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Na década de 1980 Gilles Deleuze e Felix Guattari fizeram muito sucesso no ambiente acadêmico com a questão do devir*. O conceito é complexo e interessante (há um verbete sobre o termo no final do artigo), mas ganhou fama principalmente por seus aspectos libertários. Era um “papo cabeça” chic em nome das minorias e do desejo individual, compreendido como pulsão e não como individualismo. O conceito ao mesmo tempo evoca e nega a famosa frase de Ayn Rand que vem a ser uma defesa do liberalismo contra as ideias totalizantes da esquerda: “A menor minoria na Terra é o indivíduo. Aqueles que negam os direitos individuais não podem se dizer defensores das minorias”.

A década de 1980 passou, o muro de Berlim caiu, a cortina de ferro virou sucata, o mundo girou, mas a esquerda não perdeu a pose.

Recentemente me deparei com um vídeo de uma entrevista com Deleuze que está fazendo sucesso no youtube e nas redes sociais. A entrevista pertence a uma série feita por Claire Parnet, filmada nos anos 1988-1989, durante o longo governo do socialista François Mitterrand na França. O nome do vídeo é “O QUE É SER DE ESQUERDA” e traz uma coleção de frases de efeito que podem ser um belo discurso, uma oração por um mundo melhor, mas estão longe de definir o que é ser de esquerda.

Pode-se mesmo dizer que a definição de esquerda que Deleuze apresenta nega a essência da teoria e da prática que definiu a esquerda majoritária de Marx e Engels para cá. No fim, ele sequestra o bom, o belo e o justo para seu uso muito particular do que significa ser de esquerda e afirma, indiretamente, que tudo que a “outra esquerda” produziu como teoria política e realizou como exercício de governo não é de esquerda. Esquerda é o ideal mítico, o imaginário, o intangível. Isto não é filosofia, é jogo de palavras para confortar almas da esquerda, cegas, perdidas dentro de um labirinto circular.

Não é o primeiro caso, obviamente. Em um artigo chamado A ESQUERDA E OS CAMINHOS QUE SE BIFURCAM trato de alguns outros que enveredam pelo caminho do autoengano.

Segue a transcrição da entrevista com alguns comentários meus onde achei necessário.

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A ENTREVISA

 

Claire Parnet (Entrevistadora): O que é ser de esquerda para você?

Deleuze: Vou lhe dizer. Acho que não existe governo de esquerda. Não se espantem com isso. O governo francês, que deveria ser de esquerda, não é um governo de esquerda. Não é que não existam diferenças nos governos. O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda, mas não existe governo de esquerda porque a esquerda não tem nada a ver com governo.

(Comentário meu: O nome disso é prestidigitação intelectual. Um truque. A esquerda nasceu e se realizou como força política e/ou revolucionária para ser poder, para ser governo. Temos aqui uma aplicação meio “criativa” do próprio conceito de devir*, como que a dizer: no momento em que se realiza, muda sua natureza e já não é o que era enquanto devir*. A mácula da realidade corrompe o que era ético e justo. Está mais para um “me engana que eu gosto” do que para uma formulação ancorada na realidade.)

Deleuze: Se me disserem para definir o que é ser de esquerda, ou definir a esquerda, eu o faria de duas formas.

Primeiro, é uma questão de percepção. A questão de percepção é a seguinte: o que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se de si próprio, depois vem a rua, o bairro, a cidade, o estado e assim cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, que se vive em um pais rico, costuma-se pensar em como fazer para que esta situação perdure. Sabe-se que há perigos, que isso não vai durar e que é muita loucura.

Como fazer para que isso dure? As pessoas pensam: “os chineses estão longe, mas como fazer para que a Europa dure ainda mais?

E ser de esquerda é o contrário: é perceber… Dizem que os japoneses pensam assim. Não vêem como nós. Percebem de outra forma. Primeiro eles percebem o contorno. Começam pelo mundo, depois o continente (europeu por exemplo) até a França e chegarmos à Rua de Bizarte e a mim. É um fenômeno de percepção. Primeiro percebe-se o horizonte.

Claire Parnet (Entrevistadora): mas os japoneses não são um povo de esquerda…

Deleuze: Mas isso não importa. Estão à esquerda em seu endereço postal. Estão à esquerda. Primeiro, vê no horizonte e sabe que não pode durar, não é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isto não pode mais durar. Não é possível essa injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas da própria percepção. Ser de esquerda é começar pela ponta, começar pela ponta e considerar que estes problemas devem ser resolvidos. Não é simplesmente achar que a natalidade deve ser reduzida, pois é uma maneira de preservar os privilégios europeus. Deve-se encontrar os arranjos, os agenciamentos mundiais que farão com que o Terceiro Mundo… Ser de esquerda é saber que os problemas do Terceiro Mundo estão mais próximos de nós do que os de nosso bairro.

