ffelech

Dia 19 de setembro de 2015 o site Carta Maior, o site da Revista Forum e diversos outros blogs publicaram um manifesto que tinha em todos o mesmo título: “Professores da FFLCH-USP lançam manifesto em defesa da democracia”. Felizmente, nem todos os professores da FFLCH-USP cometeram a tolice de assiná-lo.

Que pessoas com pouca informação digam certas bobagens é perdoável, mas quando estamos diante de professores da USP a coisa deveria ser diferente.

Na coleção de inverdades abaixo os professores signatários cometem afirmações quase inacreditáveis.

Mas sejamos práticos. Vou intercalar as críticas no próprio panfleto que reproduzo abaixo:

____________________

Professores da FFLCH-USP lançam manifesto em defesa da democracia 

É preciso propor alternativas para combater os efeitos da crise mundial e não alimentar a instabilidade política por meio de ameaças ao voto popular.

Editoriais e manifestações de políticos de oposição procuram ampliar o escopo de um golpe na Democracia brasileira. É preciso estar alerta e pronto a evitar ameaças à vontade popular, expressa nas últimas eleições presidenciais.

(Comentário meu: democracia é respeito ao estado de direito e um eventual impeachment não é golpe agora, como não foi com Collor. Duvido que algum destes professores, à época, tenha publicado um único artigo ou manifesto dizendo que o impeachment de Collor fosse golpe. Além disso, silenciam completamente diante do estelionato eleitoral de Dilma, da incompetência gerencial e da corrupção como método de governo).

O caos que uma ação dessa ordem traria pode afetar radicalmente os rumos do país. Por isso, é uma irresponsabilidade social e política inflar um movimento que pode causar profundas rupturas na sociedade brasileira, com consequências econômicas, sociais, culturais e políticas que podem ser desastrosas.

(Comentário meu: isto é uma ameaça velada. Acontece que as pesquisas indicam que perto de 70% da população concorda com um eventual impeachment. Logo, a lógica indica o oposto: a maioria das pessoas apoiaria esta decisão. Apenas as franjas financiadas pelo PT, como CUT, MST, MTST e afins fariam o que sempre fazem: ameaças e badernas).

Nos últimos anos, partidos progressistas foram eleitos em vários países da América Latina. Ainda que muitos deles propusessem uma pauta moderada frente ao quadro de desigualdade social presente no mundo atual, conseguiram aplicar reformas que as diminuíram. Além disso, implantaram programas sociais que aumentaram a capacidade de emitir opinião de camadas sociais que não tinham como aferir sua situação no mundo diante da condição de miséria, desinformação e fome que viviam.

(Comentário meu: o que eles chamam de “partidos progressistas” são grupos políticos baseados no populismo personalista que investiram na progressiva fragilização da democracia que lhes permitiu serem eleitos. O que chamam de “pautas moderadas” é uma crítica ao fato de não terem logo partido para o modelo socialista, com desapropriações e confiscos. É uma crítica por não implementar de forma mais rápida e radical os objetivos traçados no Foro de São Paulo).

De modo articulado, assistiu-se um roteiro que seguiu os dirigentes progressistas de países da América do Sul, com agressões duras contra a Democracia. Governos eleitos na Venezuela, no Equador, na Bolívia, na Argentina e no Paraguai enfrentaram momentos difíceis que resultaram em países polarizados.

(Comentário meu: este parágrafo suscita dúvidas: foi mal escrito e resultou dúbio ou é dúbio de propósito para não dizer com todas as letras que estes países já não são democracias? A ocorrência de eleições é condição necessária, mas não suficiente para caracterizar uma democracia. Como chamar de democráticos governos como o de Nicolás Maduro, que fala com passarinhos e manda disparar fuzis contra estudantes? Como chamar de democracia o governo da Bolívia, que em um dos primeiros atos de governo destituiu o equivalente ao STF do país e nomeou juízes subservientes? A lista de desmandos é longa, mas voltemos ao manifesto).

