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A PROVA DE QUE A DIREITA TEM CORAÇÃO.

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A Social Democracia é reivindicada pela esquerda como prova de que já produziu alguma experiência de governo virtuosa. É reivindicada também pela direita como prova de que tem coração.

Isto indica que se trata de um modelo a ser bem observado, no mínimo. Mas quem tem razão quanto a esta “posse” político-filosófica?

Vamos definir alguns parâmetros.

Existe uma diferença fundamental em incorporar certas reinvindicações da esquerda e SER de esquerda. A Social Democracia tem uma característica que a exclui, por definição, deste posicionamento teórico: todas as experiências que mostraram bons resultados ocorreram e ocorrem dentro de democracias liberais e conseguiram superar as pressões da esquerda para radicalizar e abandonar este caminho. O caso mais emblemático foi o da Suécia sob o governo de Olof Palme.

Mas por que a preservação da democracia liberal é tão importante nesta discussão?

Simples: ela é o belzebu da esquerda, é o mal encarnado, é o inimigo a ser destruído, é parte da superestrutura que dá suporte à permanente evolução de uma sociedade que reconhece o valor da liberdade individual, matriz do direito à vida, à liberdade, à propriedade (inclusive dos meios de produção) e à igualdade perante a lei.

Quem é realmente de esquerda tem como objetivo a superação da democracia liberal e a expansão do controle estatal na economia até a extinção da propriedade privada dos meios de produção.

Marx, Engels, Lênin e Mao-Tsé Tung são os grandes teóricos das experiências socialistas. Os dois primeiros como idealizadores e os dois últimos como intelectuais que teorizaram à luz de experiência concretas.

Tudo que a esquerda produziu do final do século XIX para cá tem influência de pelo menos dois destes nomes e os quatro estão de acordo quanto à necessidade de destruir a democracia “burguesa” e acabar com a propriedade privada dos meios de produção, o que se dá, exclusivamente, sob totalitarismos.

Há quem diga que não é bem assim, mas não consegue dar substância a seus argumentos.

Um dos casos mais famosos é o de Deleuze que define “ser de esquerda” como ser continuamente minoria e preocupar-se antes com o todo do que com o núcleo centrado no indivíduo ou em si mesmo (tese do código postal: a atenção deve ir do macro para o micro, primeiro o país, depois o estado, depois a cidade, depois o bairro, a rua e finalmente a casa e o indivíduo). É uma ideia até charmosa, mas choca-se com a própria liberdade que Deleuze defende para as pulsões sexuais, homossexuais e demais desejos que exigem liberdade para se realizar, e que se realizam no indivíduo antes que no coletivo.

Outros falam da Escola de Frankfurt que, bem antes de Deleuze, na primeira metade do século XX, teceu sua “Teoria Crítica”, de caráter multidisciplinar, que incluía intelectuais como Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Walter Benjamim. A produção destes pensadores é importante de diversas maneiras e faz uma crítica relevante às experiências socialistas reais e, de certa maneira, ao próprio marxismo, mas não conseguiu dar o passo seguinte, que seria reconhecer o fato do marxismo ser um erro persistente. Faltou reconhecer que o grande acerto de Marx foi a formulação do trabalho humano como transformador da natureza e da realidade, mas que a parte famosa de sua obra, a projeção do socialismo como uma evolução racional e científica da sociedade, prova diariamente ser uma fantasia de caráter messiânico.

Como curiosidade, faço um pequeno desvio para chamar a atenção para a complementariedade entre os conceitos de “indústria cultural” da Escola de Frankfurt (que destaca a capacidade do capitalismo para transformar tudo em produto de massas e lucrar com isso) e a chamada “revolução cultural gramsciana” (que através da dominação da produção cultural conquistaria corações e mentes das massas, preparando o terreno para a revolução). Mas voltemos ao nosso tema central.

A Social Democracia nasceu como um movimento de esquerda baseado na doutrina marxista, para lutar contra a burguesia, por uma democracia social, o que inclusive deu origem ao seu nome. Quando deixou o viés revolucionário e adotou o reformista, migrou para a direita.

