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A DESTRUIÇÃO CRIATIVA E A EMPATIA IMEDIATA.

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Logo na primeira vez que me deparei com o conceito de “destruição criadora” ou “destruição criativa” de Schumpeter compreendi a ideia. Ao me aprofundar no tema vi que a primeira impressão estava certa, talvez porque faça total sentido, talvez porque perpasse obras de outros autores que nos preparam para ele.

Agora me deparo com este excelente texto de Fernando Nogueira da Costa, escrito em 2012, que comenta a biografia de Joseph Schumpeter escrita por Thomas K. McCraw (Rio de Janeiro: Record, 2012. pp. 768).

Antes de apresentar o texto, acredito interessante fazer um esclarecimento. Não conheço o Fernando, apenas acompanho seu blog Cultura & Cidadania. Tenho pontos de convergência e de divergência com ele. Talvez Schumpter seja uma de nossas convergências, embora mesmo nesta convergência eu observe divergências. Mas é justamente desta tensão que emerge a força que nos transforma, que nos leva a colocar em prática a “destruição criativa” de nossos próprios conceitos e preconceitos. Nestes tempos de debates furiosos em blogs e facebooks, de baixa capacidade argumentativa e muitas agressões, penso ser salutar deixar claro que a divergência de ideias é natural e bem-vinda. Talvez seja exatamente esta minha certeza que me impeça de ver beleza ou esperança no marxismo que, para funcionar, precisa que a humanidade comungue os mesmos desejos e quereres, mas isto já é assunto para depois. Fiquemos com Fernado:

O Profeta da Inovação: Joseph Schumpeter e a Destruição Criativa.

“Schumpeter usou a expressão “destruição criativa” pela primeira vez em 1942, para se referir à maneira como os produtos e métodos capitalistas inovadores estão constantemente tomando o lugar dos antigos. “A destruição criativa é o fato essencial do capitalismo”, escreveu. “Capitalismo estabilizado é uma contradição em termos”.

O conceito de destruição criativa expressa duas ideias conflitantes, o que não chega a surpreender, pois Schumpeter era o exemplo acabado da inteligência capaz de sustentar duas ideias opostas na mente ao mesmo tempo, e ainda assim manter-se funcional. A adjetivação da Áustria “tecno-romântica”, onde nasceu, se aplica ao homem.

Ele gostava de se passar por aristocrata, embora fosse originário da classe média. Como jovem prodígio acadêmico, deixou a geração mais velha deslumbrada com os livros que escreveu na faixa dos vinte anos. A partir dos trinta, tornou-se ministro das Finanças da Áustria, reinventou-se como banqueiro, ganhou fortuna que perdeu com a quebra do mercado de ações. Depois de retornar à vida acadêmica, mudou-se para os Estados Unidos, passando a lecionar em Harvard. Teve de fazer conferências remuneradas para conseguir dinheiro para a viagem transatlântica.

Comportava-se como um homem do mundo e um bon-vivant. Considerava a autoconfiança como o componente mais valioso da prudência e gostava de dizer que pretendia tornar-se o maior economista, cavaleiro e amante do mundo. E vinha, então, a frase de efeito: “as coisas não iam bem com os cavalos”…

Seu trabalho intelectual se tornou uma verdadeira obsessão, como frequentemente acontece com homens de gênio. Não raro sustentava não apenas duas ideias opostas ao mesmo tempo, mas meia dúzia delas. Considerava que Karl Marx estava profundamente certo em muitas questões, mas errado em outras por causa de uma ideologia inflexível, aliás tal como John Maynard Keynes, seu contemporâneo. Diferentemente, ele próprio esperava tornar-se um cientista social isento de valorações, que se mantivesse puro e livre de vieses ideológicos em seu trabalho.

Sua própria visão era a profunda tensão analítica derivada do confronto entre o determinismo, por um lado, e a contingência, por outro. Quanto mais estudava diferentes sistemas econômicos, mais ele se convencia das incomparáveis vantagens do capitalismo em matéria de produtividade e crescimento.

