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Este artigo é a segunda parte de um debate entre este livre-pensador e a socióloga Simone Wolff, pós-doutorada em Londres, que foi lá estudar justamente o neoliberalismo. Na primeira parte, o assunto foi o “inimigo ideal da esquerda” Jair Bolsonaro e a redução da maiordidade penal. Aqui, o foco é justamente o tal neoliberalismo.

O artigo anterior termina quando faço a seguinte afirmação, cintando o DICIONÁRIO DE POLÍTICA, de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino no verbete DEMOCRACIA: (…) “a única forma de Democracia compatível com o Estado liberal, isto é, com o Estado que reconhece e garante alguns direitos fundamentais, como são os direitos de liberdade de pensamento, de religião, de imprensa, de reunião, etc, é a Democracia representativa ou parlamentar”.

Ou seja, o que você chama de direitos humanos é considerado uma conquista da democracia liberal, que inclui a social democracia. Não há tais direitos em governos que avançam na agenda da esquerda.

A socióloga aproveita e muda o foco do debate que seguiu assim:

Socióloga: Outro truísmo é que o liberalismo é melhor do que o absolutismo despótico feudal, Paulo. Muito embora este regime não tenha alterado no conteúdo a extrema miséria e desigualdade social daquela época, apenas a sua forma. (…) Agora, achar que é certo criminalizar e por crianças na cadeia ao invés de na escola é uó, mesmo. Não vai ter eufemismo que me faça enxergar de outro modo esta questão. Para mim, é algo tão bárbaro quanto a pena de morte. Que imagino que você seja a favor, né…

Paulo: Desculpe, você me apresentou suas credenciais de pós-doutorada, mas sua argumentação aqui está muito fraquinha. Não há na história da humanidade maior redução das desigualdades, maior elevação da qualidade de vida e maior conquista de direitos que a ocorrida nas democracias liberais no século XX. Quanto à redução da maior idade penal, há vários exemplos a serem estudados. O meu preferido é o inglês. Mas sua argumentação me remeteu a um artigo que escrevi há algum tempo e que elenca este tipo de argumentação que você está tentando aplicar no debate comigo: ESQUERDA x DIREITA: A TEORIA DAS GAVETAS OU COMO NÃO CHAMAR URUBU DE “MEU LORO”…

Socióloga:  “Não há na história da humanidade maior redução das desigualdades, maior elevação da qualidade de vida e maior conquista de direitos que a ocorrida nas democracias liberais no século XX”. Mostre dados que comprovem esta informação, please.

Paulo: Basta ver alguns índices históricos nestes países, como expectativa de vida, acesso à saúde e educação, renda média, renda mínima, gastos com turismo, etc. Isto é, para usar sua linguagem, um truísmo estatístico.

Socióloga: Estou falando de DESIGUALDADE Paulo. Em nível mundial. Pare de olhar apenas para os países ricos, como se a riqueza deles não tivesse nada a ver com a pobreza dos outros. Eu não sou evolucionista sou dialética. A Folha de São Paulo publicou um artigo recente afirmando que o patrimônio dos 85 mais ricos é igual ao da metade da população mundial.

Paulo: Sobre esta questão da desigualdade, há um famoso debate da Margareth Thatcher no parlamento inglês em que ela responde que à esquerda não interessa se houve uma elevação importante na renda das classes mais baixas, mas apenas se houve aumento ou diminuição na desigualdade, concluindo que a esquerda prefere rebaixar a renda de todos se a desigualdade for reduzida, do que aumentar a renda de todos se a desigualdade aumentar. É um vício de quem não compreende como a riqueza é gerada.

Quanto ao seu olhar “dialético”, o ponto é o seguinte: 100% dos países de partido único são ditaduras, e os de esquerda estão quebrados (exceto a China, com seu Capitalismo de Estado). 100% dos países que se aprofundaram na democracia liberal estão melhores hoje (em indicadores socioeconômicos e IDH) do que eram há 100 ou 70 ou 50 anos. São dados irrefutáveis.

Socióloga: (…) “à esquerda não interessa se houve uma elevação importante na renda das classes mais baixas, mas apenas se houve aumento ou diminuição na desigualdade, concluindo que a esquerda prefere rebaixar a renda de todos se a desigualdade for reduzida, do que aumentar a renda de todos se a desigualdade aumentar”.

Sim, sim, sem dúvida eu não me importo de ver a minha renda reduzida se a desigualdade também for reduzida. Sem dúvida.

“É um vício de quem não compreende como a riqueza é gerada”.

