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A VIOLÊNCIA, ŽIŽEK E A BUSCA DE UM SENTIDO.

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Chegou o dia em que quase concordei com Slavoj Žižek.

O texto abaixo traz uma reflexão interessante, que só não é inteiramente consistente porque em alguns momentos abandona a análise racional dos fatos para flertar com sonhos revolucionários. Mas é essencialmente bom. A frase final lança novamente o balão de ensaio da mudança radical, mas o próprio conjunto do texto indica que há outras alternativas.

Coincidentemente, traz também a matriz de onde Vladmir Safatle bebeu para produzir o texto que analisei no artigo anterior, só que no caso de Safatle, e resultado foi ruim do início ao fim.

Mas sigamos com  Žižek.

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Žižek: Violência policial e violência divina.

 

Em uma situação na qual a polícia deixa de ser vista como o agente da lei, protestos contra a ordem social predominante também tendem a tomar forma de uma explosiva “negatividade abstrata”, violência crua e desprovida de objetivo. Será que eles não seriam casos contemporâneos exemplares do que Walter Benjamin chamou de “violência divina”?

Por Slavoj Žižek, no Blog da Boitempo

Em agosto de 2014, uma onda de protestos violentos explodiu em Ferguson, um subúrbio de St. Louis nos EUA, depois que um policial matou a tiro um adolescente negro desarmado, supostamente suspeito de algum roubo. Ao longo de vários dias, a polícia se viu na tarefa de dispersar e reprimir manifestantes, em larga medida negros também. Ainda que os detalhes do incidente fossem incertos, a maioria da população da cidade, preta e pobre, tomou o acontecimento como mais uma prova da sistemática violência policial contra eles.

Nas favelas e nos guetos norte-americanos, a polícia efetivamente opera cada vez mais como uma força de ocupação – algo que ecoa mesmo a presença das tropas israelenses nos territórios palestinos na Margem Oeste. A própria mídia ficou estarrecida ao constatar que a polícia e o exército compartilhavam inclusive alguns dos mesmos armamentos. A questão é que mesmo quando ações policiais visam tão somente impor paz, disseminar ajuda humanitária, ou organizar medidas médicas, seu modus operandi é o de controle sobre uma população estrangeira.

Em uma matéria intitulada “A polícia nos EUA está se tornando ilegítima”, a revistaRolling Stone tirou a inevitável conclusão que se impôs após o incidente de Ferguson:

“Ninguém quer admitir ainda, mas depois de Ferguson, e especialmente depois do caso Eric Garner que explodiu em Nova Iorque após mais um não indiciamento de um policial que matou um civil mantido sob custódia, e ainda por uma infração menor, a polícia de repente se deparou com um problema de legitimidade neste país. Os recursos de execução penal [law enforcement] são agora distribuídos de maneira tão desigual, e a justiça está sendo administrada com tal inconsistência descarada, que pessoas em toda parte vão começar a questionar o princípio básico de autoridade política da lei.”

The police in America are becoming illegitimate”, Rolling Stone, Matt Taibbi, 5.12.2014

Em uma situação como essa – em que a polícia deixa de ser vista como o agente da lei, representando a ordem legal, mas simplesmente como mais um ator social violento –, os protestos contra a ordem social predominante também tendem a tomar uma guinada diferente: a de uma explosiva “negatividade abstrata” – isto é, num vocabulário mais pedestre: violência crua e desprovida de objetivo.

Quando Sigmund Freud, em Psicologia das massas e análise do eu, descreveu a “negatividade” inerente ao desatar dos laços sociais (Tânatos, em oposição a Eros), ele acabou jogando a totalidade das manifestações desse desatamento como sendo puro e simples fanatismo “espontâneo” das massas (e “espontâneo” aqui aparece em oposição a agrupamentos humanos construídos “artificialmente” como a Igreja e o Exército). Contra Freud, devemos insistir na ambiguidade desse movimento de desatamento: ele é um grau zero que abre o espaço para a intervenção política. Em outras palavras, esse desatamento é a condição pré-política da política, e, em relação a ela, toda intervenção política propriamente dita já vai “um passo mais além”, se comprometendo com um novo projeto (ou significante-mestre).

 

 

 “Mas eles não ferem os inocentes?”