Schumpeter sonhava com o desenvolvimento de uma “Economia exata”, uma ciência de rigor indisputável, como a Física, com uma capacidade definida de previsão. Considerava-se capaz de reconciliar os mais depurados modelos matemáticos de teoria abstrata com dados concretos colhidos no campo histórico e sociológico. Embora não tenha alcançado essa aspiração romântica, seu empenho no sentido de resolver os problemas da neutralidade valorativada precisão científica e da fidelidade à experiência histórica rendeu enormes dividendos em sua análise do capitalismo.

As questões essenciais, envolvendo o capitalismo, enfrentadas por autores da segunda metade do século XIX e primeira do XX, eram:

  1. o que vem a ser, e
  2. como e porque vinha funcionando em certos lugares e não em outros.

Schumpeter identificou o capitalismo como uma expressão de inovação, de luta humana e pura e simples destruição, tudo ao mesmo tempo. Ele descrevia o capitalismo como a maioria das pessoas o vivencia:

  1. desejos do consumo insuflados pelo constante martelar da propaganda;
  2. violentos solavancos para cima e para baixo na ordem social;
  3. metas alcançadas, destroçadas, revistas e novamente alcançadas, em infindável processo de tentativa e erro.

Para o capitalismo, e para o próprio Schumpeter, em caráter pessoal, nada podia ser considerado estável. O alvoroço era frequente.

Schumpeter considerava-se um conservador. Sabia que a destruição criativa fomenta o crescimento econômico, mas também solapa preciosos valores humanos. Entendia que a pobreza causa sofrimento, mas também a prosperidade não garante a paz de espírito.

Uma acentuada elevação do padrão de vida seria, provavelmente, uma conquista de supremo valor para qualquer sociedade. Mas o capitalismo tem uma terrível fama de espoliar os pobres em proveito dos ricos, e nunca foi capaz de alcançar uma distribuição de riqueza que a maioria pudesse considerar justa. Para a esquerda representa uma maldição a ser combatida e superada. Para a direita, é algo indigno que se pode aceitar, mas (não) propriamente celebrar.

Schumpeter investiu imensa energia na análise e explicação da inovação capitalista. O mecanismo econômico básico do capitalismo, segundo seu verbete escrito para a Enciclopédia Britânica, não é muito complicado: “Uma sociedade pode ser considerada capitalista quando confia seu processo econômico à orientação dos homens de negócio. Pode-se considerar que isto implica:

  1. em primeiro lugar, a propriedade privada dos meios de produção[…]
  2. em segundo, a produção para o lucro privado, ou seja, a produção pela iniciativa particular em proveito privado”.
  3. Ele acrescentava um terceiro elemento, “tão essencial para o funcionamento do sistema capitalista quanto os outros dois”, a criação do crédito.

No cerne do seu ethos, o capitalismo está sempre olhando para a frente e se escora no crédito para lançar novos empreendimentos.

Derivado da palavra latina credo – “Eu creio” -, o crédito representa uma aposta em futuro melhor. Os empreendedores e os consumidores que fazem essa aposta frequentemente pouco se importam com o passado e não têm muita paciência como o presente. Empreendem projetos inovadores e fazem compras que requerem recursos muito maiores do que os disponíveis. A alavancagem financeira da rentabilidade patrimonial é o segredo do negócio capitalista!

empreendedor, independentemente do porte da empresa em que atua, é o agente da inovação e da destruição criativa. Seus projetos produzem empregos, elevam rendas e resultam em progresso econômico geral. Ao liberar suas energias criativas, todavia, os empreendedores passam por cima dos antigos, destruindo suas fortunas. Mais cedo ou mais tarde, a maioria dos negócios fracassará, às vezes prejudicando comunidades inteiras, além dos indivíduos.