E você sabe como a riqueza é gerada? E, sobretudo, por quem é gerada? Ou acha que se não houver mais capitalistas amanhã a capacidade do ser humano de transformar a natureza também vai desaparecer?

Sinceramente, alguém que é fã da Thatcher e acha que ela não é ideológica está a anos luz de distância, e sem um mínimo de convergência não há o que debater. Estamos em lados totalmente opostos. Para mim, depois da Thatcher, só Hitler e Mussolini (….). Não estou com pique para ler nada que venha da cartilha neoliberal. Já basta ter que viver e estudar suas consequências sociais nefastas mundo afora.

Paulo: Sabemos que estamos em lados opostos e discordamos em quase tudo. (…). Quanto à notícia da Folha de S. Paulo, trata-se apenas da reafirmação da crítica que reproduzi acima sobre a esquerda preferir rebaixar a renda de todos se a desigualdade for reduzida, do que aumentar a renda de todos se a desigualdade aumentar.

Socióloga: Ah, sim. Abaixo a desigualdade, sempre! Bandeira básica para qualquer socióloga, seja de esquerda seja de direita.

Outra coisa, esse negócio de aumentar a renda de todos e a desigualdade aumentar é uma contradição de termos. Não há lógica nesta equação. Você poderia desenhar para ver se eu consigo entender?

Paulo: É simples: na situação 1, a base da pirâmide ganha U$ 2,00 e o topo da pirâmide ganha U$ 6,00 por exemplo. Ou seja, o topo ganha 3 vezes mais.

Na situação 2, a base da pirâmide ganha U$ 3,00 e o topo U$ 30,00, ou 10 vezes mais. Neste segundo caso, a desigualdade aumentou, mas a renda da base da pirâmide é 50% maior que a observada na situação 1. E teria melhorado mesmo que a desigualdade fosse de 30 ou 50 vezes mais se o valor da base fosse igual ou superior a U$ 3,00.

É óbvio que a situação 2 é melhor para a base da pirâmide do que a situação 1. Isto não significa que não seja desejável trabalhar para que a base perceba aumento de renda e diminuição da desigualdade, mas significa, claramente, que o aumento da desigualdade não é um mal em si. Quando ocorre em momentos de recessão, costuma prejudicar a base da pirâmide, mas quando ocorre em situações normais ou de crescimento, quase sempre a base da pirâmide se beneficia, ou seja, tem aumento real de renda.

Socióloga: Hummm. …. e o que seria uma situação normal? Pelas minhas leituras, o “normal” hoje é uma crise estrutural. Não estamos falando de números, estamos falando de seres humanos, muitos em situação análoga à escravidão. Ou seja, fora da base da pirâmide social.

God! Como a direita é fria e calculista! Você já assistiu Roger and me, O corte, ou Trabalho interno? Não, vou morrer utópica, mas não vou aceitar esta realidade nunca. Afinal, o que nos diferencia de outros animais é justamente a nossa capacidade de mudar o nosso meio.

Ter gente que tem torneira de ouro no seu lavabo enquanto tem muitas morrendo de fome é desumano. Justificar esta realidade é hediondo. E, se você gosta tanto da Inglaterra, deve conhecer sua história e saber que tudo começou com os enclousures. Um termo eufemista para designar o roubo de terras comunais. A espoliação da natureza e, com isto, dos meios de vida da maioria por uma minoria armada e que se achava melhor e por isso que merecia ter mais. Antes, por achar que tinha um pacto com o divino. Hoje porque se acham mais empreendedores quando a maioria desta minoria vive de especulação financeira. Tenho muito nojo desta mentalidade moralista meritocrática. E eu já tive este tipo de mentalidade. Tenho muita vergonha dessa época….

Paulo: Você está confundindo semáforo com liquidificador. O mundo não é justo, mas é menos injusto hoje do que já foi, e o é graças às liberdades civis dentro das democracias liberais.

Como disse em um dos artigos que você preferiu não ler, “Nos termos em que o estado liberal funcionava na época (do manifesto comunista), eu também seria “de esquerda”, também defenderia que “tudo precisa mudar”. Mas é justamente este o ponto: o capitalismo e o estado liberal mudaram, e muito. Neste período, assistimos o que Schumpeter chamou de a “destruição criadora” do capitalismo reciclando suas bases e incorporando demandas sociais as mais diversas. O capitalismo e o estado liberal que temos hoje são semelhantes em essência (preservam a liberdade individual de empreender e a propriedade privada dos meios de produção) e absolutamente diferentes na regulação das condições de trabalho, direitos trabalhistas, acesso a serviços básicos como saúde e educação etc.”