 Esse modo de operar chegou ao Brasil, mas com uma agravante: um ódio descabido ao partido que aplicou as mudanças sociais no país. Como a história só se repete como farsa e como a política possui especificidades nacionais, causa muita preocupação o acirramento de tensões que, de algum modo, estavam acomodadas. No caso brasileiro, a irracionalidade trazida pelo ódio já tem resultado em agressões verbais e até físicas de cidadãos que simplesmente ostentam roupas de cor vermelha em situações as mais inusitadas. Isso não pode continuar.

(Comentário meu: quem investiu no discurso do ódio, do “nós contra eles”, foi o PT a partir do escândalo do mensalão. Ali Lula abandonou o “Lulinha, paz e amor” que venceu as eleições e partiu para o ataque. A estratégia tem, portanto, aproximadamente 11 anos, com as digitais e o DNA do PT. Embora realmente tenham ocorrido hostilidades verbais nas manifestações que foram às ruas, é preciso ao menos um pouco de honestidade, caros professores, para reconhecer que estas hostilidades foram metodicamente plantadas e cultivadas pelo PT e que, mesmo assim, foram casos isolados, sem violência física e sem quebra-quebra).

É preciso aprimorar o uso do potencial energético, dos recursos naturais e da capacidade produtiva no campo e nas cidades brasileiras para melhorar a vida da população por meio da criação de novas relações sociais e com o ambiente. O Brasil possui enormes vantagens nessa corrida tecnológica dada suas condições naturais, que garantem reservas de biodiversidade, petróleo, água, solo, sol e vento. Esses atributos devem ser usados de modo inteligente para alçar o país a um novo patamar de produção e distribuição de riqueza em vez de manter-se como simples provedor de produtos primários.

(Comentário meu: este parágrafo é puro “embromation”. É uma afirmação “fofinha”, mas não tem qualquer relação com a permanência de Dilma na presidência).

 É preciso reafirmar que quaisquer tentativas de retirar a Presidente Dilma Rousseff, eleita democraticamente, antes do fim de seu mandato, pode levar o país a uma situação insustentável do ponto de vista social e político.

(Comentário meu: nova ameaça velada e descolada do que indicam as pesquisas. Na falta de argumentos sólidos para lastrear o que desejam, apelam para este truque barato).

O Brasil não precisa disso, muito menos seu povo, que enfrenta as duras consequências de uma crise econômica e financeira que afeta o mundo hodierno.

 O momento exige responsabilidade e discernimento para propor alternativas sérias de combater os efeitos da crise mundial e não alimentar a instabilidade política por meio de ameaças ao voto popular.

(Comentário meu: a exemplo do PT, eles também querem nos convencer que a crise é mundial e não culpa da incompetência de Dilma e de sua irresponsabilidade fiscal. Como já apontei em outro artigo, não reconhecem a crise como consequência direta das pedaladas fiscais e da contabilidade criativa de Guido Mantega e Dilma. Não ligam que a crise atual tenha sido anunciada por todo mundo que entende ao menos um pouco de economia já no início do primeiro mandato de Dilma. Não vêm o impacto do atoleiro de corrupção que já emergiu da Petrobrás e começa a emergir de outras estatais como Eletronuclear e BNDES. Ignoram que os preços dos combustíveis e da energia elétrica criminosamente represados até as eleições catapultaram a inflação quando foram liberados – e foram liberados  porquê não havia mais dinheiro público, dinheiro de impostos, para cobrir o rombo. Ou seja: os fatos desmentem de forma cabal as alegações fantasiosas do PT e dos “professores da USP”, mas isto faz pouca diferença para quem demonstra total alheamento da realidade e/ou uma enorme cara de pau. Abaixo seguem os nomes que assinaram este manifesto e, no final, algumas sugestões de artigos relacionados com o que tratamos aqui).

