze anos. Menos ainda para a representação de interesses dominantes, obviamente bem equacionados no mesmo período.

Virtualmente inútil para o desatamento da crise, em qual sentido que se dê, o delírio, que alude a paranoicos fascismos de ocasião e a paralelos históricos descabidos, apenas contribui para a ridicularização de um patrimônio ideológico já bastante desgastado. Aliás, em boa parte pelos treze anos de Lulismo e seu amálgama de plena conformidade com a ordem do capital, e com suas formas políticas mais grosseiras, e mobilização de elementos simbólicos “de esquerda”. Apelar para “fascismos”, “oligarquias” e “capital” para isso apenas reforça este despolitizante divórcio com a realidade, promovido pelo Lulismo e muito bem recebido pelos setores dominantes e conservadores.

Enquanto isso, um embate de oligarquias políticas busca uma rearrumação de fôlego curto – e o que se esperaria do nível de anomia política ao qual chegamos? – que não mexe com a ordem instituída, para o bem e para o mal. No último movimento, as articulações governistas junto ao Supremo Tribunal Federal barram as ações do presidente da Câmara e dão força ao Senado, onde é mais forte o governo, ao mesmo tempo em que, sintomaticamente, indica o relaxamento de prisões oriundas da Operação Lava-Jato. Como isso repercutirá na opinião pública? Ora, isso não importa, não é mesmo? O “campo popular” somos “nós”…

 

Pode-se, legitimamente, defender o mandato de Dilma Rousseff. A mobilização delirante de certos argumentos, no entanto, é de fato preocupante. A busca de “fascistas” embaixo das camas, a elaboração de uma “oligarquia” que não existe ou está em todo lugar, e o ficcional embate com o “capital”, são invenções despolitizantes. Despolitizantes porque se não são desde já evidentemente delirantes, o serão logo. E, pior, este delírio parece, e mais parecerá, uma jogada maquiavélica.

 

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