O capitalismo reduz as relações humanas a grosseiros cálculos pessoais de custo e benefício. Coloca os valores materiais acima dos espirituais, danifica o meio ambiente e mobiliza os aspectos mais sórdidos da natureza humana. Os negócios podem transformar tudo em objeto de lucro, incluindo os sete pecados capitais, com a possível exceção da preguiça. Porém, o capitalismo torna-se o equivalente econômico da famosa definição da democracia por Churchill: o pior sistema possível à parte todos os demais. Apesar de seus defeitos, só capitalismo tem sido capaz de fomentar as inovações científicas e as técnicas medicinais necessárias para elevar a humanidade acima do estado natural de vida animalesca e curta.

Dois dentre os maiores pensadores, Adam Smith e Karl Marx, chegaram a conclusões opostas. Smith (1723-1790) considerava a economia de mercado como um sistema quase ideal, ao passo que Marx (1818-1883) a condenava como uma pausa desagradável no inevitável caminho para o socialismoSchumpeter, tendo vivido em época (1883-1950) em que pode estudar o capitalismo em sua plena maturidade, superou os dois precursores mais famosos na sofisticação de suas análises.

capitalismo pode assumir formas muito diversas em ambientes diferentes. Podendo ser considerado não só um sistema econômico, mas também social e cultural, o capitalismo pode funcionar tanto para finalidades boas quanto ruins. Pode ser moralimoral ou – na maioria das vezes – amoral. Tudo depende do contexto, ou seja, da capacidade de determinado grupo ou Nação maximizar os componentes criativos e, simultaneamente, atenuar os efeitos colaterais do processo destrutivo.

Na geração de Schumpeter, muita gente liberal se formou com uma visão excessivamente otimista do capitalismo. Mas, na primeira metade do século XX, as guerras, as hiperinflações, as depressões, o totalitarismo e o genocídio serviram, para a esquerda, como confirmação do fracasso dos mercados e da superioridade do socialismo. Schumpeter observava a luta mortal dos sistemas econômicos e ideologias políticas pela supremacia. Via famílias e comunidades oscilarem constantemente entre a riqueza e a pobreza. Não tinha ilusões sobre o capitalismo, mas tampouco duvidava de seu próprio veredito: nesse sistema, a geração de riqueza econômica melhorava a vida do indivíduo comum de tal maneira que superava os efeitos negativos de longe.

No momento de maré alta do sentimento capitalista, Schumpeter defendeu que o processo capitalista eleva, progressivamente, o padrão de vida das massas. Mas o capitalismo não é o estado natural da vida humana. Se fosse, teria surgido muito antes na história e hoje prevaleceria praticamente em todo lugar. Trata-se de um sistema construído e mantido com dificuldade ímpar. O capitalismo moderno precisa ser ativamente cuidado e regulado, com sofisticação e determinação.

Schumpeter acreditava que o mundo só poderia beneficiar-se plenamente do capitalismo se as pessoas entendessem como ele funciona. Este é um dos motivos pelos quais passou tanto tempo tentando apreendê-lo e explicá-lo.”

 

RETOMO PARA CONCLUIR

Acredito importante aproveitar o gancho da última frase acima para esclarecer um ponto fundamental: se Shumpeter acreditava que o mundo só poderia beneficiar-se plenamente do capitalismo se as pessoas entendessem como ele funciona, deixou claro que ele funciona mesmo que a maioria das pessoas não tenham a mínima ideia de como isto se dá. De certa maneira, ecoa o poder do individualismo descrito por Adam Smith sintetizado no artigo “Teoria das Gavetas” deste blog da seguinte maneira:

“Em sua obra, defende que o liberalismo econômico se caracteriza pela organização da economia com base no individualismo, compreendido aqui como o resultado da iniciativa econômica individual em ocorrência múltipla, como os galos tecendo a manhã no poema do comunista João Cabral de Melo Neto. Tais ações/iniciativas levam a uma total descentralização das decisões econômicas, que se atomizam no maior número possível de indivíduos com a menor interferência possível de instituições ou organizações coletivas. É nesta soma de capacidades individuais, de busca da prosperidade e desenvolvimento econômico ocorrendo simultaneamente em diversas áreas e direções que residiria a capacidade de gerar riquezas.”

