democracia

Vivemos dias estranhos.

Há um contingente importante e silencioso de pessoas desencantadas com a democracia.

São anônimos que levam suas vidas dançando conforme as circunstâncias, sem muita informação, sem muita perspectiva. São jovens indignados que nunca viveram fora da democracia e ignoram os perigos do arbítrio. São ainda alguns poucos saudosistas de um tempo imaginário e que não sofreram com a ditadura dos generais.

Há outro contingente, menor, mas muito barulhento, que sempre desprezou a democracia e agora anda sonhando em enterrá-la de vez. Desfilam solertes por este grupo nomes díspares como Vladimir Safatle e Lincoln Secco da USP, Guilherme Boulos do MTST, João Pedro Stedile do MST, Wagner Freitas, presidente da CUT e outros. Os dois últimos, aliás, já andaram insinuando partir para a luta armada caso o congresso vote o impeachment de Dilma (que foi legítimo para Collor mas seria um “golpe” agora).

É claro que Stedile e Freitas estão, na verdade, defendendo suas “boquinhas”, suas verbas, seus patrocínios, mas suas palavras, suas convocações, podem ter consequências sérias.

O Brasil tem uma Constituição legítima e tem uma presidente, deputados e senadores também legítimos. Podemos não gostar deles, mas são legítimos.

A constituição prevê alternativas para tratar com a crise, para cassar políticos e até para alterar a própria constituição. A tentação de mudar radicalmente “tudo isso que está aí” pode ser grande, mas é estúpida.

Qualquer iniciativa que não tenha previsão constitucional é, por definição, um golpe. Se você dá de ombros e diz que tudo bem, pense duas vezes: há riscos neste caminho, e não são pequenos.

Quem sonha com mudanças drásticas, à margem do estado democrático e de direito, é movido pela esperança de que seu sonho será o vencedor. O problema é, entre muito outros, que não há garantias sobre que ideia vencerá o embate na ausência do estado de direito.

Em 1964 a esquerda acreditou que o Brasil estaria maduro para uma revolução socialista e foi atropelada por um golpe de extrema-direita e uma ditadura militar de 30 anos. Imaginar que hoje os brasileiros seriam receptivos a um golpe de esquerda é, no mínimo, pouco inteligente.

Como resume o “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino sobre os enunciados de Platão, escritos há 2500 anos, a Democracia é considerada a menos boa das formas boas e a menos má das formas más de Governo: “Sob todo o aspecto é fraca e não traz nem muito benefício nem muito dano, se a compararmos com outras formas, porque nela estão pulverizados os poderes em pequenas frações, entre muitos. Por isso, de todas as formas legais, é esta a mais infeliz, enquanto que entre todas as que são contra a lei é a melhor. Se todas forem desenfreadas, é na Democracia que há mais vantagem para viver; por outro lado, se todas forem bem organizadas, é nela que há menor vantagem para viver.”

Ou seja, como na prática a teoria é sempre diferente, a democracia provou ser a melhor alternativa. E para deixar claro: “democracia”, a que existe, pode ser medida, estudada e melhorada, é a chamada democracia liberal ou representativa. O resto é conversa de lobo esperto.

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