(Comentário meu: Primeiro, simplesmente dá um drible no fato lembrado por Claire Parnet de que os japoneses não são de esquerda. Prefere a blague à lógica que seria admitir que a percepção que considera um bom modelo abriga-se em uma cultura “de direita”, o que equivaleria a ter que concluir que tal visão, que tal forma de perceber o mundo não pertence ao campo da esquerda, ao menos não com exclusividade. Segundo, inicia aquele “discurso de miss” desejando a paz mundial, o fim da fome etc, mas sem explicar como fazer isto sem ser autoritário e violento – ou alguém imagina alguma solução de diálogo com o Estado Islâmico, com o Boko Haram ou outros malucos mundo afora? Mesmo em governos como o do Brasil: quem define o que? O pais a ser ajudado abre mão de sua autonomia? Se não abre, qual a garantia de que a ajuda chegará ao destino? O labirinto chega a ser palpável aqui).

Deleuze: É de fato uma questão de percepção. Não tem nada a ver com a boa alma. Para mim, ser de esquerda é isso.

E, segundo, ser de esquerda é ser ou devir* minoria. Não deixar o devir* minoritário.

A esquerda nunca é maioria enquanto esquerda por uma razão muito simples: a maioria é algo que supõe, até quando se vota, não é só a maior quantidade que se vota para tal coisa, mas a existência de um padrão.

(Comentário meu: mais um truque, mais uma negação da prática e da teoria de base da esquerda: a hegemonia nos corações e mentes.)

Deleuze: No ocidente, o padrão de qualquer maioria é: homem adulto, macho, cidadão. Ezra Pound e Joyce disseram coisas assim. O padrão é este. Portanto, irá obter maioria aquele que, em determinado momento, realizar este padrão. Ou seja, a imagem sensata do homem adulto, macho, cidadão. Mas posso dizer que a maioria nunca é alguém. É um padrão vazio. Só que muitas pessoas se reconhecem neste padrão vazio. Mas, em si, o padrão é vazio. O homem, macho etc.

As mulheres vão contar e intervir nesta maioria ou em minorias secundárias a partir de seu grupo relacionadas a este padrão. Mas ao lado disso, o que há? Há todos os devires que são minoria. As mulheres não adquiriram o ser mulher por natureza. Elas têm umdevir* mulher. Se elas têm um devir* mulher, os homens também o têm.

Falemos de devir* animal. As crianças também têm um devir* criança. Não são crianças por natureza. Todos os devires são minoritários.

Claire Parnet (Entrevistadora): Só os homens não têm um devir* homem.

Deleuze: Não, pois é um padrão majoritário.

Claire Parnet (Entrevistadora): É vazio.

Deleuze: O homem macho, adulto, não tem devir*. Pode devir* mulher e vira minoria.

A esquerda é o conjunto de processos de devir* minoritário. Eu afirmo: a maioria é ninguém e a minoria é todo mundo.

Ser de esquerda é isso: saber que a minoria é todo mundo e que é ai que acontece o fenômeno do devir*.

É por isso que todos os pensadores tiveram dúvidas em relação à democracia, dúvida sobre o que chamam de eleições. Mas são coisas bem conhecidas.

(Comentário quase maldoso: Se o homem macho não tem devir* por ser maioria e padrão, falar em devir* minoritário é redundância, um pleonasmo).

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CONCLUINDO

Me parece óbvio que Deleuze é mais um pensador que tem dificuldades em dizer “não sou de esquerda”. Tem dificuldade em aceitar que as teses que embasam a prática politica da esquerda são na verdade o oposto de suas teses.

O eixo central de seu pensamento e de sua produção é libertário e crítico dos padrões dominantes, todos eles. Defende o espaço da diferença, do desejo. E este é o ponto chave para compreender o que afirmo.

De todas as experiências humanas de organizações sociais complexas, ou, para sermos mais diretos, de todas as experiências de governos conhecidas, a única em que suas ideias podem ser (e de fato a única em que foram) acolhidas e vivenciadas é a democracia liberal em suas diversas formas. É nela que o espaço da reinvindicação existe de fato e traz resultados. É nela que direitos individuais (a menor minoria da terra) possuem força para confrontar o estado, que por ser democrático e de direito, tem freios e limites.

Deleuze é o que chamo de “direita envergonhada”, ou, parafraseando Safatle, “a direita que teme dizer o seu nome”.

Artigo de Paulo Falcão.

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Para entender melhor o conceito de devir*, segue o verbete do livro O VOCABULÁRIO DE DELEUZE, de François Zourabichvili.