Ou, como disse João Amazonas, importante e ativo marxista brasileiro:

(…) Dessa traição aos interesses cardeais do proletariado e da renúncia aos postulados revolucionários do marxismo nasceu a corrente Social Democrata contemporânea. (…)

(…) Tudo que sirva para retirar a classe operária dessa perspectiva, ajuda à burguesia. Não há meio termo. Ou o proletariado segue o seu próprio caminho, da luta sem quartel contra a classe exploradora, ou o caminho da burguesia, da conciliação de classes, da harmonia impossível de interesses entre o capital e o trabalho; ou constrói um partido da revolução ou um partido das reformas sociais que, em si mesmas, não visam à substituição do capitalismo, mas simplesmente aperfeiçoar as leis trabalhistas e melhorar as condições de vida dos explorados.

Nesse contexto, a Social Democracia contemporânea apresenta-se como um movimento de caráter burguês no seio do proletariado, tentando esquivar a solução revolucionária.

Até hoje não encontrei fundamento teórico que desminta este postulado de João Amazonas.

Assim, é conceitualmente coerente concluir que querer uma sociedade mais justa e com menos desigualdade, desejar o fim da pobreza, lutar por educação e saúde de qualidade para todos não significa ser de esquerda. Significa ser humanista, o que é uma formulação dos filósofos iluministas, representantes da burguesia.

Ser de esquerda é também desejar igualdade e justiça, mas por outro caminho que não a conquista paulatina de direitos que ocorre nas democracias. É negar a democracia liberal e a propriedade privada dos meios de produção e estar disposto a abrir mão da liberdade individual, a abdicar do direito de escolher livremente o que pensar, o que fazer e para onde ir, em nome de um estado provedor autoritário e condutor de almas.

Marx disse que a História humana é a História da luta de classes e que, quando a ditadura do proletariado eliminasse a burguesia, esta História chegaria ao fim (e teria início outra).

Quando o muro de Berlim caiu em 1989 e o império soviético se esfacelou em 1991, Francis Fukuyama não perdeu a piada e publicou o livro “O Fim da História”. Foi uma gritaria geral, mas ele apenas explorava o final não previsto por Marx.

O capitalismo certamente não é o fim da História. Aliás, acho que está precisando de uma reciclada. Estamos nos aproximando de uma nova “destruição criativa” do capitalismo, em que se buscará um novo padrão de produção e consumo, com redução da geração e lixo, questionamento das embalagens descartáveis, necessidade de maior durabilidade dos produtos e sua adequação à reciclagem etc.

O consumo consciente é o próximo horizonte (não que esteja próximo) e certamente a Social Democracia estará no centro desta discussão, em todos os sentidos.

 

Artigo de Paulo Falcão, publicado inicialmente no blog de esquerda Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata ( http://goo.gl/3e8STg )

 

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23 comentários em “A PROVA DE QUE A DIREITA TEM CORAÇÃO.

  1. Eduardo Terra Coelho
    10/20/2016

    Há direitas e direitas , esquerdas e esquerdas .

    Na luta socialista quatro internacionais foram constituídas .

    A Primeira experiência mais vingou entre 1864 e 1871 , tendo sido interrompida após a derrota da Comuna de Paris.

    Marx e Engels procuram com outros militantes estabelecer a Segunda Internacional , chamada de a Internacional Social-democrata que se deu entre 1889 e 1914, terminada após a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

    Marx morreu antes de sua efetivação , tendo falecido em 1883, mas Engels participou de sua fundação , tendo falecido alguns anos depois , em 1895.

    Marx e Engels eram sociais-democratas .

    Não é bem a prova de que a direita tenha coração , já que há que se provar que o liberalismo e, ainda mais o neoliberalismo que não possui coração .

    • Questões Relevantes
      10/20/2016

      Eduardo, o liberalismo foi o responsável pela maior distribuição de riqueza e a maior elevação da qualidade de vida das populações mais pobres em toda a história da humanidade. O neoliberalismo, ou o que se convencionou chamar de neoliberalismo, foram políticas de correção de situações de queda de emprego e atividade econômica causadas por politicas equivocadas de esquerda. Sobre este segundo aspecto, há uma boa síntese aqui:
      SE O SEU GURU XINGA A RESPONSABILIDADE FISCAL, PEÇA UM EMPRÉSTIMO PARA ELE.
      http://wp.me/p4alqY-qm

      • Eduardo Terra Coelho
        10/22/2016

        A diferença entre liberalismo e neoliberalismo liga-se ao antes de 1929 e ao pós 1929, Até 1929 a máxima era fazer o bolo crescer e todos seriam beneficiados , ainda que uns muito mais e outros menos .

