6-PAG01tratada REDUX

Janio de Freitas é um homem de coragem e grande firmeza ideológica, mas com princípios estranhos à democracia.

Sua coragem fica evidente todas as vezes em que abre mão de sua antiga reputação para defender causas indefensáveis. Indefensáveis para quem? Para qualquer um dotado de bom-senso e acesso à informação.

Observem que não perde a oportunidade de defender José Dirceu tanto no episódio do mensalão quanto no petróleo que o reconduziu à cadeia. Não há uma palavra de censura ao mago das consultorias.

Também constrói teses para justificar o tsunami de corrupção que afoga e imobiliza o Brasil sob gestão do PT e seus aliados. Despista. Relativiza. Para ele, corrupção é só a dos outros partidos. A realizada em nome de causas com as quais concorda é, ao que parece, justa e necessária. Ou nem é corrupção, é distribuição de renda.

Agora resolveu defender a democracia, algo em que comprovadamente não acredita. Como posso dizer isto? Simples: ninguém que tem a democracia como valor fundamental defende “listas negras” de jornalistas, como ele o fez quando o vice-presidente do PT, Alberto Cantalice publicou a sua.

O fato é que quando uma pessoa baseia sua opinião em princípios e não em ideologias ou oportunismos, fica mais fácil ser coerente. Para Janio de Freitas isto não é difícil: é impossível.

Peguem um artigo dele quando o PT defendeu o impeachment do Collor e veja que os mesmos argumentos que valiam lá, valem agora, mas não para ele.

Peguem um artigo dele quando o PT defendeu o impeachment de FHC e veja que os mesmos argumentos que valiam lá, valem agora, mas não para o velho ex-jornalista em atividade.

Do ponto de vista de princípios, se era politicamente legítimo com Collor e Fernando Henrique Cardoso o é com Dilma. É preciso torturar as palavras para justificar o contrário.

Já do ponto de vista ideológico, a coisa é diferente. É o que Janio demonstra a cada artigo: ao PT, tudo deve ser perdoado em nome da causa.

O artigo abaixo traz mais algumas pérolas do malabarismo ideológico que tem praticado e já começa com um truque barato quando diz: “Um dos componentes essenciais e inflexíveis da democracia é o respeito às regras que a instituem. As regras existem no Brasil, precisas e claras na Constituição, mas o respeito é negado onde e por quem mais deveria fortalecê-las. O que está sob ataque não é mandato algum, são as regras da democracia e, portanto, a própria democracia que se vinha construindo.”

Trata-se de uma denúncia forte, dura, que precisaria ser explicitada nos parágrafos seguintes. E teria sido se fosse verdade. Como não é, na sequência apenas apresenta acusações genéricas e, em tom pomposo, quer nos convencer que “pau que bate em Francisco não pode bater em Chico”.

É triste que seja assim, mas é o caminho que este senhor escolheu.

Segue a íntegra:

_________________________

Em nome da democracia

Por Janio de Freitas para a Folha de S. Paulo em 16/08/2015

“Isso é democracia”. Não é, não. Um dos componentes essenciais e inflexíveis da democracia é o respeito às regras que a instituem. As regras existem no Brasil, precisas e claras na Constituição, mas o respeito é negado onde e por quem mais deveria fortalecê-las. O que está sob ataque não é mandato algum, são as regras da democracia e, portanto, a própria democracia que se vinha construindo.

Não há disfarce capaz de encobrir o propósito difundido por falsos democratas instalados no Congresso e em meios de comunicação: reverter a decisão eleitoral para a Presidência sem respeitar as exigências e regras para tanto fixadas pela Constituição e pela democracia. Há mais de nove meses, a cada dia surge novo pretexto em busca de uma brecha –no Congresso, em um dos diferentes tribunais, nas ruas– na qual enfim prospere o intuito de derrubar o resultado eleitoral.

