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SIMONE DE BEAUVOIR É OXUM E SARTRE OXALÁ NO EXISTENCIALISMO TROPICAL.

simone

A reação prá lá de ignorante ao texto de Simone de Beauvoir na prova do ENEM 2015 é destas coisas de causar vergonha alheia. Não era um texto vulgar, era um estrato de uma obra fundamental, um clássico do movimento feminista e uma afirmação dos direitos da mulher:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Nem é uma discussão sobre gênero como se pretende hoje, mas uma reflexão sobre as imposições de uma sociedade machista sobre as mulheres. Um questionamento de papeis impostos, não naturais.

Mas eis que um amigo e antagonista, Lúcio Júnior Espírito Santo, compartilha um artigo do site “o Umbigo das Coisas” que funciona como um bálsamo para acalmar o incômodo desta ignorância petulante e destrutiva, e o faz com inteligência e bom-humor.

Fiquem com o artigo de Regina Miraaz.

 

Quando o existencialismo descobriu a saudade.

Por REGINA MIRAAZ do site O UMBIGO DAS COISAS

“Sartre era Oxalá, e eu, Oxum”. É assim, direta e curta, a revelação que Simone de Beauvoir faz, no terceiro volume de suas memórias, A força das coisas, sobre o momento em que foi acolhida pelo candomblé. Ateus convictos, ele judeu e ela católica por filiação, Simone e Sartre viram-se, em agosto de 1960, no terreiro de Mãe Senhora, em Salvador, numa consulta espiritual. O encontro dos filósofos com a mãe de santo foi promovido pelo então Obá de Xangô do Ilê Apó Afonjá. Ou, para os leigos na religião, o escritor – cujo centenário se comemora neste ano – Jorge Amado.

A cena do comunista brasileiro recepcionando os existencialistas franceses – na época não exatamente em paz com o comunismo – em um terreiro na Bahia é emblemática de uma relação que foi capaz de transpor todas as diferenças culturais e ideológicas para se transformar em uma profunda amizade. Uma amizade daquelas que nos revelam novidades, que nos protegem e nos lançam em aventuras ao mesmo tempo. Amizade temperada com risos e conversas sérias, boas bebedeiras, reflexões filosóficas e políticas, discordâncias e diversão.

Simone e Sartre conheciam Amado de sua temporada de exílio em Paris, entre 1948 e 1950. Foram por ele convidados a conhecer o Brasil em 1960 e, após uma viagem fracionada em várias conexões aéreas complicadas, chegaram a Recife num avião cujo trem de pouso insistia em não funcionar. O pouso foi quase um milagre e o alívio do desembarque foi aumentado quando eles avistaram, no meio da multidão que os esperava no aeroporto, o rosto conhecido de Jorge Amado. “Compreendemos com satisfação que Amado, que viera especialmente para nos receber, iria servir-nos de guia pelo menos durante um mês”, relata Simone em suas memórias.

Começava ali, no aeroporto de Recife, uma relação afetiva e peculiar. Sartre e Simone de Beauvoir vieram ao Brasil com propósitos políticos: falar sobre as realizações da Revolução em Cuba, que eles haviam acabado de testemunhar. Também queriam falar sobre os crimes que a França cometia para reprimir as forças que lutavam pela independência da Argélia.

Com Jorge Amado como cicerone, podiam esquecer um pouco a política. Ele, segundo Simone, tinha gosto pelas “coisinhas boas da vida”: as comidas, as paisagens, as conversas e o riso. Orgulhoso de seu país e seu povo e de seu título honorífico no candomblé, disposto a acolher os amigos, Jorge Amado programou com Zélia Gattai uma agenda de viagem em que a cultura brasileira ficava em primeiro plano e a política, sempre que possível, em segundo. Levar os filósofos ateus ao terreiro de Mãe Senhora era prova disso. Foi um dos momentos mais impressionantes da viagem, para Simone: depois de testemunhar os rituais da religião e consultar-se com Mãe Senhora, ela fez uma bela reflexão sobre o poder dos rituais nas vidas das pessoas. Para ela, o candomblé, com seus êxtases e transes, era uma religião que permitia aos indivíduos a libertação da dominação da vida cotidiana e um encontro com a própria verdade.