        A crise de 1929 colocou fim a isto e o neoliberalismo deixou, pois clara a questão da exclusão social.

        A social – democracia nasceu de tradições socialistas .

        A ruptura foi dada pela participação de algumas seções na guerra e isto feria o internacionalismo ao colocar em frontes diferentes trabalhadores contra trabalhadores. Dentro de possibilidades capitalistas, há posições dos chamados reformistas que criticam o neoliberalismo, mas não outras possibilidades de capitalismo.

      • Questões Relevantes
        10/22/2016

        Eduardo, o que se chama hoje de neoliberalismo não guarda muito parentesco com o original. Veja: neoliberalismo

        1.
        doutrina proposta por economistas franceses, alemães e norte-americanos, na primeira metade do sXX, voltada para a adaptação dos princípios do liberalismo clássico às exigências de um Estado regulador e assistencialista, que deveria controlar parcialmente o funcionamento do mercado.
        2.
        doutrina, desenvolvida a partir da década de 1970, que defende a absoluta liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia, só devendo esta ocorrer em setores imprescindíveis e ainda assim num grau mínimo.

      • Eduardo Terra Coelho
        10/22/2016

        Exatamente. O liberalismo era ruim e o neoliberalismo péssimo.

        A crise de 1929 levou a isto como uma resposta.

      • Questões Relevantes
        10/22/2016

        Como explico no artigo sobre responsabilidade fiscal, 100% das vezes em que medidas chamadas neoliberais foram adotadas, foi para corrigir crises geradas por gestão críticas do liberalismo. Observe: 100%.

      • Eduardo Terra Coelho
        10/22/2016

        A gestão capitalista é baseada na exclusão , na base do não há para todos e nem haverá .

        Não há números e dados que falem por si só, pois são números e não vidas.

        As terceirizações feitas pelas empresas privadas e pelos serviços públicos , se de um lado buscam gerenciar os gastos , por outro geram mais concentração de rendas e miséria .

        Há cerca de 16 anos a prefeitura da Cidade de São Paulo iniciou um processo de terceirizações , inicialmente na cozinha das escolas e, na gestão seguinte da vigilância e limpeza , colocando em vacâncias os cargos de cozinheiras , faxineiras e seguranças .

        Os profissionais da prefeitura destes setores , todos concursados , passaram a atender a outras necessidades da escola .

        Atualmente estes profissionais recebem quase o triplo dos terceirizados .

        A suposta economia sangrou vidas.

        E no caso da cozinha o MPE provou que quando a cozinha estava sob comando direto da prefeitura gastava-se menos .

        A prefeitura manteve a terceirização , mas desde que o custo fosse o apontado pelo MPE.

        Se a intenção neoliberal é precarizar vidas , estão de parabéns com menção de louvor !

      • Questões Relevantes
        10/22/2016

        O capitalismo, dentro das democracias liberais, tem defeitos, mas a alternativa é muito pior. Sua resposta repete a estratégia descrita em outro artigo chamado LIBERDADE, DEMOCRACIA E MARXISMO: ESTRANHO FETICHE onde pode-se ler os seguintes trechos: “Compara-se o capitalismo real, existente, com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições. Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles “existem” no capitalismo.” (1)

        “Marx já dizia que a verdade de uma ideia é a sua realização prática, sem o que teríamos utopias vazias e, pior, de concretização possível. Ora, só podemos julgar a validade do socialismo por sua realização na História. Se olharmos para a História, constataremos como realizações socialistas, “progressistas”, a aniquilação da liberdade de escolha como a maior de suas façanhas, passando por uma noção bizarra de cidadania que torna todos os indivíduos súditos do Estado. O interesse coletivo, do estatal, impõe-se, então, como forma de correção do “egoísmo”, levando, como se sabe, aos campos de reeducação – na verdade, campos de eliminação dos que se recusavam a essa política liberticida.(1)

        (…) O capitalismo, que no dizer dos “progressistas” seria a fonte de todos os males, tornou-se, na História da humanidade, o regime que melhor soube recriar-se, emergindo sempre novo de suas crises. Nas palavras de Schumpeter, o capitalismo caracteriza-se pela “destruição criadora”. Poderíamos acrescentar: e o socialismo, pela “destruição aniquiladora”.