Isto se opõe de forma cabal às teses de Marx que, para funcionarem, exigem altíssima “consciência de classe” e pleno entendimento de como funciona o socialismo/comunismo. No limite prático e teórico, exige a eliminação de toda a divergência nos desejos individuais. Como tal uníssono nos desejos vai contra a natureza humana, entra em cena a coerção como método de “adestramento social”. Sintetizei o fracasso teórico e prático das teses marxistas em outro artigo deste blog da seguinte maneira:

“A história da esquerda é a história do sofrimento que impingiu a sua própria gente em nome do bem. Não há exceção conhecida. Não há exemplo edificante. Apontar pontos positivos é possível, mas todos eles ocorreram e ocorrem sob a condução de governos autoritários e ou totalitários. Não estamos falando de governos de esquerda em regimes de democracia liberal, evidentemente. Estamos falando de governos de esquerda que conseguem avançar sobre a democracia liberal.”

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

Artigo original de Fernando Nogueira Costa:

O PROFETA DA INOVAÇÃO: JOSEPH SCHUMPETER E A DESTRUIÇÃO CRIATIVA

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2012/12/23/o-profeta-da-inovacao-joseph-schumpeter-e-a-destruicao-criativa-2/

 

 

Outros artigos citados:

ESQUERDA x DIREITA: A TEORIA DAS GAVETAS OU COMO NÃO CHAMAR URUBU DE “MEU LÔRO”.
http://goo.gl/jJ5uFC

 

NA ENCRUZILHADA, COM O DEMÔNIO DA ECONOMIA.

http://goo.gl/wXckF7

 

Aviso sobre comentários:

Comentários contra e a favor são bem vindos, mesmo que ácidos, desde que não contenham agressões gratuitas, meros xingamentos, racismos e outras variantes que desqualificam qualquer debatedor. Fundamentem suas opiniões e sejam bem-vindos.

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10 comentários em “A DESTRUIÇÃO CRIATIVA E A EMPATIA IMEDIATA.

  1. Marcelo Brasil
    10/10/2016

    Nessa comunidade falei pouco sobre economia. E nas comunidades em geral briga entre direita x esquerda, normalmente uma briga meio burra, fica focada nos refugos da Mont Pelerin Society (leiam-se austríacos e chicagos) x marxismo tradicional e, as vezes, algo do keynesianismo. O problema é que o keynesianismo não é uma escola de esquerda. Mas os caras enfiam no saco.

    Schupeter, na minha opinião, era pessoalmente um babaca e banana que teorizou algo interessante. Só que a coisa não veio dele sozinho. O cara compilou coisas da época, coisas que inclusive existem em Marx, como as crises do capitalismo e o conceito da incerteza e soltou o que chamou de ‘destruição criativa’. Um termo muito interessante para uma pessoa desinteressante.

    Marx também não criou a tese das sucessivas crises do capitalismo. Isso vem da dialética hegeliana do 2 que gera 1, o famoso tripé. E isso é metafísica mesclada com taoísmo. E ainda estou pesquisando, mas foi Feuerbach o cara que falou do excesso de informações – e daí necessito pesquisar mais para sacar.

    Marx percebeu que o capitalismo funciona sozinho, ele se auto-organiza (sabemos hoje). E que os capitalistas são meros gestores. Ninguém tem controle sobre o mesmo. Se colocarmos a dialética metafísica hegeliana nisso, podemos pensar que vai passar por sucessivas crises autônomas. Por obedecer por sucessivas mutações – termos taoístas.

    Mais tarde, Keynes vai falar da incerteza e vai tentar domá-la. A incerteza era o mesmo que Marx dizia quanto as crises do capitalismo. E, Schupeter vai dizer que essas crises são fundamentais para o sistema. Daí a destruição criativa e o empreendedorismo.

    Para sacar melhor o motivo disso, entram caras como Allan Turing (ele mesmo, o decodificador da Enigma e o da máquina com o nome dele). E o que foi com o tempo sendo percebido e quebrou mais uma vez a questão do mundos das esferas de cristal aristotélicas e do mundo geométrico perfeito euclidiano. E isso foi ligado ao advento da matemática do Caos e dos sistemas complexos.