  • Wagner Costa Ribeiro – Professor – Departamento de Geografia – USP
    2) Flavio Aguiar – Professor – USP
    3) Adrián Pablo Fanjul – Professor – Departamento de Letras Modernas – USP
    4) Marcello Modesto – Professor – Departamento de Linguística – USP
    5) Ligia Chiappini Moraes Leite – Professora – USP
    6) Fabio Cesar Alves- Professor – DLCV – USP
    7) Gloria Alves – Professora – Departamento de Geografia – USP
    8) Rita Chaves – Professora – DLCV/FFLCH – USP
    9) Marcos Silva – Professor – Departamento de História – USP
    10) Luis Roncari – Professor – DLCV – USP
    11) Ricardo Musse – Professor – DS – USP
    12) Olga Ferreira Coelho Sansone – Departamento de Linguística – USP
    13) Homero Santiago – Departamento de Filosofia – USP
    14) Ieda Maria Alves – DLCV – USP
    15) Tercio Redondo – DLM – USP
    16) João Adolfo Hansen – DLCV- FFLCH- USP
    17) Luís César Oliva – Professor USP
    18) Neide Maia González – FFLCH – USP
    19) Heloísa Pezza Cintrão DLM/FFLCH/USP
    20) Kabengele Munanga Dpto.Antropologia – USP
    21) Beatriz Raposo de Medeiros – FFLCH – USP
    22) Cilaine Alves Cunha – Literatura Brasileira – FFLCH – USP
    23) Renato da Silva Queiroz – FFLCH-USP
    24) Rosangela Sarteschi – DLCV – USP
    25) Sheila Vieira de Camargo Grillo – DLCV – USP
    26) Marta Inez Medeiros Marques – DG – USP
    27) Sylvia Bassetto – DH – USP
    28) Beatriz Daruj Gil – DLCV – USP
    29) Gustavo Venturi – DS – USP
    30) Paula Marcelino – professora – Departamento de Sociologia – USP
    31) María Zulma M. Kulikowski – DLM – USP
    32) Elisabetta Santoro – DLM – USP
    33) Vima Lia de Rossi Martin – DLCV – USP
    34) Pablo Schwartz – DLCV – USP
    35) Fabio Contel – DG – USP
    36) Léa Francesconi, professora, DG-FFLCH-USP
    37) Valeria De Marco – DLM/FFLCH-USP
    38) Adma Muhana – FFLCH-DLCV-USP
    39) José Pereira de Queiroz Neto – DG – USP
    40) Manoel Luiz Gonçalves Corrêa – DLCV – FFLCH – USP
    41) Waldir Beividas – DL- USP
    42) Rita de Cássia Ariza da Cruz – Departamento de Geografia – FFLCH/USP
    43) Ivan Marques – DLCV / FFLCH – USP
    44) Mónica Arroyo – DG – USP
    45) Homero Freitas de Andrade – DLO – FFLCH – USP
    46) Maria Helena Pereira Toledo Machado – FFLCH – USP
    47) André Martin – DG – USP
    48) Iris Kantor – DH – USP
    49) Fernanda Padovesi Fonseca – DG – USP

 

_______________________

ENTREVISTA DE ELIANE CANTANHÊDE COM DELFIM NETTO MOSTRA QUE É POSSÍVEL DEFENDER O GOVERNO DO PT SEM PASSAR VERGONHA INTELECTUAL.

Resolvi incorporar a entrevista abaixo a este artigo porque Delfim Netto, ex-ministro dos governos militares, deputado federal por 24 anos, membro da banca de doutorado de Aloízio Mercadante e apoiador do PT desde a eleição de Lula mostra para os professores da USP que assinaram o manifesto cara de pau que é possível defender o governo petista sem passar vergonha intelectual. Segue a entrevista de Delfim a Eliane Cantanhêde no Estadão:

