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Venho repetindo esta pergunta há algum tempo. Não há uma resposta fácil. O discurso atual sobre a questão islâmica vai do relativismo moral da esquerda (que os vê como aliados objetivos na luta contra as democracias liberais) ao fundamentalismo ocidental que praticamente prega uma nova cruzada. Evidentemente não há mérito ou bom-senso nestes extremismos, como não o há no extremismo islâmico. Em outro artigo lembrei que “as sociedades possuem histórias e desenvolvimentos díspares ao longo do tempo. Os árabes já foram superiores aos Europeus em tolerância, educação, matemática, engenharia, astronomia etc. Por conta da dominação Otomana, pararam no tempo. Já os países reconhecidos hoje como de Primeiro Mundo avançaram e construíram um código de valores civilizatórios que os faz críticos de suas próprias histórias.”

Agora encontro outra reflexão que me parece seguir trilha semelhante e de forma mais abrangente.

Intolerância Religiosa X Biblioteca de Alexandria.

Por Fernando Nogueira da Costa

Segundo Stephen Greenblatt, no livro A Virada: O Nascimento do Mundo Moderno, o destino da imensa quantidade de livros em pergaminhos é muito bem exemplificado pelo fim da maior das bibliotecas do mundo antigo, localizado em Alexandria, a capital do Egito e centro comercial do Mediterrâneo oriental. Em local conhecido como Museu, quase toda a herança cultural das culturas grega, latina, babilônia, egípcia e judaica tinha sido reunida a um custo enorme e cuidadosamente arquivada para pesquisa.

Já a partir de 300 a.C., os reis que governavam Alexandria atraíram os principais eruditos, cientistas e poetas a sua cidade oferecendo-lhes empregos vitalícios no Museu com boas remunerações, isenções fiscais, comida e alojamentos gratuitos e acesso aos recursos quase ilimitados da biblioteca. Estabeleceram padrões intelectuais elevadíssimos e possibilitaram grandes descobertas e invenções.

A biblioteca de Alexandria não estava associada a uma doutrina ou escola filosófica em particular. Seu objetivo era a busca intelectual em todos os seus aspectos. Ela representava um cosmopolitismo global, uma determinação em reunir o conhecimento acumulado de todo o mundo e de aperfeiçoar e acrescentar mais a esse conhecimento.

Em seu apogeu, o Museu continha pelo menos meio milhão de rolos de papiro sistematicamente organizados, etiquetados e armazenados segundo um novo e engenhoso sistema que seu primeiro diretor parece ter inventado: a ordem alfabética.

As forças que destruíram essa instituição nos ajudam a entender por que o manuscrito de Lucrécio — Da Natureza –, recuperado apenas em 1417, fosse a única coisa que restava de uma escola de pensamento – o epicurismo – que tinha sido debatida intensamente em livros (papiros).

O primeiro veio em consequência de uma guerra: parte do acervo da biblioteca – rolos que estavam em depósitos próximos do porto – foi queimada acidentalmente em 48 a.C., quando Júlio César lutava para manter o controle da cidade.

Mas havia ameaça maior que a ação militar: a intolerância religiosa. O Museu, como seu nome indica, era um templo dedicado às Musasas nove deusas que representavam as realizações da criatividade humana. Estava repleto de estátuas de deuses e deusas, altares e outros artefatos do culto pagão.

Os judeus e os cristãos que viviam em grandes números em Alexandria estavam incomodadíssimos com esse politeísmo. Não duvidavam que outros deuses existissem, mas achavam que esses deuses eram, sem exceção, demônios, ferrenhamente determinados a atrair a tola humanidade para longe da única e universal verdade: a sua crença. Consideravam todas as outras revelações e orações registradas naqueles milhares de rolos de papiros eram mentiras. A salvação repousava nas Escrituras.

Séculos de pluralismo religioso sob a égide do paganismo – três crenças vivendo lado a lado com espírito de tolerância sincrética – estavam chegando ao fim. No começo do século IV, o imperador romano Constantino começou o processo pelo qual o cristianismo tornou-se a religião oficial de Roma. Foi só uma questão de tempo antes que um sucessor fervoroso lançasse éditos que proibiam sacrifícios públicos e fechavam grandes locais de culto pagão. O Estado romano tinha dado início à destruição do paganismo.

Em Alexandria, o líder espiritual da comunidade cristã seguiu os éditos ao pé da letra. Litigioso e impiedoso, açulou hordas de fanáticos cristãos que saíam pelas ruas insultando os pagãos. Expondo os símbolos secretos dos “mistérios” pagãos ao ridículo público, mandou que os objetos religiosos fossem levados em desfile pelas ruas.

Pagãos religiosos insurgiram-se irritados. Enfurecidos, atacaram os cristãos com violência e então se recolheram atrás das portas trancadas do Museu. Armada de machados e marretas, uma turba igualmente alucinada de cristãos invadiu o templo, passou por cima de seus defensores e destruiu uma famosa estátua de mármore, marfim e ouro do deus Serapeon. Pior, o líder cristão ordenou que monges se instalassem nos templos pagãos, transformando-os em igrejas!

Alguns anos depois, Cirilo, o sobrinho sucessor do patriarca cristão, expandiu o escopo dos ataques, dirigindo sua ira religiosa dessa vez aos judeus. Exigiu a expulsão da grande população judia da cidade. O governador cristão moderado recusou e essa recusa foi apoiada pela elite intelectual pagã da cidade, cuja representante mais conhecida era a influente, lendariamente linda quando jovem, e imensamente culta Hipátia. Filha de um matemático, um dos famosos estudiosos residentes do Museu, havia ficado famosa por suas realizações em Astronomia, Música, Matemática e Filosofia.