    Trocando em miúdos, para quem conhece a matéria, a economia é de fato um fractal. Devido ao excesso de informações, que hoje são gigantescas na economia mundial, não é possível controle. A economia se auto-organiza como uma forma de inteligência artificial.

    A turma do neoliberalismo (chicagos, pinochets e etc) é muito focara na micro-economia. E existem professores na FEA-USP que até defendem o fim do ensino da macro-economia. Pois a micro é fácil de se estudar – e controlar. Uma empresa organizada tem todas as informações na mão. Pois os sistemas computacionais são capazes de segurar os cálculos. A economia do Brasil entra dentro dos parâmetros do Caos. Pois é impossível determinar todas as flutuações. A falência de um mercado da esquina da periferia de uma capital do Nordeste – como se diz na matemática do Caos – pode derrubar a economia do Japão.

    E mesmo na micro, do que se sabe na matemática do Caos, as flutuações são geradas até mesmo nas equações mais simples. Em sistemas computacionais, existe um nível de imprevisibilidade – ou de Caos. Daí que alguém pode perder o sistema operacional não por um bug do sistema, mas pela flutuação de uma equação.

    • Questões Relevantes
      10/10/2016

      Marcelo, seu comentário é interessante de diversas maneiras, mas me atrevo a fazer uma síntese radical de tudo que disse: no fim, prevalece a tese da eficiência do livre mercado em se auto regular, pois só ele pode abarcar as incertezas, a oferta, a procura e o caos. Se Marx compreendeu isto, não lhe parece estranho que tenha apostado suas fichas na economia planificada? Mais do que isto: sua tese mata as iniciativas individuais que asseguram inovação e superação ao livre mercado.

      • Marcelo Brasil
        10/11/2016

        O que Marx disse é que o capitalismo existe de forma autônoma, mesmo no socialismo, o estágio intermediário para o comunismo. Daí que se compreende que países socialistas são capitalistas. Porém, capitalistas de estado. Ao contrário do outro sistema, que são capitalistas de mercado. Para Marx, o capitalismo só desaparece no comunismo. Como nenhum país entrou e jamais vai entrar nesse estágio, o capitalismo não vai desaparecer. Não nesse modelo.

        Assim, repetindo o que coloquei acima, tanto os capitalistas de mercado, como os capitalistas de estado, são meros gestores. Pois o capitalismo se auto-organiza.

        Marx não criou a economia planificada. Ele fez um amplo diagnóstico do capitalismo tão somente. Quem planificou a economia foi a URSS. Os famosos planos quinquenais.

        Assim como toda a empresa DEVE se planejar, todo o Estado também deve. Daí que depois que a URSS planificou a economia, os estados (socialistas ou não) mais organizados seguiram e começaram a planejar as suas ações. É o mínimo que se espera. Pode ver, no Brasil os caras não fazem idéia do que vão fazer em 2 anos, dada a zona que é o governo daqui. Não importa qual partido que esteja por lá.

        No caso de um capitalismo de estado – ou socialismo, é o governo quem toma o papel da inovação. Sinal de que os governos socialistas não eram bons gestores da economia. E qual é o motivo disso? Não é pelo socialismo ser ou não um padrão ineficiente de gestão, como o pessoal dito liberal atualmente fala. Como não estudaram a URSS bem e não tentaram compreender o motivo de sua queda, não entendem a diferença com o que a China conseguiu fazer, que a está projetando como talvez a próxima potência mundial hegemônica. E pode ver, a China permanece dizendo que é socialista.

        A URSS teve um problema crônico ligado a uma burocracia altamente corrupta, onde existia o capitalismo de estado e ao mesmo tempo um complexo mercado negro que sugava os recursos do estado. Além disso, o clima de guerra e os planos de dominação mundial, faziam com que a URSS investisse a maioria dos seus recursos unicamente na indústria bélica. Esses problemas tornaram a URSS um estado anacrônico. E diversas crises políticas internas, ligadas na burocracia corrupta focada no mercado negro, minaram o poder central.