ELIANE CANTANHÊDE :
Delfim diz que a presidente é honesta, mas ‘tem uma visão do Brasil que não coincide com o País’, classifica a proposta de Orçamento como ‘barbeiragem’ e o pacote fiscal como ‘fraude’ .
O ex-¬ministro, ex-¬deputado e afiadíssimo economista Delfim Netto, 87 anos, 24 deles no Congresso, como deputado, desfia uma série de adjetivos demolidores contra o pacote fiscal do governo e é implacável com a presidente Dilma Rousseff: “Ela é simplesmente uma trapalhona”.
Em entrevista ao Estado, Delfim classificou o envio de um Orçamento com déficit ao Congresso como “a maior barbeiragem política e econômica da história recente do Brasil” e disse que o pacote é “uma fraude, um truque, uma decepção, não tem corte nenhum, é uma cobra que mordeu o rabo”.
Quanto ao coração do plano: “A CPMF é um imposto cumulativo, regressivo, inflacionário, tem efeito negativo sobre o crescimento e quem paga é o pobre”.
A seguir, os principais trechos da entrevista.

ELIANE CANTANHÊDE : Como o sr. vê a situação hoje?

DELFIM NETTO: Com muita preocupação. As pessoas sabem que a presidente é uma mulher com espírito muito forte, com vontades muito duras, e ela nunca explicou porque ela deu aquela conversão na estrada de Damasco. Ela deveria ter ido à televisão, já no primeiro momento, e dizer: “Errei. Achei que o modelo que nós tínhamos ia dar certo e não deu”. Mas, não. Ela mudou sem avisar e sem explicar nada para ninguém. Como confiar?

ELIANE CANTANHÊDE : Como define a conversão na estrada de Damasco?

DELFIM NETTO: Ela mudou um programa econômico extremamente defeituoso, que foi usado para se reeleger. Em 2011, a Dilma fez um ajuste importante, aprovou a previdência do funcionalismo público, o PIB cresceu praticamente no nível do Lula. Mas o vento que era de cauda e que ajudou muito o Lula tinha mudado e virado um vento de frente.

ELIANE CANTANHÊDE : Os ventos internacionais?

DELFIM NETTO: Sim. Então, ela foi confrontada em 2012 com essa mudança e com a expectativa de que a inflação ia aumentar e o crescimento ia diminuir e ela alterou tudo. Passou para uma política voluntarista, intervencionista, foi pondo a mão numa coisa, noutra, noutra, noutra… Aquilo tudo foi minando a confiança do mundo empresarial e, de 2012 a 2014, o crescimento vai diminuindo, murchando.
ELIANE CANTANHÊDE : E o uso na reeleição?

DELFIM NETTO: A tragédia, na verdade, foi 2014, porque ela usou um axioma da política, que diz que ‘o primeiro dever do poder é continuar poder’. No momento em que ela assumiu isso, passou a insistir nos seus equívocos. Aliás, contra o seu ministro da Fazenda, o Guido Mantega, que tinha preparado a mudança, tanto que as primeiras medidas anunciadas pelo Joaquim Levy já estavam prontas, tinham sido feitas pelo Guido.

ELIANE CANTANHÊDE : Então, o sr. discorda da versão corrente de que a culpa foi do Mantega?

DELFIM NETTO: O Guido não tem culpa nenhuma. E, para falar a verdade, nenhum ministro da Fazenda da Dilma tem culpa nenhuma, porque o ministro da Fazenda é a Dilma, é ela. E o custo da eleição é o grande desequilíbrio de 2014.

ELIANE CANTANHÊDE : Qual o papel do Levy?

DELFIM NETTO: Como a credibilidade do governo é muito baixa, o ajuste que ele fez encontrou muitas dificuldades, não teve sucesso porque não foi possível dizer que o ajuste era simplesmente uma ponte.

ELIANE CANTANHÊDE : A presidente não vive dizendo que é só uma travessia?
DELFIM NETTO: Travessia sem ponte?

ELIANE CANTANHÊDE : E o pacote fiscal?

DELFIM NETTO: O primeiro equívoco mortal foi encaminhar para o Congresso uma proposta de Orçamento com déficit. Foi a maior barbeiragem política e econômica da história recente do Brasil. A interpretação do mercado foi a seguinte: o governo jogou a toalha, abriu mão de sua responsabilidade, é impotente, então, seja o que Deus quiser, o Congresso que se vire aí.