Outra coisa, o elemento mais essencial para garantir emprego, renda e impostos chama-se LUCRO. É o lucro que torna empresas sustentáveis. É o lucro que permite pagar salários e impostos de maneira continuada. Quando se estimula o lucro, a atividade econômica aumenta e emprego e renda crescem. Quando o lucro cai, emprego e renda declinam.

Para contextualizar, vamos falar do Brasil. Você ataca o “governo neoliberal” do FHC” e defende o governo do PT. Pois bem. Com a implantação do Plano real e sua boa gestão, o Brasil conseguiu acabar com o “confisco inflacionário” que empobrece o trabalhador e favorece o empregador (privado e público). Isto de saída. Tomando o salário mínimo como indicador, nos oito anos de governo FHC o salário mínimo teve valorização real (descontada a inflação, pelo IPCA), de 85,04%; nos mesmos oito anos de Lula foi 98,32%; já nos quatro anos de Dilma, apenas 15,44%.

Sabe por que isto aconteceu? A resposta não vai lhe agradar, mas é a explicação correta: o Plano Real, com o fim da inflação, propiciou uma melhora na renda e no consumo das famílias e interrompeu o período de estagnação da economia brasileira, iniciando um período de crescimento. Houve tropeços, principalmente no final do segundo mandato do FHC, quando ficou claro que Lula venceria a eleição. “Percebendo que havia um clima de pânico nos mercados por medo da agenda histórica do partido, com forte alta do dólar (beliscou os R$ 4,00), inflação acelerando e economia parando, Palocci lançou a famosa “Carta aos Brasileiros”, Lula nomeou o ex-presidente mundial do Banco de Boston como presidente do Banco Central e o próprio Palocci como ministro da fazenda. Mais do que isso, rasgou os panfletos petistas e adotou a agenda do PSDB. Os mercados se acalmaram e ele pode fazer um bom governo.

Mas sabem como é, velhos hábitos são difíceis de serem abandonados. Desde a metade do segundo mandato de Lula, como disse o ex-ministro Nelson Jobim, os idiotas perderam a modéstia e passaram a acreditar que podiam inventar a roda quadrada. O país entrou na descendente e se viu novamente em estado de alerta, agora por conta da vitória de um projeto de poder movido a rompantes, com a gestão voluntariosa e pouco profissional do governo e dos fundamentos da boa governança econômica.

Se Dilma abandonar a cartilha do PT e colocar gente que o mercado reconheça como competente à frente da economia, tudo vai se acalmar. Se insistir nos imodestos companheiros e neste script para o desastre, a vida dos brasileiros será cada vez mais um inferno. O demônio da economia não aceita desaforos por muito tempo.” (Trecho de outro artigo que você não leu, publicado dia 4 de novembro de 2014).

Parece que Dilma percebeu o buraco em que estava metendo a economia brasileira. Falta a esquerda também perceber.

Socióloga: Bem, PT não é esquerda, né… Mas, era a opção mais próxima disto que tínhamos no momento. E que o lucro se exploda, sabe. Pois se amanhã o lucro desaparecer a sociedade sobrevive. Mas, se acontecer o mesmo com o trabalho a sociedade desaparece. Então, creio que a sua equação está de ponta cabeça. Quem desenvolve é o trabalho, não o capital, que só se apropria da riqueza social e socializa as crises, como o seu comentário acima descreveu tão bem.

Paulo: Seu raciocínio nega a realidade e abraça a esperança. O nome disso é religião.

Socióloga: Não. O nome disto é utopia. Você tem coragem de negar que a sociedade sobrevive sem capital? Olha, que o nome disto é fetiche, hein……

Paulo: Pequenas sociedades, como tribos, sobrevivem sem capital. Na medida em que as sociedades crescem e se tornam mais complexas, entram em cenas relações de troca, comércio etc e a diferenciação na produção e acumulação de riqueza. Não há sociedade complexa que não tenha vivido esta história.

Socióloga: Veja que absurdo alguém que não consegue pensar que outra sociedade é possível! Nem que seja para fazer a imaginação funcionar e, assim, praticar algo que só o ser humano tem.

Paulo: É possível pensar diferentes modelos, mas para que eles tenham chance de sucesso, precisam respeitar a realidade. A esquerda imagina que rasgando a lei da gravidade todo mundo vira passarinho e sai voando por ai. Não é assim.