        (…) no capitalismo foi erigido todo um conjunto de normas visando a assegurar a liberdade sindical e de organização partidária. Como ninguém encarna a verdade e o bem, não havendo partido que se diga, no exercício do poder, a personificação da virtude revolucionária, todos se devem acomodar a um jogo de pressão e contrapressão no nível sindical e, no nível político, em propostas que tenham como finalidade captar o voto dos cidadãos em nome de uma certa representação do bem comum.(1)

  2. Lua Lua
    05/14/2016

    Muito bom o texto. Concordo que temos que focar o problema sem tentar criar ideias maniqueísta de bem e mal. A social democracia foi muito difundida por Giddens (Ele a chamava de “terceira via”) é acho louvável. A humanidade é múltipla. Nunca existirá uma política que satisfaçam a todos e a social democracia tentar mesclar essas políticas. Também acredita que não é pela “igualdade ” que vamos conseguir resolver as diferenças inconciliáveis das classes. Não existe aqui bem o mal. O antagonismo se dá pela necessidade de melhorias de condições de vida para todos. E nessa luta, cada um defende o seu lado.

  3. Paulo: sim, mas já com o ai-5, a ditadura militar conquistou a superestrutura. Ela não podia conquistá-la assim tão facilmente e sim instaurando um regime totalitário.

    Hoje manfiestações como a de Vandré quase não existem e atingem público reduzido. Essa canção, na verdade, propõe indiretamente a luta armada. Vandré nega, mas estava ligado á AP.

    • Questões Relevantes
      12/08/2015

      Lúcio, a música é bem explicia no incentivo à luta armada. Quanto ao restante de seu comentário, discordo. A ditadura militar passou a enfrentar oposição da imprensa já bem antes do AI-5. Nas universidades, na produção artística a oposição teve início já no primeiro dia. Boa parte do congresso denunciava o arbítrio. O exércio, com o AI-5 elevou sua intervenção, sua violência, mas em momento algum teve controle efetivo sobre as superestruturas. Seu poder era limitado às estruturas, e foi sendo minado dia após dia.

      • Não, de forma alguma. Tanto que a ditadura cassou concessões de tv para uns e ofereceu facilidades para outros. Ela fez o ai-5 para ativamente conquistar as estruturas e o fez. O que vc entende como hegtemonia era apenas resistência. A resistência realmente ganhou enorme prestígio histórico. Prestígio que a direita inveja.

        A canção não é explícita. Somente sabendo que o PCB propunha então esperar e não lançar luta armada, ou seja, um momento melhor, assim como soluções pacíficas e eleitorais, sabemos que a canção está respondendo ao partido.

      • Questões Relevantes
        12/10/2015

        Lúcio, novas rádios e TVs não têm o poder que têm as tradicionais. O Estadão e a Folha, bem como o Jornal do Brasil eram importantíssimos formadores de opinião e passaram a fazer oposição ao regime militar bem antes do AI5.

        Quanto à música do Vandré, não é explícita nos detalhes, mas explícita na idéia, na convocação.