        Vários críticos apontam em Marx três erros:

        1. A dialética histórica, dado que é um componente metafísico.
        2. O materialismo histórico, que despreza o indivíduo como agente. Ou seja, a sociedade é quem molda o indivíduo e não o contrário.
        3. O famoso esquema de valoração da mercadoria, que é um rolo de compreender. E ninguém usa em lugar nenhum.

        Pode ver, economistas ditos neoclássicos tem uma fé inelutável na pseudo-lei da oferta e da procura. Só que a lei não é 100% aplicável. Formação de preços não segue exatamente esse padrão. Se formos em um super-mercado hoje, é visível que os preços estão aumentando continuamente. E como tudo está mais caro, todos compram menos. Se todos compram menos, os preços deveriam cair.

        Sabe quando vão cair? No Brasil? Nunca.

        Aqui o tal empresariado é muito tosco e acha que compensa perdas aumentando preços. Claro que aí entra o que Marx diz, sobre a mais valia, que ele realmente acertou em cheio.

        Quem também aposta em aumentar os ganhos é sempre o governo. Pode ver, lá veio a tal da PEC de controle de gastos. Mas baixar impostos ninguém aqui nem fala. E já já volta a porra do imposto sobre transações bancárias.

        E para onde vai tanto dinheiro? Cortam gastos, aumentam impostos e o governo está eternamente devendo.

        Há também outro componente, que indica que a economia não é controlável. Hoje, o dinheiro não existe mais fisicamente. Existe apenas em sistemas computacionais. Se alguém tem R$ 1000,00, esse dinheiro está em algum HD de um datacenter de algum banco, sei lá onde. São meros bytes. E sistemas computacionais também são enormes fractais. Daí temos fractais organizando fractais.

        Assim, essa crise atual do Brasil, que é reflexo de uma crise mundial, não tem causas em governo algum. E governo algum que ali estivesse iria segurar a crise. Pois governos organizados e supostamente desenvolvidos estão tendo problemas para segurar a barra. Aqui é a zona, não importa quem lá esteja. Daí que estamos e sempre estivemos à mercê de qualquer crise.

        Como a economia é autônoma, crises vem e vão. Independentes dos empreendedores. O empreendedorismo é apenas um elemento renovador de mercado. E aqui no Brasil são poucos que apostam nisso. Em focar suas atividades no investimento. Empresários no Brasil, dado a desorganização do país, preferem deixar o dinheiro aplicado, do que empreender. E ninguém entra no famoso ‘espírito animal’ do Keynes, em manter o nível de investimento da economia.

        Portanto, o Brasil vive de commodities e de investidores estrangeiros.

      • Questões Relevantes
        10/11/2016

        Marcelo, suas ponderações teóricas levantam questões interessantes, mas me parece que trazem alguns equívocos também.

        O capitalismo não é o verdadeiro antagonista da obra de Marx, mas sim o binômio liberalismo econômico e democracia representativa. O capitalismo pode funcionar bem em ditaduras de direita e esquerda, como a China, mas o liberalismo econômico não.

        Quanto à formação de preços não seguir exatamente a lei da oferta e da procura, é preciso fazer uma diferenciação importante. A formação DO CUSTOS independe a lei da oferta e procura do produto final, mas a DOS PREÇOS sim. A soma de todos os custos para a produção de um produto devem ser menores que o preço que o mercado está disposto a pagar, o que garante lucro e sustentabilidade, mas frequentemente ocorrem situações em que os preços de um determinado produto caem, por redução da demanda, mas os custos até aumentam, por redução da escala.
        Em setores competitivos, como os supermercados, há oscilações de preços todos os dias, para mais e para menos. Entendo bastante deste setor e acompanho de perto esta variação, que não é pequena. A variação do preço para mais é uma exigência do eventual aumento do custo de aquisição do item. A variação para baixo é uma exigência da disputa pelo consumidor.