Candomblé ao mar de Itapuã. As praias de Copacabana e Ipanema. Belo Horizonte. São Paulo – que “não era bonita, mas transbordava de vida”, como Simone definiu. A confusão dos mercados populares que exalavam o perfume da mistura de mercadorias e figuras humanas e cintilavam com as cores de adornos típicos e figuras de exus – esses “espíritos mais maliciosos do que malignos”. Disso tudo era feita a visita que tornou Jorge e Zélia, Sartre e Simone inseparáveis. Juntos, foram à igreja de São Francisco, a fazendas nordestinas, a plantações de café e de cacau, a Brasília, ao encontro com Oscar Niemeyer e do presidente Juscelino Kubitschek, ao Rio, ao Pelourinho e só não chegaram juntos numa tribo indígena do Mato Grosso porque Jorge Amado não era fã de aviões. Preferiu ficar em Brasília enquanto os amigos e a esposa embarcavam num suspeito teco-teco.

Amado logo conquistou a simpatia de Simone de Beauvoir por querer apresentar a ela e Sartre todos os sabores do Brasil: suco de caju, cacau, maracujá, feijoada, feijão mulatinho, mandioca, batata-doce, carne seca, rapadura, caipirinha e batidas variadas… Tanto Simone quanto Amado acreditavam que um país se conhece por seus sabores. Sartre, adoentado e sensível a sabores fortes, ressentia-se dessa convicção do amigo e evitava, sempre que possível, a diversidade de sabores do Brasil.

Mesmo deixando a política em segundo plano, Jorge fez questão de colocar os amigos a par da campanha eleitoral para presidente que se desenrolava no País. Explicou que o MarechalLott receberia o voto dos comunistas e da esquerda, mas o fato de ouvirem insistentemente, por onde andavam, o “Varre Vassourinha” de Jânio Quadros era emblemático. Sim, eles podiam ter certeza, Jânio ganharia as eleições.

Zélia era a motorista oficial dos passeios, impressionava Simone com sua agilidade ao volante pelas ruas tortuosas e montanhas e morros de Salvador e do Rio. E também por trazer sempre um amuleto contra acidentes, no qual Simone, se não confiava cegamente, encontrava algum conforto.

Em Araraquara, impressionada com o sucesso de Sartre entre os estudantes, Simone comentou com Amado, durante um passeio numa tarde de domingo: “– Dir-se-ia que são todos revolucionários!” “– Quando eles se tornarem médicos e advogados isso passará. (…) Não irão reivindicar mais nada além de um capitalismo nacional, independente dos EUA…”, foi a resposta sincera que ouviu do amigo.

Simone retribuía a atenção dos amigos com um interesse redobrado: lera Roger Bastide e Gilberto Freyre para compreender a cultura brasileira, e dedicava-se também à leitura dos livros de Jorge Amado:Gabriela Cravo e CanelaCacau e Terras do Sem-Fim.

Os casais se separaram depois de visitarem Brasília. Dali, Sartre e Simone partiriam para Belém e Amazônia – recomendações de viagem de Claude Lévi-Strauss – e, então, para uma segunda visita a Havana. Os Amado rumariam para o Rio. Simone comovia-se ao deixá-los. “Depois de seis semanas de tão bom relacionamento, era difícil imaginar que só os reveríamos muitos anos depois, ou talvez nunca mais”, relatou ela. Depois de tantos dias com os amigos, vendo e experimentando tudo o que o Brasil tem, a separação mostrava a ela um aspecto da cultura brasileira que ainda desconhecia: a saudade.

Em Belém e Manaus, Sartre e Simone não podiam retornar imediatamente à França e a viagem para Havana esbarrava em problemas burocráticos. Ressentiam-se da solidão, do clima, da falta de companhia para os passeios e as conversas. Tentaram contato com os amigos por telegramas, que nunca chegaram. Algumas semanas depois, na viagem rumo a Havana, desembarcaram novamente no Rio exaustos, tristes, preocupados. Ali reencontraram o escritor, político, amante das “coisinhas boas da vida” e Obá de Xangô Jorge Amado. Ou, para Simone de Beauvoir, apenas o amigo embaixador da saudade.

