xuxa blog - brasil 1 (6)

Há alguns anos me mostraram um vídeo de um programa do Raul Gil em que havia um concurso de crianças dançando a música “Na boquinha da garrafa”. Aquilo era um espetáculo de populismo e ignorância que acontecia com uma naturalidade inquietante. De lá para cá, evidentemente, as coisas só pioraram.

É preciso ter clareza: a epidemia de crianças e adolescentes grávidas no Brasil é fruto direto desta banalização do erotismo grosseiro que começou com a Xuxa de maiô e biquínis em programas infantis na antiga TV Manchete (na Globo ela já chegou de shortinho) e continuou em coreografias de axé, pagode e funk cada vez mais explícitas.

O problema não está em que alguém goste destas músicas, ou que as cante ou as componha, mas certamente há problemas quando pais não vêm mal nenhum em expor suas crianças a elas. E sejamos justos: este não é um problema restrito à população que teve pouco acesso à educação mas uma praga democraticamente distribuída, como reforça o artigo abaixo, de Rita Lisauskas no Estadão, com o título:

“PAREM DE TOCAR ANITTA NAS FESTAS DE CRIANÇAS. APENAS PAREM.

“Um dia desses fui com o meu filho em um buffet infantil para festa de uma amiguinha. A música que anunciou que a pista de dança estava aberta para os pequenos foi: “Prepara. Que agora. É hora. Do show das poderosas. Que descem. Rebolam. Afrontam as fogosas. Só as que incomodam. Expulsam as invejosas. Que ficam de cara. Quando toca”. “Show das Poderosas”, da funkeira Anitta.

Festinha do dia das crianças do condomínio ao lado de onde moro, ano passado. Vejo um “pula­pula” sendo montado logo cedo. Escorregador inflável. Avisto um palhaço. Mas sabe como soube que a festa finalmente tinha começado, horas depois? “Se não tá mais à vontade, sai por onde entrei. Quando começo a dançar eu te enlouqueço, eu sei. Meu exército é pesado, a gente tem poder. Ameaça coisas do tipo você.”

E comecei a pensar de onde as pessoas tiraram a ideia de que essa música tem alguma relação, mesmo que remota, com o universo infantil. E quero deixar claro que não tenho nada contra a Anitta. Mesmo. Acho que ela tem seu valor, que “Show das Poderosas” deve ser uma música ótima para dançar na balada. Mas não consigo entender como ouvir “descem, rebolam, afrontam as fogosas” pode ajudar na formação ou no vocabulário do meu filho ou de alguma criança deste mundo.

Mas voltemos à festa no buffet para que justiça seja feita, afinal, não foi só a música da Anitta que apareceu por lá . Logo começou uma “gemeção”: “Nossa. Nossa. Assim você me mata. Ai, se eu te pego. Ai, se eu te pego. Delícia. Delícia. Assim você me mata. Ai se eu te pego, ai, ai…”

Gosto muito do Michel Teló. Inclusive já o entrevistei uma vez. Ele faz sucesso no mundo todo, do Brasil à Romênia. Fez com que gente que nunca tinha falado uma palavra de português começasse a cantar na nossa língua. Samuca logo quis saber do que se tratava aquela letra quando assistiu ao clipe de “Ai se eu te pego” no Youtube – a música, patrocinada, aparecia sempre antes do desenho favorito dele.

Expliquei, num susto, que o “ai se eu te pego” era sobre brincar de pega­pega. E me senti esperta. Só que na festa eu estava alerta e com medo de não ser tão rápida no gatilho se viesse uma próxima pergunta. Por isso logo tirei meu filho de lá com um argumento infalível: “vamos comer um brigadeiro?”. Dito e feito. “Mulheres na frente, os homens atrás. Mão na cabeça que vai começar. O rebolation, tion o rebolation, o rebolation, tion, rebolation”.

Claro que esse tipo de música não toca em todos os buffets infantis. Claro que a grande maioria de mães e pais tem cuidado na hora de escolher o que os filhos podem e devem escutar quando o assunto é música. Ainda bem.

Aposto que vão chover e­mails dizendo que “não podemos colocar nossos filhos em uma redoma de vidro”. Ou que “essas músicas tocam na rádio o dia inteiro, não há como evitar que eles ouçam” ou que “isso é questão de gosto” e até coisas mais pesadas: “Nossa, Rita, como você é preconceituosa! Funk é um movimento cultural e musical e… ” e blá blá blá.

Só acho mais legal que meu filho saiba que “com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo”. Ou que queira “pegar carona nessa cauda de cometa, ver a via láctea, estrada tão bonita. Brincar de esconde­esconde numa nebulosa. Voltar para a casa, nosso lindo balão azul!”

Muito anos 80? Pode ser.

A letra da música preferida de Samuca, menino fabricado em 2009/modelo 2010, é essa: “Acordei com o pé esquerdo. Calcei meu pé de pato. Chutei o pé da cama. Botei o pé na estrada. Deu um pé de vento. Caiu um pé d’água. Enfiei o pé na lama. Perdi o pé de apoio.

Agarrei num pé de planta. Despenquei com pé descalço. Tomei pé da situação. Tava tudo em pé de guerra. Tudo em pé de guerra”.

Ontem começou uma chuvona dessas que caem todo fim de tarde em São Paulo. E Samuca comenta comigo, todo feliz e sabido. “Que pé d´água, né, mamãe?”

PS: Obrigada, Palavra Cantada – Sandra Peres e Paulo Tatit – pela graça alcançada.”

Link para o artigo original: http://goo.gl/GzOUVI

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