O regime democrático é tratado na Constituição como “cláusula pétrea”, que se pretende com solidez granítica. O que não significa ser impossível transgredi-lo. Mas significa que quem o faça ou tente fazê-lo comete crime. E quem o comete criminoso é de fato, haja ou não a condenação que assim o defina. Tal é a condição que muitos ostentam e outros tantos elaboram para si.

A pregação de parlamentares identificáveis como um núcleo de agitação e provocação atenta contra a democracia. A excitação de hostilidades que esses parlamentares propagam pelo país é indução de animosidade antidemocrática –sem que isso suscite reação alguma, o que é, por si mesmo, indício da precária condição da democracia e da Constituição.

O que se passa hoje na Câmara, como método e objetivos da atividade, não é próprio de Congresso de regime democrático. Em muitos sentidos, restaura a Câmara controlada e subserviente da ditadura. Em outros aspectos, assume presunções autoritárias, de típico teor antidemocrático, ao ameaçar até aprovações do Senado de punitivas suspensões da sua tramitação.

Afinal, um dos focos da corrupção é arrombado. Os procuradores e juízes do caso receberam tarefa de importância extraordinária. Mas não é garantido que estejam plenamente respeitados nessa tarefa os limites das regras democráticas. À parte condutas funcionais que não cabe considerar neste sobrevoo do momento do país, é notória no grupo, e dele difundida, uma incitação a ânimos não condizentes com investigações e justiça na democracia. Pôr-se como salvadores da pátria, a partir dos quais “o Brasil agora será outro”, não é só um equívoco da ingenuidade. É uma ameaça, senão já algumas práticas, de poderes e atitudes exacerbados que fogem às regras.

Um exemplo que recebeu tolerância incompatível com sua importância: difundir informações inverídicas e sensacionalistas à imprensa, e ao país, “para estimular mais informantes” –como feito e dito por um procurador–, não é ético nem democrático. É autopermissão abusiva. E incitação a ânimos públicos que já recebem das realidades circundantes o bastante para serem exaltados.

O espírito antidemocrático não é alheio nem ao Supremo Tribunal Federal. É nele que um juiz pode impedir a conclusão de um julgamento tão significativo como o financiamento das eleições dos governantes e congressistas. Ou seja, dos que determinam os destinos do país e de seus mais de 200 milhões habitantes. Se alguém achar que é deboche, não vale a pena contestar. Mas convém lembrar que é uma evidência perfeita da prepotência primária, apenas ilusoriamente culta, que sobreviveu muito bem à ruína do seu sistema escravocrata.

Movimentos de ocupações urbanas e rurais são acusados de violar a democracia. É engano. Ilegais, sim, mas não são democráticos nem antidemocráticos. Sequer estão incluídos na democracia, desprovidos que são, todos os padecentes de grandes desigualdades econômicas sociais, de meios democráticos para obter os direitos que a Constituição lhes destina.

E os jornais, a TV, as revistas, o rádio –na verdade, os jornalistas que os fazem– nesse país que concebe a democracia como uma bola, tanto a ser chutada sempre, como a oferecer grandes e efêmeras euforias? Agradeço à sogra de um jogador de futebol, Rosangela Lyra, que me dispensa de alguns desagrados. Disse ela, à Folha, das pequenas e iradas manifestações que organiza pela derrubada do resultado da eleição presidencial: “As redes sociais amplificam e a mídia quintuplica”. Entregou. Delação de dar inveja aos gatunos da Petrobras.

“Isso é democracia” como slogan de antidemocracia só indica que o Brasil ainda não é ou já não é democracia.

_____________________

RETOMO PARA CONCLUIR.

O ex-jornalista em atividade acusa como ilegítimo práticas de oposição que defendeu nos governos Collor e FHC. Todos os seus argumentos são demolidos por ele mesmo nos seus artigos daquele período, como acontece com Lula e as lideranças do PT que agitaram aqueles anos. É o que acontece com quem age por ideologia e não por princípios.

Para Janio de Freitas e a esquerda em geral, Democracia é apenas uma palavra a ser invocada ao sabor das conveniências.

Artigo de Paulo Falcão.

Anúncios