Link para o artigo original: http://umbigodascoisas.com/2012/02/08/quando-o-existencialismo-descobriu-a-saudade/

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12 comentários em “SIMONE DE BEAUVOIR É OXUM E SARTRE OXALÁ NO EXISTENCIALISMO TROPICAL.

  1. Zuleima Ferreira
    11/04/2015

    Eu entendo que o texto de Simone se refere à luta da mulher para se impor na sociedade. Através dessa luta e que a mulher definia o seu papel, ativo ou passivo.

  2. Jorge Amado em seus Subterrâneos da Liberdade já detonou muitos dos seus argumentos, Paulo. E vc não sabe!

    O senhor não vai quer me convencer que é com a ditadura do proletariado que o homem se liberta…

    – Não quero convencê-lo de nada, doutor. Para mim é suficiente que os operários o compreendam. Sim, a ditadura do proletariado libera o homem da miséria, da ignorância, da exploração, do egoísmo, de todas as cadeias em que o amarra a ditadura da burguesia e dos latifundiários a que os senhores chamam de democracia e que agora se transforma no fascismo. Democracia para um grupo, ditadura para as massas. A ditadura do proletariado quer dizer democracia para as grandes massas.

    O juiz forçou um sorriso:

    – Já li isso em qualquer parte: “tipo superior de democracia…” Chega a ser divertido. Nem liberdade de expressão, nem liberdade de crítica, nem de religião…

    – O senhor está descrevendo o Estado Novo e não o regime socialista – comentou João. Num Estado socialista, na URSS, existe liberdade de expressão, de religião, de crítica. Basta ler a Constituição Soviética. O senhor a conhece? Eu recomendo-lhe a leitura, doutor. Para um jurista é essencial.

    – Liberdade na Rússia… Liberdade de ser escravo do Estado, de trabalhar para os demais. Liberdade de não possuir nada, de não ser dono de nada.

    – Sim, a liberdade de explorar os demais, de possuir os meios de produção, essa não existe na URSS. Essa existe aqui , doutor, liberdade para os ricos, para uns quantos. Para os demais, para a imensa maioria dos brasileiros, o que existe é liberdade de passar fome e de ser analfabeto. E a cadeia, as pancadas, a solitária, se protestar contra isso. O senhor se esquece que está falando com um preso, doutor, uma vítima da vossa liberdade. Os senhores se contentam com a liberdade para sua classe. Nós queremos a verdadeira liberdade: liberdade do homem com sua fome saciada, do homem livre da ignorância, do homem com trabalho garantido, sem problemas para o sustento dos filhos. Doutor, não fale de liberdade aqui, na Casa de Detenção. Aqui a nossa liberdade vale bem pouco. É abusar de uma palavra que para nós, comunistas, tem um significado muito concreto.

    – Com os senhores não se pode conversar. Querem impor as idéias pela força.

    – Pela força? – João sorriu novamente. – cuidado, doutor, assim o senhor vai terminar afirmando que fui eu quem espancou a polícia…

    – O senhor é um moço inteligente – a voz do juiz fazia aconselhadora. – Até é difícil acreditar que o senhor seja mesmo um operário. Se o senhor abandonasse essas idéias ainda poderia vir a ser um homem útil ao país, quem sabe não poderia ainda…

    – Não, não poderia, doutor. Sou comunista, esta é minha honra, meu orgulho. Não troco esse título por nenhum outro – seus olhos se estenderam além das grades das janelas, viam-se diante dos muros, os tetos das casas na rua.

    http://mepr.org.br/cultura-popular/literatura/931-trecho-do-livro-os-subterraneos-da-liberdade-jorge-amado.html

    • Questões Relevantes
      11/04/2015

      Lúcio, para mim é natural que o amadurecimento traga o afastamento do velho e sempre sangrento sonho socialista.