        Sua visão do empresário brasileiro também está muito influenciada por preconceitos. Existem sim alguns muito ricos e capitalizados que vivem de especulação, mas a grande maioria está diariamente no mercado, correndo riscos, sejam agricultores, comerciantes, do setor de serviços ou indústria. Ter uma empresa no Brasil é uma aventura diária.

        Por último, a crise brasileira não tem muita relação com fatores externos, embora a queda do preço das commodities tenha contribuído. Ela foi fruto de erros grosseiros, de escolhas intempestivas e muita incompetência. Não foi, inclusive, por falta de aviso. Todo mundo que entende um mínimo de economia e de administração avisou, em centenas de artigos.

      • Marcelo Brasil
        10/12/2016

        Vou começar a resposta falando sobre um autor que escreveu um livro para “usuários finais” de psi pós-junguiana, chamado Robert Bly. Ele destaca muito a ação das figuras paternas, não só do pai biológico da pessoa. Essas figuras, que conferem para o homem complementos ou outras formas masculinas mais velhas (ou espelhos do Sênex), são chamados de “mentores”. Existem as mentoras, mas esse é um assunto vasto e fora do tema dessa resposta.

        Tive vários mentores. Um deles foi um dos meus primeiros empregadores e um cara que passou muito do conhecimento que teve na FGV e da pós na FEA dele. E foi o cara que me convenceu a parar com a cisma que tinha de fazer Economia na mesma FEA e fiz outra coisa na área, ligada a minha facilidade com coisas técnicas. Das conversas que tive com esse cara, acabei tendo uma base sobre ADM e economia bastante diversificada, ainda muito novo.

        Isso aqui não é uma entrevista de emprego, claro. Mas tenho mais de 25 anos de consultoria e a cada ano entro em cerca de 5 a 10 empresas. No final da década de 90 ainda tinha um boa idéia do total de empresas que havia prestado serviço. Uns 5 anos depois perdi a conta. E já entrei em todo o tipo de empresas. Principalmente em indústrias, comércio de todo o tipo, serviços de todos os tipos e bancos também.

        Sei bem como é o mecanismo formador de custos de produtos, principalmente industriais, dos mais diversos tipos. Assim como sei bem como é o esquema de markup, tanto em indústria e comercio. E como é em serviços, normalmente sem lá muita lógica. Portanto, tentei escrever as coisas acima de forma bem simples, sem entrar em critérios técnicos – pois sou eu o cara quem monta os demonstrativos de custos, de preços e do que vc contratar.

        Daí que, ouço desde criança o mesmo que vc escreveu. Repetem, repetem, repetem, repetem, repetem, repetem. É uma forma de hipnotismo. O que vejo normalmente em textos por aí parece ter sido escrito na redação do Jornal da Globo. Quando estava na universidade, procurava entender a pseudo-críptica linguagem de jornalistas, sobre Economia. A princípio, parecia algo bem foda. Depois me foi parecendo literalmente burra.

        Tenho um problema pessoal muito chato de que me canso. Quando repetem muito algo, esse algo me irrita. No final dos 90 a cara do Leonardo de Caprio me deixava com vontade de cuspir na foto dele. E se puderem não citar o Ayrton Senna, eu agradeço. E não aguento mais o Lula choramingando. Nem os malvadões de direita dizendo que agora sim o comunismo maldito acabou.

        Então, é o seguinte: essa repetição abusiva das ‘leis do mercado’, do ‘livre mercado’, da ‘lei da oferta e da procura’ e etc, etc, etc, causaram-me uma sartreana náusea. O que fiz, veja bem, foi olhar com desconfiança e procurar alternativas (normalmente sou desconfiado de tudo, principalmente de gente). Tudo que é repetitivo e dito como uma verdade certa, com fundo e motivo ideológico, é suspeito. O mesmo me ocorreu após de ficar alguns anos ouvindo as ladainhas da esquerda. São ambas formas muito enferrujadas, morosas, caquéticas, que não explicam mais as mudanças de uma sociedade em rede, globalizada (de uma globalização feita nas coxas) e da informação e velocidade.