ELIANE CANTANHÊDE : A briga interna do governo não é um complicador?
Delfim: A briga interna ocorre em qualquer governo, mas o presidente tem de ter uma coisa muito clara: ele opta por um e manda o outro embora. Um governo não pode ter dentro de si essas contradições, senão vira um Frankenstein.

ELIANE CANTANHÊDE : Quem tem de sair, o Levy, o Nelson Barbosa ou o Aloizio Mercadante?

DELFIM NETTO: Quem tem de sair é problema da Dilma, mas quem assessorou isso do Orçamento com déficit levou o governo a uma decisão extremamente perigosa e desmoralizadora e isso produziu um efeito devastador.

ELIANE CANTANHÊDE : De tudo o que o sr. diz, conclui¬-se que o ponto central da crise é que Dilma é uma presidente fraca?

DELFIM NETTO: Ela tem uma visão do Brasil que não coincide com o Brasil.

ELIANE CANTANHÊDE : Por que o sr. defendia o aumento da Cide, não a recriação da CPMF?

DELFIM NETTO: O aumento da Cide seria infinitamente melhor. CPMF é um imposto cumulativo, regressivo, inflacionário, tem efeito negativo sobre o crescimento e quem paga é o pobre mesmo. Ele está sendo usado porque o programa do governo é uma fraude, um truque, uma decepção – não tem corte nenhum, só substituição de uma despesa por outra e o que parece corte é verba cortada do outro.

ELIANE CANTANHÊDE : Dizem que vão usar a verba do sistema S.
DELFIM NETTO: Ora, meu Deus do céu! R$ 1 do sistema S produz infinitamente mais do que R$ 1 na mão do governo. Alguém duvida de que o governo é ineficiente?
ELIANE CANTANHÊDE : A presidente Dilma…

DELFIM NETTO: Acho que não, nem ela. Ela sabe disso, só não tira proveito.

ELIANE CANTANHÊDE : E a Cide?

DELFIM NETTO: A CPMF é coisa do século 19, a Cide é do século 21, porque você corta consumo de combustível fóssil, reduz emissão de CO2 e vai salvar um setor que você destruiu, o sucroalcooleiro. Tem 80 empresas quebrando por conta dos erros da política econômica. Na hora que você fizer isso, toda essa indústria renasce.

ELIANE CANTANHÊDE : Quais as chances de o pacote passar?

DELFIM NETTO: Eles vão ter de negociar com a CUT e com o PT, que é o verdadeiro sindicato do funcionalismo público. Então, é quase inconcebível e vai ter uma greve geral que vai reduzir ainda mais a receita. É uma cobra que mordeu o rabo. O aumento de imposto é 55% do programa; o corte, se você acreditar que há corte, é de 19%; e a substituição interna representa 26%. Ou seja, para cada real que o governo finge que vai economizar com salários, ele quer receber R$ 3 com as transferências e o aumento de imposto. No fundo, o esforço é nulo.

ELIANE CANTANHÊDE : O sr. diz que os grandes problemas começam em 2014, mas muitos analistas respeitados dizem que começam antes. Qual a responsabilidade do governo Lula?

DELFIM NETTO: Até 2011, o vento de cauda era de tal ordem, a entrada da China foi de tal ordem, que dava a sensação de que você tinha entrado no paraíso e o Lula aproveitou bem para um crescimento mais inclusivo, mais equânime. Depois, eu estou convencido de que foi a intervenção extravagante, extraordinária, exagerada no sistema econômico que gerou tudo isso. Mexeu na eletricidade, mexeu nos portos, foi criando um estado de confusão que matou o “espírito animal” dos empresários, com uma queda dramática do nível de investimento e do nível de crescimento.

ELIANE CANTANHÊDE : A diferença é que o Lula nunca fez questão de ser de esquerda, mas a Dilma, que vem do velho PDT brizolista, nacionalista e estatizante, tem esse compromisso?