Hoje esse assunto aparentemente abstrato volta a ser relevante: a energia de “desatamento” está em larga medida monopolizada pela Nova Direita (o movimento do Tea Party nos EUA, onde o Partido Republicano está cada vez mais dividido entre a Ordem e seu Desatamento). No entanto, aqui também, todo fascismo indica uma revolução fracassada, e a única forma de combater esse desatamento direitista seria com a esquerda levando a cabo seu próprio desatamento – e já temos sinais de coisas do tipo (as enormes manifestações por toda a Europa em 2010, da Grécia à França e o Reino Unido, onde protestos estudantis contra tarifas universitárias tornaram-se inesperadamente violentas).

Ao afirmar a ameaça de “negatividade abstrata” à ordem existente como sendo um traço permanente dela que nunca pode ser aufgehobenHegel se mostra mais materialista que o próprio Marx: em sua teoria da guerra (e da loucura), ele está ciente do retorno repetitivo da “negatividade abstrata” que violentamente rompe, desata elos sociais. Marx reata a violência no processo do qual uma Nova Ordem surge (a violência como a “parteira” de uma nova sociedade), enquanto em Hegel, o desatamento permanece não-suprassumido.

Mas será que essas manifestações violentas “irracionais” – isto é, desprovidas de demandas programáticas concretas e sustentadas tão somente por uma vaga reivindicação de justiça – será que elas não seriam justamente os casos contemporâneos exemplares do que Walter Benjamin chamou de “violência divina” (em oposição à “violência mítica”, i.e. a violência estatal fundadora da lei)? Elas são, como Benjamin colocou, meios sem fins, não fazem parte de uma estratégia de longo prazo. O contra-argumento imediato aqui é: mas essas manifestações violências não são muitas vezes injustas? Elas não ferem, por vezes, os inocentes?

Se quisermos evitar as explicações politicamente corretas forçadas segundo as quais as vítimas da violência divina devem humildemente ceder a ela em função de sua responsabilidade histórica genérica, a única solução é simplesmente aceitar o fato de que a violência divina é brutalmente injusta: ela é frequentemente algo aterrador, e não uma intervenção sublime de bondade e justiça divinas.

Um amigo meu progressista de esquerda, professor da Universidade de Chicago, me relatou sua triste experiência: quando seu filho chegou à idade do colegial, ele o matriculou numa escola ao norte do campus, perto de um gueto negro e com uma preponderância de estudantes negros. Em poucos dias seu filho passou a voltar para casa quase cotidianamente com feridas ou dentes quebrados… Mas, então: o que fazer? Transferir o filho para uma escola com predominância de jovens brancos ou mantê-lo nesta mesma? A questão é que este dilema está mal posto. O dilema não pode ser resolvido neste nível na medida em que a própria lacuna entre o interesse privado (a segurança de meu filho) e a justiça global é a evidência de uma situação que tem de ser superada por inteiro.

* Publicado originalmente em inglês no The European em 9.3.2015.
A tradução é de Artur Renzo, para o dossiê Violência policial: uso e abuso,do Blog da Boitempo.

 

Link para o artigo “Žižek: Violência policial e violência divina” na Boitempo:

http://blogdaboitempo.com.br/2015/08/07/zizek-violencia-policial-e-violencia-divina/

 

Link para o artigo VLADIMIR SAFATLE E A DEFESA DO GOLPE citado no início:

http://wp.me/p4alqY-fC

Aviso sobre comentários:

Comentários contra e a favor são bem vindos, mesmo que ácidos, desde que não contenham agressões gratuitas, meros xingamentos, racismos e outras variantes que desqualificam qualquer debatedor. Fundamentem suas opiniões e sejam bem-vindos.

 

 

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2 comentários em “A VIOLÊNCIA, ŽIŽEK E A BUSCA DE UM SENTIDO.

  1. Paulo, eu tenho acompanhado e pesquisado Zizek há algum tempo. Há um debate legal sobre ele, mas em inglês. Veja meu post:

    Slavoj Zizek, filósofo esloveno, está sendo acusado pela ativista Molly Klein, ligada ao Left Forum, nos Estados Unidos, de antissemita, dentre outras acusações.

    Klein, Jacob Levich e outros intelectuais levantaram o passado de Zizek na ex-Iugoslávia. Nos anos 80, ele era parte de um grupo dissidente dentro do partido “comunista” da Eslovênia. O jornal Tribuna, periódico oficial do partido, publicou, em 1988, o polêmico texto Protocolos dos Sábios de Sião, famosa falsificação antissemita que inspirou Hitler e que permanecia, desde 1934, inédito na Iugoslávia. Não apareceu outra justificativa para a publicação do texto, comprovadamente não escrito por sábios de Sião, a não ser a de estimular o antissemitismo. Segundo Klein, Zizek e seu grupo defenderam-se dizendo que aqueles judeus que conspiravam mundialmente, na verdade, eram uma metáfora dos “comunistas” iugoslavos. O texto seria, então, uma crítica ao governo e não um verdadeiro ato antissemita.