As mulheres no mundo antigo muitas vezes tinham vidas reclusas, mas não ela. Na época dos primeiros ataques às imagens pagãs, ela e seus seguidores nitidamente se mantiveram distantes, dizendo a si mesmos talvez que a destruição de estátuas animadas deixava intacto o que era realmente importante. Mas com a agitação contra os judeus deve ter ficado claro que as chamas do fanatismo não iriam morrer.

O fato de Hipátia ter apoiado Orestes, governador de Alexandria, quando ele se recusou a expulsar a população judia da cidade, incitou a circulação de boatos de que seu profundo envolvimento com Astronomia, Matemática e Filosofia – tão estranho, afinal, por parte de uma mulher – era sinistro: ela devia ser uma bruxa, praticar magia negra!

Em março de 415, a multidão incitada arrancou Hipátia de sua carruagem e a levou para um templo que simbolizava a destruição do paganismo para dar lugar à “única e verdadeira fé”. Ali, depois de ter as roupas rasgadas, sua pela foi arrancada com cacos de cerâmica. A turba então arrastou seu cadáver para fora dos muros da cidade e o queimou. Seu líder “herói”, Cirilo, acabou canonizado pela Igreja Católica Apostólica Romana…

O assassinato de Hipátia significou mais do que o fim de uma pessoa notável. Ele efetivamente marcou o declínio da vida intelectual alexandrina. Foi o sinal da morte de toda a tradição intelectual pagã da Antiguidade. Nos anos seguintes, a biblioteca de Alexandria com toda sua cultura clássica, praticamente, deixou de ser mencionada.

No fim do século IV, os romanos tinham praticamente abandonado a leitura como atividade séria. Não foram responsáveis só os ataques dos bárbaros ou o fanatismo dos cristãos. Com a perda das âncoras culturais, o Império Romano lentamente desmoronava em uma decadência que levava a uma trivialidade vulgar. No lugar do filósofo, chamava-se o cantor, antecessor da “celebridade” de hoje…

Quando, depois de uma longa e lenta agonia, o Império Romano ocidental finalmente ruiu – o último imperador, Rômulo Augústulo, renunciou sem alarde em 476 (exatamente 1.300 anos antes do nascimento do futuro Império Norte-americano) –, as tribos germânicas que tomaram uma província depois da outra não tinham nenhuma tradição letrada. Como os conquistadores eram em sua grande maioria cristãos, aqueles dentre eles que haviam aprendido a ler e a escrever não tinham nenhum incentivo para estudar as obras de autores pagãos clássicos como os filósofos gregos.

A barbárie predominou devido à intolerância religiosa. Lutemos para que a essa dramática história não se repita!

RETOMO PARA CONCLUIR.

Se você já leu as “Mil e uma Noites”, principalmente a versão compilada e traduzida para o francês  pelo orientalista Antoine Galland em 1704 (a preferida de Jorge Luis Borges), é impossível não notar o quanto o curriculum da heroína Sherazade é inspirado em Hipátia. Esta observação é interessante na medida em que o livro, derivado da tradição oral de séculos, é fruto da cultura árabe/persa (muçulmana) e também uma reflexão sobre os efeitos nefastos da intolerância e do extremismo.

Quando olhamos para os enforcamentos de homossexuais e cristãos no Irã, por exemplo, que pode ser considerado moderado quando comparado ao Estado Islâmico, temos todo o direito de sentir repulsa e lutar por mudanças, mas não faz bem esquecer Billie Holiday emocionando os EUA ao dar voz ao poema/canção  “Strange Fruit” da década de 1930, que denunciava o enforcamento de negros, nem tão pouco a luta pelo direito a voto desta população, que só foi conquistado em 1965. Por que contraponho Irã e EUA? Simples: para lembrar que a racionalidade e a tolerância são construções/conquistas relativamente recentes. E não foram construções/conquistas fáceis.

Quanto à questão islâmica propriamente, já deveria ser claro para nós ocidentais que o conflito físico, a guerra, é sempre trágica e muitas vezes inútil, como parece ter sido o caso das invasões americanas no Iraque e no Afeganistão (para não falar do desastre liderado pela França na Líbia).

Me parece que o único caminho que faz sentido é ser intolerante com a intolerância. É preciso ações de inclusão e não de exclusão. É preciso convidar todas as lideranças Islâmicas que se declaram moderadas a reconhecer em alto e bom som o estado laico e o direito inequívoco de professar qualquer fé ou nenhuma fé. É fundamental que digam com todas as letras que nenhum desenho de mau gosto, nenhum verso satânico, nenhuma opinião contra Maomé, Alá ou o Islã justifica agressões, assassinatos, chibatadas ou explosões.

A repetição destas mensagens de tolerância, a reflexão sobre elas, a cobrança para que as palavras correspondam a ações concretas certamente trarão mudanças. Sem elas, o fino verniz civilizatório construído pelo ocidente, ou mais especificamente pelas democracias laicas liberais, irá quebrar-se e triunfará a barbárie.

Artigo de Paulo Falcão.

Artigo original no blog Cidadania & Cultrura:

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/02/14/intolerancia-religiosa-x-biblioteca-de-alexandria/

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