Storm A história da esquerda é a história do sofrimento que impingiu a sua própria gente em nome do bem. Não há exceção conhecida. Não há exemplo edificante. Apontar pontos positivos é possível, mas todos eles ocorreram e ocorrem sob a condução de governos autoritários e ou totalitários. Não estamos falando de governos de esquerda em regimes de democracia liberal, evidentemente. Estamos falando de governos de esquerda que conseguem avançar sobre a democracia liberal.

Nos modelos revolucionários, como China e Cuba, para ficarmos nos remanescentes mais conhecidos, a agenda é semelhante à da esquerda que atua dentro das democracias. A diferença é apenas de método na tomada de poder e de grau na implantação dos objetivos. Os revolucionários pregam o confronto direto e imediato. Os moderados, pregam a conquista do poder pelo voto e a implosão do sistema através de seu enfraquecimento deliberado.

Este último método tem várias facetas. A mais conhecida foi idealizada por Antonio Gramsci e atende pelo nome de “revolução cultural” (a esquerda é assim, inventa nomes bonitos para coisas que são seu oposto).

O Brasil, podem ter certeza, está longe de sofrer “um golpe comunista”, apesar da estridência de figuras como João Pedro Stédile, Guilherme Bouros ou Luciana Genro (para ficarmos em poucos exemplos) que por vezes causam a impressão de que o apocalipse está próximo. O risco real é outro: a gradual conversão da racionalidade em delírio, o caminhar lento em direção ao precipício bolivariano. Parece ridículo? É apenas delírio de um “neoliberal”? E se fossem documentos oficiais do próprio PT ou da presidência da república petista a dizê-lo, deixaria de ser ridículo, deixaria de ser uma “teoria da conspiração”?

Pois é. DECRETO PRESIDENCIAL No decreto presidencial nº 8.243 (que já foi objeto de crítica em outros artigos deste blog e de muita gente boa) lemos (os negritos são meus):

(…) Art. 7º Parágrafo único.  A Secretaria-Geral da Presidência da República publicará a relação e a respectiva composição das instâncias integrantes do SNPS (Sistema Nacional de Participação Social).

Art. 8º  Compete à Secretaria-Geral da Presidência da República: I – acompanhar a implementação da PNPS nos órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta; II – orientar a implementação da PNPS e do SNPS nos órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta; (…)

Art. 19.  Fica instituída a Mesa de Monitoramento das Demandas Sociais, instância colegiada interministerial responsável pela coordenação e encaminhamento de pautas dos movimentos sociais e pelo monitoramento de suas respostas.

  • 1º As reuniões da Mesa de Monitoramento serão convocadas pela Secretaria-Geral da Presidência da República, sendo convidados os Secretários-Executivos dos ministérios relacionados aos temas a serem debatidos na ocasião.
  • 2º Ato do Ministro de Estado Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República disporá sobre as competências específicas, o funcionamento e a criação de subgrupos da instância prevista no caput.

Sejamos francos, o decreto nem tenta esconder que este ente todo poderoso chamado Secretaria-Geral da Presidência da República tem poder de vida e morte sobre os grupos que poderão ou não participar das comissões. O titular desta pasta é o famigerado Gilberto Carvalho, “interlocutor” de movimentos sociais e grupos de pressão financiados e controlados pelo PT. Para quem já não acredita em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, dá para sentir aquele cheiro de rato morto exalando do decreto (para lembrar de expressão do beligerante Paulo Francis).

A estratégia se assemelha, não por acaso, à utilizada na revolução russa por Lenin.

RESOLUÇÃO POLÍTICA DO PT.

Na Resolução Política do PT, publicada no início de novembro de 2014, logo após o segundo turno das eleições, encontramos (além de loas fantasiosas auto-referentes e acusações alopradas sobre a oposição), a retomada de velhas agendas do partido. Estão lá os seguintes mantras: (…) “É urgente construir hegemonia na sociedade, promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da mídia.”

(…)As eleições de 2014 reafirmaram a validade de uma ideia que vem desde os anos 1980: para transformar o Brasil, é preciso combinar ação institucional, mobilização social e revolução cultural.”