        Estou procurando alternativas em estudos de ponta, que sejam mais interessantes e que tenham respostas menos caquéticas. Essas respostas não estão em empresas, pois a média administração é sempre pouco informada e quer mais saber de futebol. E a alta administração não se interessa por isso, alguns se acham o supra-sumo do universo por serem empresários, outro querem mais é sair na revista caras, a maioria é gente que funciona no automático. É por isso que digo que o empresariado daqui é fraco, pois não sai da ciranda repetitiva da reclamação sistêmica que parece vir da redação do Jornal da Globo. Não que esse jornal seja lá o que hipnotiza as pessoas. Mas apenas reflete e dá voz ao seu público, que é em si repetitivo.

        E o que vejo de diferente dentro do empresariado, pela necessidade pessoal das pessoas envolvidas, é o esquema de empreendedorismo, pois esse é um pessoal que tem inovação nas veias. Só que não são exatamente caras teóricos, pois como disse um amigo meu, o modelo de empreendedorismo é de 2005. O problema foi a solução dele, que é típica dos caras daqui, ao invés de um modelo de 2005, é retornar ao esquema tradicional no estilo de Harvard e FIA.

        Esse é problema da turma daqui. Prefere a segurança e se engessa em modelos clássicos, pois os acha efetivos. E acham que estão sendo modernos. Não é bem assim, estamos entrando na indústria 2.0 e esse modelo já está ficando ultrapassado. E se o modelo de empreendedorismo usado em determinadas ORGs é de 2005, o esquema é atualizar o esquema e aumentar o giro. Ou ocorre o problema do BREXIT, a esquerda e a direita britânica, ambas conservadoras e engessadas, tentam tirar a Inglaterra do giro da UE.

        É por isso que citei a matemática do Caos, os sistemas complexos, IA, fractais e etc, ligados em economia. Tem outros estudos que já pesquisei. Mas a multiplicidade de assuntos que estudo ainda não me deixaram em focar nisso. Até pq estou com alguns projetos até o início do ano que vem, que estão foda e estou sem tempo para nada. Nem para tocar comunidades.

      • Questões Relevantes
        10/12/2016

        Há uma entrevista do Roberto Campos no Roda Viva em que ele aborda um ponto que dialoga bem com suas ponderações. Ele diz que em um “concurso para ser empresário” ele daria uma surra no Amador Aguiar ou no Sebastião Camargo, mas que na vida prática eram eles que tinham o “instinto”, a vocação natural para empreender. Ou seja: a formação certamente ajuda, mas a capacidade para empreender seria inata.

  2. Dê exemplo de governo de esquerda que avançou sobre a democracia liberal.

    Seu discurso é todo construído assim, com abstrações. A Síria e a Somália seriam exemplo de destruição criativa?

    • Questões Relevantes
      10/10/2016

      Lúcio, Venezuela, Equador, Nicarágua e Bolívia são exemplos em processo. No Brasil, o PT tentou algumas vezes, mas foi barrado, principalmente pela gritaria da imprensa.

      Quanto à Síria e Somália, sua pergunta indica que não entendeu o básico do conceito.

  3. Marcos Toni
    01/31/2015

    Filosofia pura, isto. No entanto, me custa acreditar que há esse valor filosófico, nada subjetivo no que diz respeito à arte, no ato de empreender do cidadão. Acho que perdi um pouco da visão que tinha sobre, do quão fantástico pode ser o ato do inventor, do criado, mediante crédito bancário ou não, em sua casa, solitário, ou em busca de apoio no mercado. Penso, por fim, no interesse pelo lucro, pelo dinheiro, não que não haja importância no prazer

    • Questões Relevantes
      01/31/2015

      Marcos Toni, o conceito de Schumpeter foi idealizado para descrever a capacidade do capitalismo em se reinventar, em novos processos tornarem obsoletos métodos tradicionais, em novas tecnologias fazerem o dinheiro mudar de mãos. É uma derivação do conceito de Adam Smith das múltiplas iniciativas individuais e simultâneas que movem a economia.

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