Traduçao André Telles Rio de Janeiro 2004

*DEVIR [devenir] “Devir é nunca imitar, nem fazer como, nem se conformar a um modelo, seja de justiça ou de verdade. Não há um termo do qual se parta, nem um ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar. Tampouco dois termos intercambiantes. A pergunta ‘o que você devém?’ é particularmente estúpida. Pois à medida que alguém se transforma, aquilo em que ele se transforma muda tanto quanto ele próprio. Os devires não são fenômenos de imitação, nem de assimilação, mas de dupla captura, de evolução não paralela, de núpcias entre dois reinos.” (D, 8) * Devir é o conteúdo próprio do desejo (máquinas desejantes ou agenciamentos): desejar é passar por devires. Deleuze e Guattari enunciam isso no Anti-Edipo, mas só fazem disso um conceito específico a partir do Kafka. Acima de tudo, devir não é uma generalidade, não há devir em geral: não se poderia reduzir esse conceito, instrumento de uma clínica fina da existência concreta e sempre singular, à apreensão extática do mundo em seu universal escoamento – maravilha filosoficamente oca. Em segundo lugar, devir é uma realidade: os devires, longe de se assemelharem ao sonho ou ao imaginário, são a própria consistência do real (sobre este ponto, ver CRISTAL DE TEMPO). Convém, para compreendê-lo bem, considerar sua lógica: todo devir forma um “bloco”, em outras palavras, o encontro ou a relação de dois termos heterogêneos que se “desterritorializam” mutuamente. Não se abandona o que se é para devir outra coisa (imitação, identificação), mas uma outra forma de viver e de sentir assombra ou se envolve na nossa e a “faz fugir”. A relação mobiliza, portanto, quatro termos e não dois, divididos em séries heterogêneas entrelaçadas: x envolvendo y torna-se x’, ao passo que y tomado nessa relação com x torna-se y’. Deleuze e Guattari insistem constantemente na recíproca do processo e em sua assimetria: x não “se torna” y (por exemplo, animal) sem que y, por sua vez, venha a ser outra coisa (por exemplo, escrita ou música). Misturam-se aqui duas coisas que não devem ser confundidas: a) (caso geral) o termo encontrado é arrastado num devir-expressivo, correlato das intensidades novas (conteúdo) pelas quais passa o termo que encontra, em conformidade com as duas faces de todo agenciamento (cf. o tema “só se devém animal molecular”, MP, 337); b) (caso restrito) a possibilidade de que o termo encontrado seja por sua vez aquele que encontra, como nos casos de co-evolução, de maneira que um duplo devir aconteça de cada lado (cf. o exemplo da vespa e da orquídea, MP,17). O devir e, em suma, um dos pólos do agenciamento, aquele em que conteúdo e expressão tendem ao indiscernível na composição de uma “máquina abstrata” (daí a possibilidade de considerar não metafóricas formulações como: “escrever como um rato que agoniza”, MP, 293). ** Kafka e Mil platôs apresentam uma hierarquia dos devires. Essa hierarquia, não menos que a lista por ela organizada, só pode ser empírica, procedendo de uma avaliação imanente: animalidade, infância, feminilidade etc. não têm privilégio algum a priori, mas a análise constata que o desejo tende a investí-Ias mais que qualquer outro domínio. Não bastaria observar que elas são alteridades em relação ao modelo de identificação majoritária (homemadulto-macho etc.), pois não se propõem absolutamente como modelos alternativos, como formas ou códigos de substituição. Animalidade, infância, feminilidade valem por seu coeficiente de alteridade ou de desterritorialização absoluta, abrindo a um para-além da forma que não e o caos mas uma consistência dita “molecular”: então a percepção capta variações intensivas (composições de velocidade entre elementos informais) e não um recorte de formas (conjuntos “molares”), ao passo que a afectividade se emancipa de seus bordões e impasses habituais (ver LINHA DE FUGA). Tomemos o exemplo do animal: como tal, ele não e esse indivíduo domesticado e tornado familiar que pode ser acrescentado aos membros da família; inseparável de uma matilha mesmo virtual (um lobo, uma aranha quaisquer), ele só vale pelas intensidades, pelas singularidades e pelos dinamismos que apresenta. A relação imediata que temos com ele não e a relação com uma pessoa, com suas coordenadas identifica tórias e seus papéis; ela suspende o recorte dicotomico dos possíveis, o reconhecimento de formas e de funções. Todavia, a própria possibilidade de travar uma relação familiar com o animal, ou de lhe atribuir atributos mitológicos, indica um limite da relação com o animal do ponto de vista da desterritorialização (Kplm, 66-7; MP, 294). Entre os tipos de devires, o critério de seleção não pode ser senão um fim imanente: em que medida o devir, em cada caso, se quer a si mesmo? Devires-criança e devires-mulher parecem assim levar a mais longe do que os devires-animais, pois tendem para um terceiro grau onde o termo devir não e nem mesmo atribuível, para uma “assignificância” que não se presta mais ao menor reconhecimento ou à menor interpretação, e onde as perguntas “o que se passa?” “como vai isso?” assumem uma ascendência definitiva sobre “o que isso quer dizer?”: não a renúncia ao sentido, mas, ao contrário, sua produtividade, numa recusa da confusão sentido-significação e da distribuição sedentária das propriedades. Esse terceiro grau, embora não haja aí nem progressão dialética nem série fechada, chama-se “devir-intenso”, “devir-molecular”, “devir– imperceptível”, “devir-todo-mundo” (cf. Kplm, cap. 2 e 4; MP, platô 10).

Link para a íntegra do livro:

http://claudioulpiano.org.br.s87743.gridserver.com/wp-content/uploads/2010/05/deleuze-vocabulario-francois-zourabichvili1.pdf

Link para a entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=_Wer1VGBZi8

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