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Vivemos um momento curioso: duas senhoras octogenárias, abrigadas na “reacionária” Globo, são elevadas à condição de inimigas públicas da família brasileira por conta de um singelo beijo. Um beijo maduro, que nada tem de erótico, que traduz antes um amor verdadeiro e dedicado.

A campanha intolerante que seguiu-se ao beijo, liderada por espertalhões como Silas Malafaia, Marco Feliciano e Edir Macedo, endossada por Jair Bolsonaro, é sem dúvida oportunista e obscurantista. São um manifesto de intolerância e estupidez. Mas são também um ponto de convergência como o pensamento sempre errado de Marx e Engels quando se trata de compreender a natureza humana e suas pulsões. Vejam que curioso:

“Desde os primórdios dos movimentos pelos direitos dos homossexuais na Europa que alguns activistas, como Karl Heinrich Ulrichs e Magnus Hirschfeld, se aproximaram da Esquerda em busca de apoio. Por volta da década de 1860, Ulrichs escreveu uma carta a Karl Marx, a que juntou alguns livros sobre a emancipação uraniana;6 Marx enviou em 1869 um dos livros que havia recebido a Engels. Este manifestou o seu repúdio em relação ao tema numa carta endereçada a Marx na qual censurava aqueles “pederastas” que são “contra-natura” e considerava a plataforma de Ulrichs pelos direitos dos homossexuais como “obscenidades transformadas em teoria“. Engels preocupava-se com a possibilidade de que a conquista de direitos pelos homossexuais colocasse heterossexuais, como Marx e ele próprio, numa situação delicada.7

O caso de Jean Baptista von Schweitzer, um importante sindicalista acusado de tentar manter relações sexuais com um adolescente num parque, em 1862, chegou ao conhecimento tanto de Marx quanto de Ulrichs. Embora afirmasse encarar pessoalmente a homossexualidade como algo sórdido, o líder social democrata Ferdinand Lassalle defendeu Schweitzer, argumentando que o movimento sindicalista não podia dispensar a sua liderança, e que as preferências sexuais de cada um “não têm absolutamente nada que ver com o seu caráter político8 Marx, por outro lado, sugeriu a Engels que utilizasse o incidente para manchar o nome de Schweitzer.9

Engels condenou a homossexualidade masculina na Grécia Antiga em duas passagens do seu livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado“, descrevendo-a como algo “moralmente deteriorado”, “abominável”, “repugnante” e “degradante”.10 Partilhando aparentemente da perspectiva de Engels, Marx escreveu que “a relação entre o homem e a mulher é a relação mais natural de ser humano com ser humano11 e descreveu Karl Boruttau, um autor de um texto que defendia as liberdades sexuais,12 como um “Schwanzschwulen” (“bichona desprezível” ou “veado desprezível”).13 De acordo com os escritores socialistas Hekma, Oosterhuis e Steakley, Marx e Engels encaravam qualquer forma de sexualidade fora do casamento monogâmico heterossexual como uma degeneração produzida pelo capitalismo e passível de cura pelo socialismo. De acordo com Engels, os “princípios morais naturais” floresceriam no futuro socialista, quando a “monogamia (heterossexual), ao invés de definhar, se transformaria em realidade – também para o homem14 – e a homossexualidade simplesmente desapareceria“.15

Como se vê, a diferença entre os famosos pensadores e os atuais picaretas é o possível agente da “cura gay”: para uns, a fé no socialismo; para outros, a fé que cobra pedágio.

Prefiro minha fé em Caetano Veloso e Milton Nascimento cantando os versos “Qualquer maneira de amor valerá” (ouça a música aqui).

No fim, preconceitos não são de esquerda nem de direita, são humanos. Não faz muito tempo casamento entre negros e brancos era um escândalo. Mulheres votando eram uma aspiração ridicula. Ser divorciado era motivo de vergonha. Já está na hora de reconhecermos o que é igualmente humano, ou seja, a sexualidade homoafetiva. Se você crê em Deus, aceite porque é obra Dele. Se não crê, aceite porque não há uma única razão lógica para não aceitar. Dar ouvidos a estes mercadores da fé e outros oportunistas é apenas sinal de que está se deixando levar por gente que não merece seu voto, seu dízimo ou sua atenção.

O link para a íntegra do texto citado acima está aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Socialismo_e_direitos_gays

Artigo de Paulo Falcão.

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