Aliás, desmontei todas as suas ponderações com exemplos e argumentos lógicos. Agora o debate chegou naquele ponto em que você declara-se vencedora porque ousa sonhar com um mundo melhor. O problema com seu sonho é que, até hoje, onde foi tentado, resultou na produção de mortos em escala industrial entre a própria população.

Socióloga: E a direita acha que quem não sabe da existência da lei da gravidade se pular de um prédio de 30 andares voa. By the way, você acredita ou não que existe direita e esquerda? Tá confuso….

A direita trouxe o holocausto, o tráfico humano e a miséria em meio ao luxo de poucos. E, pior, a justificação e naturalização deste estado de coisas. Quer atrocidades maiores do que estas????

Aliás, é ideológico falar que houve comunismo quando sabemos que só foi mais um modo de acumulação primitiva. Alguém tem que mostrar a sujeira. Que a esquerda exista só para exercer esta função (para recorrer à perspectiva funcionalista que você abraça), já está valendo. Ficar sem crítica é que não dá. Sou ousada e abusada mesmo.

Paulo: A direita existe e atende pelo nome de democracia, ou para ser mais preciso, democracia representativa, o que inclui a social-democracia. A extrema-direita também existe, mas ela não tem a democracia como valor fundamental. Quanto à esquerda, também existe, mas a diferença entre esquerda e extrema-esquerda não é de conteúdo, apenas de método para chegar lá, e nenhuma das duas têm a democracia como valor fundamental.

Socióloga: Aí você falou uma barbaridade, hein!…. Democracia sem igualdade é uma palavra vazia. Ideologia das mais toscas.

Paulo: (é chato ter que repetir para uma socióloga que) Uso o conceito do DICIONÁRIO POLÍTICO de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino. E acrescento mais uma citação:

“A história da esquerda é a história do sofrimento que impingiu a sua própria gente em nome do bem. Não há exceção conhecida. Não há exemplo edificante. Apontar pontos positivos é possível, mas todos eles ocorreram e ocorrem sob a condução de governos autoritários e ou totalitários. Não estamos falando de governos de esquerda em regimes de democracia liberal, evidentemente. Estamos falando de governos de esquerda que conseguem avançar sobre a democracia liberal.

Nos modelos revolucionários, como China e Cuba, para ficarmos nos remanescentes mais conhecidos, a agenda é semelhante à da esquerda que atua dentro das democracias. A diferença é apenas de método na tomada de poder e de grau na implantação dos objetivos. Os revolucionários pregam o confronto direto e imediato. Os moderados, pregam a conquista do poder pelo voto e a implosão do sistema através de seu enfraquecimento deliberado.”

Socióloga: Eu sou revolucionária!

FINALIZANDO

A importância deste debate está menos no que afirmo do que na evidente dificuldade em lidar com lógica elementar apresentada por esta legítima representante da esquerda em nossas universidades. Se você acha que é exagero, que é um caso isolado, leia o que estes ideólogos andam escrevendo e falando por ai. Se não quiser ir muito longe, dê uma olhada na área de comentários do artigo anterior e veja com seus próprios olhos até onde vai a loucura.

Artigo de Paulo Falcão.

PS – Incorporo aqui a dica de meu amigo Marcus Vinicius: uma reflexão de Milton Friedman, prestigiado economista prêmio Nobel, que responde a uma pergunta sobre ganância e capitalismo e acaba dando uma aula a respeito de pobreza e liberdade de mercado. http://goo.gl/eFMi8B

Artigos citados:

DEMOCRACIA DIRETA:BOA INTENÇÃO LIBERTÁRIA OU LIBERTICIDA?

http://goo.gl/aWOBMa

DILMA, A LEI DA GRAVIDADE E O EFEITO ORLOFF.

http://goo.gl/Vup7EH

NA ENCRUZILHADA, COM O DEMÔNIO DA ECONOMIA.

http://goo.gl/wXckF7

ESQUERDA x DIREITA: A TEORIA DAS GAVETAS OU COMO NÃO CHAMAR URUBU DE “MEU LÔRO”.

http://goo.gl/jJ5uFC

A ESQUERDA E OS CAMINHOS QUE SE BIFURCAM.

http://goo.gl/bQL5kY

DO SOCIALISMO AO COMUNISMO: UMA QUESTÃO DE FÉ.

http://goo.gl/7lMstJ

Aviso sobre comentários: Comentários contra e a favor são bem vindos, mesmo que ácidos, desde que não contenham agressões gratuitas, meros xingamentos, racismos e outras variantes que desqualificam qualquer debatedor. Fundamentem suas opiniões e sejam bem-vindos.

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