  4. Rafael Freitas
    12/06/2015

    Buenas, Paulo Falcao. Este texto há algumas incorreções, ou nele há ideias com as quais eu discordo. A democracia liberal nem sempre é contraditória as lutas de esquerda. Temos os exemplos das lutas aonde socialistas apóiam pela igualdade entre homem e mulher, contra a homofobia, pela reforma agrária já que os EUA foram uns dos pioneiros na reforma agrária no nosso continente. Em lugares aonde há atraso produtivo ou político a democracia liberal é um avanço, como no Maranhão, aonde há o mais médicos dos professores. Uma das primeiras medidas burguesas após suas revoluções foi democratizar a educação escolar. Logo discordo desta frase: [a democracia liberal] “é o belzebu da esquerda, é o mal encarnado, é o inimigo a ser destruído”. Pois vejo aí inexistir qualquer dialética, será o inimigo dependendo da estratégia e da tática. Aqui considero um erro grave, apesar de comum, e está no preconceito nas esquerdas e direitas contra Marx. E basta ler um livrinho anti Marx chamado Amor e Capital para acabar com tal preconceito:”Marx, Engels, Lênin e Mao-TséTung são os grandes teóricos das experiências socialistas. Os dois primeiros como idealizadores e os dois últimos como intelectuais que teorizaram à luz de experiência concretas.” Todos eles teorizaram a luz de suas experiências políticas concretas. Prrincipalmente Engels. Que foi o referencial teórico maior de Marx, alguns dizem ter convertido ele ao comunismo. Ambos se ajudavam financeiramente. Te convido a analisar as nossas produções sobre a Revolução Sandinista para contrariar tua colocação como marxismo sinônimo de totalitarismo. Basta tu leres e depois concluir ideias no lugar de ter ideias prontas e depois ler e considerar verdadeiro apenas o que te convém, o resto sendo argumentos fracos. Algo que noto em teus textos é o uso da expressão “socialismo real”, por que somente o socialismo tem sua expressão na realidade diferente da expressão teórica? Tuas análises seriam muito mais ricas e os seus títulos mais hilariantes se levasse em consideração que isso ocorre também com a democracia liberal, ao ponto de o mérito estar apenas nas vontades, jamais nas democracias liberais reais. Repetes que o marxismo originário possui caráter messiânico, mas nunca citastes Marx, Engels, para mostrar aonde isso se encontra, mesmo em não dito de ambos. Isso caracteriza uma argumentação sua não concreta, pouco preenchida, quiçá vazia. Quando citastes João Amazonas faltou dizer sobre qual momento ele se referia, pois toda escrita é datada. Tu generalizastes algo particular. Concluo diferente de ti este parágrafo: “Assim, é conceitualmente coerente concluir que querer uma sociedade mais justa e com menos desigualdade, desejar o fim da pobreza, lutar por educação e saúde de qualidade para todos não significa ser de esquerda. Significa ser humanista, o que é uma formulação dos filósofos iluministas, representantes da burguesia.” A burguesia historicamente esteve na esquerda, e depois migrou para o retrocesso social. Quando afirmas que o capitalismo não é o fim da História, fechamos todas. E tenho certeza, as ocupações de prédios públicos por pessoas que foram abandonadas pelo Estado, as ocupações de escolas em SP, quiçá as de RJ também o sejam, a empresa operária Flaskô, este nosso debate me colocam a pulga atrás da orelha quanto a esta forma de exploração do homem e de nossos recursos naturais. Adelante!!

    • Questões Relevantes
      12/06/2015

      Rafael, em um dos primeiros artigos que escrevi para o blog, “Teoria das Gavetas”, inicio esclarecendo que o significado de esquerda e direita já não encontrava mais correlação com sua origem, a revolução francesa: “Se em sua origem, na revolução francesa, fez sentido, certamente tal sentido se perdeu e há necessidade premente de redefini-las à luz dos sóis ideológicos, pondo tudo às claras, dentro dos marcos teóricos que definem cada uma das principais categorias do espectro político.”

      Quer você queira, quer não, no século XX esquerda passou a se definir a partir das influências de pelo menos dois destes nomes: Marx, Engels, Lênin e Mao. Isto se deu porquê o fim da propriedade privada dos meios de produção veio para o centro da questão – e não deixou mais a cena.

      Defendo em vários artigos, e neste também, que a democracia liberal é inclusiva e incorpora demandas socialistas. Nunca disse o contrário. O que afirmo e reafirmo é que todos que têm como objetivo o fim da propriedade privada dos meios de produção usam a democracia liberal como instrumento político, mas não a consideram fundamental.

      Mais um ponto: para Marx, o fim da propriedade privada dos meios de produção passa necessariamente pela destruição da democracia liberal e sua substituição pela ditadura do proletariado. O que minhas análises procuram ressaltar é que estes dois principais objetivos da esquerda pós Marx só podem ocorrer sob ditaduras, sob totalitarismos. Esta é uma evidência teórica e empírica.