Sobre estes dois tópicos, Reinaldo Azevedo fez uma ótima síntese: “O que é “hegemonia”? É a ditadura perfeita. Prefiro citar o próprio Gramsci, que a definiu como ninguém. Para que você entenda a referência, é preciso saber que ele chamava o partido que comandaria a sociedade como o “Moderno Príncipe”. Leiam o que escreveu: “O Moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar o seu poder ou para opor-se a ele. O Moderno Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”.

Mas a Resolução Política do PT vai além e nos traz a seguinte pérola: (…)” o Partido tem que retomar sua capacidade de fazer política cotidiana, sua independência frente ao Estado, e ser muito mais proativo no enfrentamento das acusações de corrupção, em especial no ambiente dos próximos meses, em que setores da direita vão continuar premiando delatores.”

Observem que não há negação ou crítica da corrupção, mas a crítica ao sistema judicial “de direita” que premia delatores (na verdade, o “prêmio” é a redução de pena, mas apenas se a denúncia puder ser comprovada). Revelador, não?

Como disse acima, nada disso me sugere um “golpe” no sentido de ruptura institucional pela força, mas sugere sim que corremos riscos importantes. Pense no seguinte: o Brasil já provou ser um país mais complexo e com instituições mais sólidas que seus pares no “Foro de São Paulo”. Até aqui, a sociedade civil, a imprensa e o próprio congresso, cada um à sua maneira, conseguiu resistir ao avanço do PT e das esquerdas sobre os alicerces democráticos, mas não sem prejuízos importantes como a nomeação de juízes do supremo se baseando cada vez mais em compromissos políticos do que no esperado e necessário “notório saber jurídico”. É a troca da meritocracia pelo compadrio que visa a subserviência.

A esquerda e o PT acreditam que aparelhando tribunais, autarquias, congresso, repartições, estatais etc vão conseguir mudar até as leis da oferta e da procura ou a lógica da economia. Imaginam que todos os movimentos, todas as experiências internacionais falharam porque não tinham um Lula, um José Dirceu ou uma Dilma manejando o leme do destino. Mas para quem entende um pouco de economia, de natureza humana e de matemática, Brasil, Argentina e Vanezuela formam um gráfico que mostra diferentes estágios da evolução desta “doença”.

No Brasil, com estrutura econômica e política mais sólida, com maior vigilância da sociedade civil, o caos evolui mais lentamente. Na Argentina, já vemos o estágio 2, com dólar paralelo e índice de inflação totalmente descolados da “verdade oficial”, desemprego crescente e falência financeira. Na Venezuela, infelizmente, chegou-se ao estágio 3, ou seja, terminal. Dificilmente o país sai desta crise sem muito sofrimento para toda a população.

Dá para evitar o desastre no Brasil, mas apenas se o governo abandonar os dogmas do PT, como fez Lula quando ganhou a primeira eleição para presidente. Percebendo que havia um clima de pânico nos mercados por medo da agenda histórica do partido, com forte alta do dólar (beliscou os R$ 4,00), inflação acelerando e economia parando, Palocci lançou a famosa “Carta aos Brasileiros”, Lula nomeou o ex-presidente mundial do Banco de Boston como presidente do Banco Central e o próprio Palocci como ministro da fazenda. Mais do que isso, rasgou os panfletos petistas e adotou a agenda do PSDB. Os mercados se acalmaram e ele pode fazer um bom governo.

Mas sabem como é, velhos hábitos são difíceis de serem abandonados. Desde a metade do segundo mandato de Lula, como disse o ex-ministro Nelson Jobim, os idiotas perderam a modéstia e passaram a acreditar que podiam inventar a roda quadrada. O país entrou na descendente e se viu novamente em estado de alerta, agora por conta da vitória de um projeto de poder movido a rompantes, com a gestão voluntariosa e pouco profissional do governo e dos fundamentos da boa governança econômica.

Se Dilma abandonar a cartilha do PT e colocar gente que o mercado reconheça como competente à frente da economia, tudo vai se acalmar. Se insistir nos imodestos companheiros e neste script para o desastre, a vida dos brasileiros será cada vez mais um inferno. O demônio da economia não aceita desaforos por muito tempo.

Artigo de Paulo Falcão.

Link para íntegra do artigo de Reinaldo Azevedo: http://goo.gl/loCEzB

Link para decreto presidencial nº 8.243: http://goo.gl/8SH3W6

Link para Resolução Política do PT: http://www.pt.org.br/wp-content/uploads/2014/11/Resolu%C3%A7%C3%A3o-Pol%C3%ADtica.pdf

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