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Está certo emocionar-se com o conflito entre o berço da democracia moderna e a barbárie islâmica financiada pela Arábia Saudita. Paris nos fala ao coração. A região de Raqqa na Síria, com seus malucos Wahhabitas e Sunitas, não nos diz nada, mas assusta.

No entanto, não há nada que eu, você, a imprensa brasileira ou o governo federal possamos fazer para ajudar os Franceses. Somos irrelevantes neste episódio.

O ataque terrorista na França e seus desdobramentos ofuscaram a cobertura de algo muito mais grave para nós brasileiros e para o que não deveríamos ser irrelevantes. Mas, aparentemente, somos. Nossa dor, nossos desastres não comovem o Brasil. As aves daqui não gorjeiam como as de Paris. Os peixes do Rio Doce não nadam como os do Rio Sena.

Apenas nossa irrelevância como povo, como gente, como brasileiros, explica a cobertura superficial e desproporcional da imprensa tupiniquim sobre o rompimento criminoso da barragem da Samarco em Mariana frente ao ataque na França.

O assunto não foi escondido ou abafado. Noticiou-se o rompimento, noticiou-se a contaminação do Rio Doce, noticiou-se a morte do rio, noticiou-se multas. Mas noticiou-se pouco e mal para a envergadura do desastre.

Pouco ou nada se falou sobre a população afetada pelo desastre. Pouco ou nada se falou das consequências desta contaminação para o bioma e para a população afetada por ele. Pouco se falou da inépcia do governo em mobilizar ajuda humanitária efetiva. Pouco se falou da incompetência da Vale e Samarco enviando água contaminada com querosene para Governador Valadares. Nada se falou sobre as medidas necessárias e possíveis para a recuperação do Rio Doce e de toda a natureza afetada. Nenhuma equipe internacional foi convidada a opinar. Nenhuma equipe de técnicos e professores de nossas universidades foi deslocada para estudar o local do desastre e propor soluções.

Tudo que vimos foi improviso, foi descaso, foi jogo de cena. Entre os improvisos, um Decreto Presidencial que, a título de liberar o FGTS dos atingidos, já isenta a Samarco e a Vale de culpa ao considerar oficialmente o ocorrido como acidente (é surrealista mas verdadeiro, como pode ser lido aqui.) O correto seria exigir que a Samarco arcasse diretamente com estes custo e muito mais. Como foi feito, os atingidos ainda gastarão seu FGTS.

Uma tragédia destas precisa ser esmiuçada, esclarecida, acompanhada. Exige vigilância e mobilização.

O que fazer com a lama tóxica contaminada com níveis absurdos de mercúrio, arsênio, ferro e chumbo? A notícia veliculada quase nos mesmos termos por vários sites e jornais tinha como ponto alto a declaração do prefeito de Baixo Guandu (ES), Neto Barros (PCdoB), que afirmou: “Para se ter uma ideia, a quantidade de arsênio encontrada na amostra foi de 2,6394 miligramas, sendo que o aceitável é de no máximo 0,01 miligrama”.

E só.

Não houve novas reportagens sobre o tema. Não houve pesquisa ou investigação. Não houve teste da lama em laboratórios de universidades brasileiras ou estrangeiras.

Quais as consequências desta contaminação para as pessoas e para o bioma no curto e no longo prazo? É como a nuvem tóxica de Chernobyl? É uma Hiroshima não radioativa? Que providencias podem ser tomadas? Que providências já foram tomadas? Os executivos da Vale e da Samarco beberiam água captada hoje no Rio Doce como disseram ser seguro para a população? Tomariam banho nesta água? Deixariam seus filhos beberem?

No fim, a cobertura dispensada por nossa imprensa para este crime foi ela própria um desastre. A reação do Governo Federal foi, basicamente, passear de Helicóptero e dar entrevistas. A chamada “sociedade civil” também não se mobilizou, não cobrou, não se indignou. Houve boa vontade de muitos, mas não houve coordenação, não houve envolvimento de agentes públicos para facilitar deslocamentos e distribuição.

De certa maneira, é como se nem governos, nem Samarco e Vale, nem imprensa tivessem interesse em esmiuçar o assunto, em pôr o dedo na ferida, em colocar em risco uma grande geradora de empregos, grande pagadora de impostos e grande anunciante.

Repito aqui o que disse em outro artigo: “Qualquer multa é pequena diante do crime cometido. O mínimo que o ministério público e todos nós deveríamos cobrar é a indenização substancial de todas as vítimas diretas e a recuperação real do rio e de todo o bioma atingido. É preciso cobrar a logística reversa, com recolhimento da lama tóxica e filtragem da água. É preciso identificar e contratar as melhores tecnologias e equipes nacionais e internacionais na despoluição e recuperação do bioma.

Mas isto não basta. É preciso identificar as pessoas que escolheram ignorar os laudos e responsabilizá-las civil e criminalmente. Estas pessoas estão na Samarco e nos órgãos governamentais. Todos que escolheram ignorar o laudo do Instituto Prístino devem ser processados.

Estas medidas, além de serem a melhor resposta possível à tragédia, seriam altamente educativas. Sinalizariam claramente que o “jeitinho”, a economia porca, a corrupção, podem custar muito caro.”

Para encerrar, pergunto: e as demais represas que contém lama tóxica? Que tratamento será dado a estes resíduos? Como evitar que voltem a contaminar novos rios, novas cidades? Quais os riscos que representam hoje?

A coleção de questões a serem levantadas e enfrentadas é imensa, mas elas só serão respondidas se deixarmos de ser irrelevantes.

 

PS – A empresa Vale do Rio Doce, dona de 50% da Samarco, desde 2011, é novamente uma “estatal” controlada pelo Governo Federal. Isto significa que, de um jeito ou de outro, eu e você ajudaremos a pagar os custos de multas e ações de redução de danos impostas à empresa. Crime ou acidente, eu e você pagamos do mesmo jeito.

 

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