DELFIM NETTO: O Lula é um pragmático, uma inteligência extraordinária. Já a Dilma tem, sim, o velho problema do engenheiro, o engenheiro Brizola, que por onde passou destruiu tudo, destruiu de tal jeito o Rio Grande do Sul que ninguém mais salva. Ela tem uma ideia intervencionista, realmente não acredita no sistema de preços. Veja essa escolha dela no pré-¬sal, é inteiramente arbitrária. Foi dar para a Petrobrás uma tarefa muito acima do que ela é capaz. Nada mais infantil no Brasil do que a sua esquerda, facilmente manobrável.

ELIANE CANTANHÊDE : Quem é a esquerda no Brasil hoje?

DELFIM NETTO: No Brasil de hoje, esquerda e direita são sinais de trânsito. O fato é que a Dilma é uma intervencionista e foi a crença de que ela não mudou, e de que a escolha do Joaquim foi simplesmente um expediente para superar uma dificuldade, que não deu credibilidade ao plano de ajuste. Além de perder credibilidade junto aos empresários, a presidente também está perdendo apoios na base social do PT. Como ela não explicou que errou e por que iria mudar a política econômica, o 1/3 que votou nela se sentiu traído de verdade e o 1/3 que votou contra ela disse: ‘Viu? Eu não disse?”. Sobraram para ela só 8%.

ELIANE CANTANHÊDE : Em quem o sr. votou?

DELFIM NETTO: Na Dilma. Mas acho que o Aécio era perfeitamente “servível”. Teria as mesmas dificuldades que a Dilma enfrenta, porque consertar esse negócio que está aí não é uma coisa simples para ninguém, mas ele entraria com uma outra concepção de mundo, faria um ajuste com muito menos custo e a recuperação do crescimento teria sido muito mais rápida.

ELIANE CANTANHÊDE : Se a presidente está com 8% de popularidade, pior até que o Collor, o impeachment seria uma solução?

DELFIM NETTO: Se houver algum desvio de conduta materialmente provado, o impeachment é um recurso natural dentro da Constituição. Então, não há nenhuma quebra de institucionalidade, não tem nenhum problema. Agora, o Brasil não é nenhuma pastelaria e não é nenhuma passeata cívica de verde e amarelo nem panelaço que decide se vai ter ou não impeachment. Não há recall de presidentes. A sociedade votou, que pague os seus erros para aprender e volte em 2018. Está em segunda época, volte em 2018 para fazer nova prova.
ELIANE CANTANHÊDE : Então, o sr. não votaria na Dilma novamente em 2018, se ela pudesse ser candidata?

DELFIM NETTO: Não, primeiro porque ela não pode ser candidata. É preciso dizer que eu acho a Dilma absolutamente honesta, com absoluta honestidade de propósito, e que ela é simplesmente uma trapalhona.

ELIANE CANTANHÊDE : Numa eventualidade, o vice Temer seria adequado para a Presidência como foi o Itamar Franco?

DELFIM NETTO: Acho que sim. Nós somos muito amigos. O Temer tem qualidades, é uma pessoa extraordinária, um gentleman e um sujeito ponderado, tem tudo, mas eu refugo essa hipótese enquanto não houver provas, e vou te dizer: ele também.

Link para a entrevista no Estadão:
http://goo.gl/WP4wm6

______________________________

Link para artigos complementares:

IDEOLOGIA NÃO PAGA AS CONTAS: http://wp.me/p4alqY-hn

O BOLIVARIANISMO NO JARDIM DO VIZINHO:http://wp.me/p4alqY-hf

PORQUE A VENEZUELA NÃO É UMA DEMOCRACIA: http://wp.me/p4alqY-2b

A VENEZUELA E A VERDADEIRA NATUREZA DO LOBO: http://wp.me/p4alqY-eS

NÃO É MERA COINCIDÊNCIA: http://wp.me/p4alqY-fV

 

Anúncios