      Quanto ao caráter messiânico de Marx, ele salta aos olhos, tanto que Eça de Queiroz o enxergou em 1880. O messianismo de Marx está na previsão do comunismo que viria após a ditadura do proletariado. Este é o truque. Aliás, o Caetano Veloso tem uma música que toca nesta questão, como observei aqui:DO SOCIALISMO AO COMUNISMO: UMA QUESTÃO DE FÉ. http://wp.me/p4alqY-U

  5. Lauro Maia
    12/03/2015

    O artigo foi muito bom. Confesso não gostar muito de usar expressões como “esquerda” e “direita”, por achar que numa sociedade do risco e tão complexa como a nossa essa divisão faz sentido prático. Essas bandeiras não tem respostas para problemas como risco de uma guerra nuclear; as mudanças climáticas; como a informática impactou ou influenciou nossas vidas; alimentos transgênicos, inteligência artificial etc.
    Mas o artigo desmistifica essa criação artificiosa de que “os bonzinhos” são a esquerda; o “mal” é a direita. Isso é além de uma ilusão, algo sem nenhuma prova empírica. O problema, já adiantado por Sartori (democracia), é que a esquerda (e muitos “intelectuais”) sempre comparam o capitalismo concreto, real com uma certa IDEIA de socialismo. Claro, nunca a democracia liberal (real) poderá vencer uma ideia, quase sempre construída com traços idílicos.

    • Questões Relevantes
      12/03/2015

      Caro Lauro Maia, esta formulação de Sartori é interessante. Em outro artigo deste blog lê-se: “Como disse o professor Denis Lerrer Rosenfield (…) “Compara-se o capitalismo real, existente, com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições. Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles “existem” no capitalismo.” (1)” A íntegra está aqui: http://wp.me/p4alqY-1a

      • Lauro Maia
        12/03/2015

        Perfeito. A prática é tão comum que já vem sendo notada por muitos autores.

  6. Lúcio Júnior Espírito Santo
    12/02/2015

    Tem passagens absolutamente desastrosas. Ignora, por exemplo, que mesmo sob uma democracia formal, uma classe pode buscar a hegemonia total. Ou seja, o Brasil dos anos 90 foi totalitário num certo sentido.

    “Como curiosidade, faço um pequeno desvio para chamar a atenção para a complementariedade entre os conceitos de “indústria cultural” da Escola de Frankfurt (que destaca a capacidade do capitalismo para transformar tudo em produto de massas e lucrar com isso) e a chamada “revolução cultural gramsciana” (que através da dominação da produção cultural conquistaria corações e mentes das massas, preparando o terreno para a revolução). Mas voltemos ao nosso tema central.”

    NÃO HÁ COMPLEMENTARIDADE ALGUMA AQUI, Paulo Falcão. Indústria cultural nega totalmente a possibilidade de hegemonia marxista através da cultura. Uma coisa é negação da outra.

    • Questões Relevantes
      12/02/2015

      Lúcio, quanto à sua primeira afirmação, trata-se de um truque. Ou, como já disse em outro artigo, ” É preciso melhorar? Evidentemente. Temos uma verdadeira democracia? Por enquanto, sim. Mas se a realidade comprovável da democracia é alguma injustiça, a realidade comprovável de governos marxistas é a ausência de liberdade e injustiça bem distribuída.”

      No segundo ponto, mais uma vez você se precipitou. A produção de cultura no Brasil, nas universidades, no cinema, na TV, nas redações de jornais (principalmente nas da grande imprensa) tem forte presença (e até predominância) da esquerda. Hoje, com a mudança de meios, isto é menos evidente, mas até o estadão mantinha cadernos de cultura sofisticados, com conteúdo “de esquerda”. O objetivo da esquerda de criar uma hegemonia cultural encontrou na industria cultural a necessária receptividade. Ao transformar produção cultural de esquerda em produtos, de massa ou de nicho, a industria cultural disseminou certas ideiais. O capitalismo é mais antropofágico que Osvald de Andrade.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo
        12/02/2015

        Pelo contrário, Paulo Falcão. A indústria cultural detonou a esquerda. Ela tolera nichos, mas mesmo assim isso tem acabado desde o fim do regime militar. Sim, o capitalismo é tão canibal quanto Hitler.

      • Questões Relevantes
        12/02/2015

        Lúcio, aqui, aparentemente, cada um enxerga o que quer ver.

        Só para lembrar: em 1968, já sob ditadura militar, Geraldo Vandré estourou no festival da Record, com audiência máxima na época, com seu “Prá não dizer que não falei das flores” mais conhecida como “Caminhando e Cantando”. Estava lá, simultaneamente, o meio e a mensagem. E não foi um caso isolado.

  7. Lu Albuquerque
    12/02/2015

    Muito bom o texto.

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