      Obrigado pela contribuição, mas seus argumentos já encontram resposta neste blog, em vários artigos. Este é um deles: “DEMOCRACIA SOCIALISTA” É O SACI PERERÊ DA CIÊNCIA POLÍTICA: NÃO PASSA DE FOLCLORE. http://wp.me/p4alqY-3n

  3. Uma palavrinha sobre Sartre e Simone: estão sempre numa posição intermediária quanto ao comunismo. Amado, no entanto, em 1960 já estava bastante afastado do partido. Ele acertou muito em Subterrâneos da Liberdade, tanto que o hoje o combatido MEPR o sugere como leitura. Sartre escreveu sobre Heidegger, filósofo favorável ao nazismo, durante a invasão alemã, beneficiando-se disso. Parte da polêmica foi devido ao fato de que Beauvoir trabalhou na Rádio Vichy, rádio colaboracionista. Ela seria, então, “nazista”, “feminazi”. Os conservadores gostam de igualar nazismo e comunismo e acusar a esquerda de ser tão autoritária quanto o nazismo. Como acusam a esquerda de conservadora, dão a si mesmos papel progressista.

    • Questões Relevantes
      11/04/2015

      Sobre esta questão da apropriação da palavra progressista, desenvolvi o tema aqui: OS PROGRESSISTAS, O PARADOXO E OS TEMPOS DE PAZ. http://wp.me/p4alqY-iM

  4. Marcus Vinícius
    11/03/2015

    É vero!!! Para revelar o que se esconde no escuro, luzes!!!
    Mas fiquei com a impressão, partindo de uma situação hipotética em que eu não tivesse o domínio sobre o contexto Beauvoir, e estivesse acompanhando as discussões atuais sobre ideologia de gênero, que a frase, descontextualizada como está na questão, teria seu significado atravessado e confundido sim por grande parte das pessoas. Me pareceu que a questão teve o objetivo exato de criar o celeuma que criou, exatamente para pontuar uma ignorância específica, que sabemos existir e que não guarda correlação com ideologia.

    • Questões Relevantes
      11/03/2015

      Marcus, discordo, já que o tema da redação era a violência contra a mulher. Digamos que, mesmo na ignorância total de quem fosse Simone de Beauvoir, ao somar 1 + 1 estava mais fácil concluir pela questão feminina que pela questão de gênero. Não descarto a intencionalidade da celeuma, mas o rumo que esta questão tomou foi um atestado de nossa atual indigência intelectual.

      • Marcus Vinícius
        11/03/2015

        É verdade Paulo Falcão. O tema da redação poderia servir de contraponto sim. Mesmo assim, o contexto saturante de discussão atual é mais sobre a questão de gênero que violência contra a mulher, o que, no caso de nossa atual e sabida indigência intelectual, proporcionaria com grande probabilidade a confusão que proporcionou.

  5. Sandra Schmitt
    11/03/2015

    Concordo e acho que a leitura exige conhecimento e compreensão de que talvez boa parte do público alvo não tivesse ainda construído, pois até alguns críticos com suposto saber interpretaram ideologizando a ideia.

    • Questões Relevantes
      11/03/2015

      Sandra, concordo. O que me incomoda é que à direita e à esquerda a maior parte das pessoas lê na diagonal, acha que entendeu e sai atirando. Há um progressivo emburrecimento do debate em uma mistura de preguiça e presunção.

  6. kkk, obrigado, Paulo, muito bom!

    Fiz um post curtinho sobre a revolução cubana, mencionada nesse artigo:

    –O Partido Comunista Cubano tinha mudado o nome para Partido Populista Socialista (PPS ou algo assim) e estava apoiando Batista. Só mudaram de opinião na última hora.
    –O partido foi reconstruído totalmente de cima para baixo, a partir de 61, aproveitando alguns dos antigos quadros. O primeiro congresso do partido só ocorreu em 1975.

    http://revistacidadesol.blogspot.com.br/2015/11/algumas-curiosidades-sobre-revolucao.html

    Abs do Lúcio Jr.

    • Questões Relevantes
      11/03/2015

      Eu vi e gostei.

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Publicado às 11/02/2015 por em Uncategorized e marcado , , , .
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