    Alguns episódios semelhantes, entre os quais um que Zizek conta, parecem ter consolidado o prestígio de Zizek como contestador do falso regime comunista da Iugoslávia, na verdade já em decomposição desde os anos 40. Um desses episódios Zizek mesmo conta, quando menciona que um grupo de estudantes fez um cartaz para um evento da juventude do partido, venceu a disputa e, a seguir, denunciou que tinha copiado o cartaz de um antigo cartaz nazista. Isso liga-se ao discurso que Zizek desenvolve até hoje: ele se diz “stalinista e fascista”, assim como aproxima os jacobinos e Hitler para chocar, vendo também “comunismo” no Anel dos Nibelungos de Wagner. Para Zizek, o problema com Hitler seria que ele “não foi violento bastante”. Para ele, violência seria “força para mudar as coisas”. Gandhi, nessa conceituação, seria mais violento do que Hitler.

    Segundo Klein, na verdade o projeto de Zizek não é comunista e sim anticomunista e pró-americano. Ele aparenta até mesmo ser “stalinista”, mas é uma farsa, evidentemente. Sua intenção é produzir confusão na esquerda. Seu grupo atual, segundo ela, pretende tornar as posturas reacionárias algo subversivo e chique, o máximo da contestação. Tanto que ele assevera em vídeo recente que o máximo do totalitarismo é o politicamente correto, numa posição em que converge com besteiras ditas por um Luiz Felipe Pondé, que associa politicamente correto e fascismo.

    Zizek –chamado ironicamente de Zizney segundo Molly Klein -continou sendo um dissidente influente e apoiou a banda Laibach quando ela passou a usar iconografia neonazista em suas apresentações. Igualmente, Laibach é o nome da cidade de Liubliana sob a invasão nazista. Zizek participou ativamente do movimento artístico Neue Skolovenski Kunst (nova arte eslovena, em alemão). Sua argumentação é que é preciso “sobreidentificar-se” ao sistema para combatê-lo, o caminho não seria o distanciamento crítico marxista. Segundo Klein, Levich e outros críticos, sua “superidentificação” seria com o nazismo, o reacionarismo, o racismo, a heteronormatividade, etc.

    Laibach é uma banda que faz declarações de esquerda, mas um de seus videoclipes, dos anos 90, é bem claramente antistalinista.

    Não há evidências de que Zizek tenha pessoalmente decidido a publicação do texto. No entanto, Klein observou que a fala de Zizek na eleição em que participou como candidato nos anos 90 traz uma fala muito semelhante ao texto dos Protocolos. Zizek, fazendo discurso anti-comunista no Partido Democrata Liberal, mencionava que “chega de ser objeto da fantasia dos outros, desses vampiros”. E a seguir associa os vampiros aos partisans, ou seja, aos falsos comunistas iugoslavos. Originalmente, porém, essa retórica servia para atacar os judeus, no contexto dos Protocolos dos Sábios de Sião. Igualmente, Zizek defendia privatizar mais abertamente do que fazia o falso governo comunista da Iugoslávia.

    Na revista Mladina, do partido Democrata Liberal, Zizek, nos anos 90, fez parte de um grupo que defendia supostamente os direitos humanos, mas na prática, advogou a secessão violenta da Iugoslávia. Essa secessão foi seguida de uma faxina étnica de muçulmanos, dentre outros casos de suicídio de pessoas de outras etnias. Zizek nunca mencionou isso. Lá, junto à sua esposa Renata Salecj, segundo Klein, o grupo elaborou uma argumentação para suscitar a invasão norte-americana em apoio da secessão iugoslava. Os eslovenos foram apresentados como os novos judeus e os nazistas seriam os sérvios.
    Recentemente, a acusação de antissemita foi rebatida por Zizek em artigo para o jornal The Guardian.

    • Questões Relevantes
      08/10/2015

      Lúcio, muito obrigado pela contribuição. Finalmente encontramos algo em comum: ambos consideramos Zizek um enganador.

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Publicado às 08/09/2015 por em Uncategorized e marcado , , , .
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