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Meu sobrinho João Paulo Falcão Queiroz publicou em seu Facebook um texto interessante sobre nós, brasileiros. E “nós” quer dizer eu, você, todos nós, esta mistura de cores, de origens, de histórias. Estudante de engenharia na USP, viu um outro ângulo do que Nelson Rodrigues resumiu genialmente ao dizer que o brasileiro sofria de complexo de vira-latas.

Resolvi republicar o texto neste blog porque gostei realmente do que li e porque retoma um tema que desenvolvi há algum tempo e ao qual volto no final.

“Nesses tempos de crise muito se propõe pra mudar o Brasil. Em geral, medidas que, quando não demagógicas, são pouco efetivas.

Mas por que não começar pelo começo?

Toda sociedade, comunidade, tribo ou nação têm uma origem, um marco zero da autoimagem. A isto se dá o nome de mito fundador, cujas características estão intrinsecamente ligadas à memória histórica de um povo.

Roma, por exemplo, tinha seu mito fundador encarnado por Remo e Rômulo; os EUA o têm na figura dos Peregrinos e dos Desbravadores (Self-made-man); o estado de São Paulo tem o seu nos Bandeirantes.

Os mitos fundadores não são obra do acaso histórico, mas sim uma escolha da memória coletiva para ser a pedra fundamental da sociedade que se constrói.

Os mitos fundadores não são obrigatoriamente perfeitos, não se referem a condutas irretocáveis e nem mesmo são sempre moralmente louváveis. Contudo, os mitos fundadores estão diretamente ligados à identidade do povo que neles se reconhece e marcam as suas virtudes, os vícios, a ética, a estética, a vida.

Ao escolher um mito fundador a sociedade escolhe reforçar um determinado conjunto de traços, escolhe lembrar esses traços e esquecer outros.

Nesse ponto voltamos ao Brasil e suas crises crônicas. O que esperar de um país cujos mitos fundadores são o Português explorador, o Índio preguiçoso e o Negro safado?

Evidentemente o problema não é nem o Português, nem o Índio, nem o Negro, mas os adjetivos que lhes atribuímos, sempre negativos, sempre reforçando estereótipos. Nosso mito fundador é Macunaíma. É a síntese de nossos defeitos, não de nossas virtudes. É a síntese não do que fomos, mas de quem e como queremos lembrar que fomos. Escolhemos o vício como traço cultural.

O Brasil só vai mudar quando “recomeçarmos o começo”, quando trocarmos a nossa pedra fundamental desgastada, quebrada, por outra sobre a qual conseguiremos edificar uma sociedade digna. Não se trata de mudar o passado, mas de aprender a reconhecer e valorizar nele as virtudes, que existem e são muitas.”

RETOMO PARA CONCLUIR

Por ocasião da morte de Eduardo Galeano, escrevi que “de todos os conceitos derivados de “As Veias Abertas da América Latina” o que teve maior penetração e causou mais estragos no continente foi o que podemos chamar de “a exterioridade da culpa” ou “coitadismo”. Isto significa que a culpa dos problemas da América Latina é externa e não interna. É dos outros e não nossa. Não são nossas escolhas cotidianas que nos afligem, mas as imposições de exploradores.”

No Brasil, somamos a esta desculpa eterna as características que o João Paulo destacou. O resultado não tem sido bom. Ou nos libertamos do determinismo auto infringido ou continuaremos contando os anos em fracassos e lamentações. É preciso entender que valorizar a malandragem e o “jeitinho brasileiro” é cultivar o vício e não a virtude.

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Link para o artigo sobre Eduardo Galeano: AQUI

Sugestão de artigo que dialoga com este:

DEMÉTRIO MAGNOLI NO PAÍS DA DELICADEZA PERDIDA.

Aviso sobre comentários: Comentários contra e a favor são bem vindos, mesmo que ácidos, desde que não contenham agressões gratuitas, meros xingamentos, racismos e outras variantes que desqualificam qualquer debatedor. Fundamentem suas opiniões e sejam bem-vindos.

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