etica

Certas afirmações, certas teses, são aceitáveis numa conversa de botequim, entre amigos. Nestas situações o único compromisso é com o prazer etílico, gastronômico ou antropológico.

A situação muda de figura quando falamos em público ou para o público, principalmente se à pessoa que emite opiniões e análises se atribui algum saber superior, uma intelectualidade que fundamente seu pensar e sustente suas opiniões. Nestas situações deveria haver um rigor para além de preferências sociais, políticas ou religiosas. Não se trata de cobrar opiniões ideologicamente neutras, o que é praticamente impossível e mais ainda quando o assunto é política, mas de se cobrar compromisso com os fatos e não com os desejos, com a história e não com mistificações, com a inteligência e não com a esperteza, com a ética e não com a vigarice intelectual.

Falo de pessoas com Janio de Freitas, profissional de comunicação empenhado em impingir a todos uma ética que nem é nova: a ética macunaímica, segundo a qual somos todos malandros. Todos ladrões. Assim, que mal há em que o PT também roube, principalmente se rouba para financiar seu projeto de poder?

E o pior: faz isto sem qualquer pudor, moral ou intelectual.

Em seu artigo na folha do dia 2 de abril último, o soldado Janio de Freitas escreveu dois parágrafos que são um mau plágio da piada segundo a qual, diante da magnitude dos roubos do PT, os crimes de Collor e Maluf seriam tratados no tribunal de pequenas causas. Reproduzo abaixo na íntegra:

OS COFRES

“O ex-senador Demóstenes Torres foi o único a pagar no caso em torno de Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira. Falou agora pela primeira vez, sobre vínculos político-financeiros entre Carlinhos e o senador Ronaldo Caiado. Mas poucos talvez saibam como Demóstenes sobre os porões éticos de Brasília. Com muitas provas, porque seu amigo Carlinhos não é amador, como ficou provado desde o “caso Waldomiro” e, depois, com as gravações “não identificadas” na Praça dos Três Poderes.

Se os dois abrirem mais a memória, a Lava Jato ficará reduzida a literatura infantil.”

RETOMO

Evidentemente esta pérola do relativismo moral foi reproduzida em dezenas de blogs de aluguel que fazem exatamente o que está previsto no comunicado da SECOM que vazou e resultou na queda de Thomas Traumann: “A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele.”

O que admiro em Janio de Freitas é seu desprendimento. Ele abriu mão de anos de credibilidade e boa reputação para ser garoto de recados de corruptos condenados. Defendeu e defende José Dirceu, o mago das consultorias, com fidelidade canina. Justificou e justifica todas a mentiras, mensalões e petrolões do PT com esmero. Agora, junta-se ao press-release oficial, ao discurso orquestrado, que busca colocar a todos, inclusive você e eu, no mesmo saco. Observe que a “notinha” não faz qualquer censura à roubalheira na Petrobrás e outras que surgem todo dia. Apenas as relativiza. Quase as justifica.

Sobre esta prática, reproduzo abaixo um artigo de Reinaldo Azevedo que trata de outros personagens que também cultivam o mau hábito de atropelar a ética:

“O leitor Rodrigo da Silva me envia um ótimo post, publicado no site Spotniks, intitulado “10 coisas que aprendi com os petistas na Internet”. Todas as sacadas são ótimas, mas a melhor é esta:
“5) Você não pode reclamar dos bilhões desviados pela corrupção porque fura fila na padaria”.

Essa é a ética profunda espalhada por aí por sedizentes intelectuais como Marilena Chaui e Renato Janine Ribeiro.

De forma deliberada, esses dois monstros do pensamento, em sentido estrito, pretendem nos tornar a todos sócios da roubalheira da Petrobras. E o fazem incutindo em nós sentimentos de culpa para que silenciemos diante dos descalabros.

O mecanismo é sutil, mas eficaz. No dia a dia, todos acabam cometendo pequenas falhas, não é? Não que estas sejam desejáveis ou não devam ser corrigidas. Mas é certo que, se você fizer uma ultrapassagem pela direita — E VOCÊ NÃO DEVE FAZÊ-LO —, não estará pronto para roubar a Petrobras. Caso, como ironiza Rodrigo, você fure a fila da padaria — E VOCÊ NÃO DEVE FAZÊ-LO —, isso não quer dizer que você tenha se candidatado a assaltar os pobres numa estatal ou num ente governamental.

Numa palestra recente a um grupo fechado, mas com vídeo na Internet, Janine elogiou uma peça da campanha eleitoral do PT, que viu como um emblema da hegemonia construída pelo partido: “Se você se incomoda ao ver um mendigo na rua, você é um pouco petista”, como se o petismo fosse o monopolista desse tipo de incômodo.

De maneira inversa, os janines e marilenas querem nos convencer de que os assaltantes dos cofres públicos nos representam. Afinal, também temos as nossas falhas… Assim, seríamos naturalmente petistas na generosidade e na sem-vergonhice.

Se é certo que devemos fazer coisas que, se generalizadas, tornam o mundo melhor — e esse é um bom fundamento da moral e da ética —, isso não implica uma permuta perfeita entre as esferas da vida pública e da vida privada. Trata-se de uma mentira, de uma pilantragem, desmentida pelos fatos.

Stálin tinha carinho pelas crianças. Pegava-as no colo, demonstrava preocupação genuína com elas. E depois mandava matar seus pais se isso fosse útil a seu projeto de poder. Já nem preciso lembrar que Hitler se preocupava com a preservação na natureza na década de 30 do século passado.

Você não deve furar fila na padaria. Você não deve fazer ultrapassagem pela direita. Você não deve desrespeitar regras elementares de convivência. Mas, se acontecer, saiba: ainda assim, você não roubou a Petrobras, não participou do conluio que ferra a vida dos pobres, não conduziu o Brasil à recessão, à inflação e aos juros estratosféricos.

Cumpre encerrar como um poeminha de Drummond, “Anedota Búlgara”, que vocês já conhecem, que trata justamente da distinção que existe entre as duas esferas de atuação: a pública e a privada.

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

Alguém dirá: o desejável é que não se cacem nem homens nem borboletas. Também acho. Desde que não se igualem homens a borboletas, em prejuízo dos homens, nem se considere que um caçador de borboletas será, necessariamente, um caçador de homens, ou que um amigo das borboletas será, necessariamente, um amigo dos homens.

A ética como a ensinam as marilenas e os janines faz mal aos homens e às borboletas e só serve à construção de um partido que se pretende dono do destino de borboletas e homens.”

RETOMO PARA CONCLUIR

É importante lembrarmos algo que, para mim, é fundamental: todos que cometem crimes, pertençam ou não a partidos políticos, devem ser investigados e punidos nos termos da lei. Mas apenas o PT justifica suas roubalheiras e eleva seus corruptos condenados à condição de “Heróis do povo brasileiro”. É a ética que Janios, Marilenas e Janines ajudam a disseminar.

Artigo de Paulo Falcão.

Link para o artigo de Janio de Freitas:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2015/04/1611499-o-poder-concentrado.shtml#_=_

Link para o artigo de Reinaldo Azevedo:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/de-homens-e-borboletas-ou-a-etica-perturbada-de-janines-e-marilenas-ou-ainda-os-petistas-querem-nos-tornar-a-todos-ladroes-da-petrobras/

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