NelsonMotta_ilustração sobre foto de EgbertoNogueira

Nelson Motta é uma destas pessoas sem inimigos. Paga um bom dinheiro para não entrar em uma briga e o dobro para sair rápido de um confronto involuntário. Costuma dizer que, ao contrário do ditado popular, perde a piada mas não perde o amigo.

Jornalista, compositor, produtor cultural e escritor, o bon vivant, na melhor acepção do termo, criou, promoveu ou ajudou a divulgar boa parte das alegrias da cultura brasileira desde os anos 60.

De certa maneira, era toda esta história que estava sentada à mesa na entrevista que deu ao jornalista Juca Kfouri, que foi absolutamente amigável, correto e oportuno em sua pergunta chave, e foi esta história que percorreu em poucos minutos na resposta que deu ao certamente amigo, desconstruindo com a elegância habitual, a “acusação” de “ser de direita”. Bem, você sabe, no Brasil, ser “de direita” é uma falha grave de caráter, inclusive para o simpático Juca Kfouri.  É mais grave que “ser corrupto”, é mais grave que mentir, roubar, enganar, fabricar dossiês, saquear empresas etc. É mais grave que se aliar com a escória. No Brasil, ser “de direita” é quase um crime hediondo. Mas Nelson dribla tudo isso com inteligência, fatos e a elegância de sempre. No fim, o que ele diz naquela linguagem de quem já sabe desviar de balas é o mesmo que diz em linguagem formal o odiado Olavo de Carvalho em artigo já reproduzido neste blog. Leiam e comparem. Começamos com Olavo de Carvalho:

“a diferença de esquerda e extrema esquerda é de graus e de meios, a de direita e extrema direita é de natureza, de fins e de valores.

O esquerdista torna-se extremista quando quer realizar, por meios revolucionários e violentos, o mesmo que a esquerda moderada busca fazer devagar e pacificamente: a expansão do controle estatal na economia, visando à debilitação e, no fim, à extinção da propriedade privada dos meios de produção.

Totalmente diversa é a relação entre direita e extrema direita. Ser de direita, ou liberal, é ser a favor da economia de mercado, das liberdades civis e da democracia constitucional (a versão conservadora defende essas mesmíssimas políticas, mas o faz em nome da tradição judaico-cristã, que para o liberal não significa grande coisa). Se por extrema direita se entende aquilo que o vocabulário corrente e a esquerda em especial designam por esse nome, isto é, o fascismo e o nazismo, o fato que estou assinalando salta aos olhos da maneira mais clara e inequívoca: ser de extrema direita não é querer mais economia de mercado, mais liberdades civis, mais democracia constitucional — é querer acabar com essas três coisas em nome da ordem, da disciplina, da autoridade do Estado, às vezes em nome do anticomunismo, do combate à criminalidade ou de qualquer outro motivo. Não houve um só governo conhecido como de extrema direita que não fizesse exatamente isso. A conclusão é óbvia: passar da esquerda à extrema esquerda é somente uma intensificação de grau na busca de fins e valores que permanecem idênticos em essência. Passar da direita à “extrema direita” é mudar de fins e valores, é renegar o que se acreditava e, em nome de alguma urgência real ou fictícia, empunhar a bandeira do que se odiava, se desprezava e se temia.”

Agora vamos ao Nelson Motta:

https://www.youtube.com/watch?v=dkHGUmH_sBg

Veja que a negativa inicial é retificada no final, depois dele esclarecer o que entende por direita: o “liberal” e o “conservador”, em oposição àquela extrema-direita que mora no labirinto, fantasiada de Bolsonaro.

É verdade que nem todo “liberal” ou “conservador” tem a simpatia, gentileza e bom-humor de Nelson Motta, ou seu talento para dizer o que precisa ser dito sem comprar brigas, mas como fica claro na comparação acima, uma das figuras mais simpáticas que o Brasil já conheceu defende em essência as mesmas ideias que defende uma das figuras mais antipáticas do país. O que isso quer dizer? Simples: atenha-se ao conteúdo, não ao mensageiro. O certo não se torna errado porque a pessoa é simpática ou antipática, nem tão pouco o errado se torna certo porque o mensageiro é famoso ou ganhou a eleição.

Artigo de Paulo Falcão.

Sugestão de artigos:

A ESQUERDA E OS CAMINHOS QUE SE BIFURCAM.

http://goo.gl/bQL5kY

A ESPERANÇA E A FÁBRICA DE SOFRIMENTO.

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