criança pobre[3]

Embora o título acima permita explorar o assunto em diversas direções, vou restringir aqui a abrangência. Abaixo reproduzo um artigo do Dr. Drauzio Varella que me lembrou a experiência que conheci pessoalmente em 2001 na favela de Paraisópolis, em São Paulo. A favela fica no bairro do Morumbi, próxima ao Hospital Israelita Albert Einstein, que mantinha dentro da favela um posto de saúde muito bem estruturado, com trabalho voluntário de muitos dos seus profissionais, focado no atendimento às crianças. O raciocínio era simples: já que não havia recursos suficientes para oferecer um atendimento de qualidade à toda a população da comunidade, decidiu-se focar o atendimento onde os benefícios seriam maiores e mais duradouros.

Além do trabalho clínico propriamente dito, outras iniciativas foram desenvolvidas. Uma das que trouxe maiores resultados e teve menor custo foi o de formação de agentes de saúde voluntários. Pessoas da própria favela receberam treinamento para identificar riscos à saúde nas casas dos moradores e propagar práticas de saneamento e cuidados básicos de higiene (da importância de não acumular lixo à necessidade de lavar as mãos antes de mexer com alimentos ou cuidar das crianças). O resultado desta prática educativa simples e barata foi a redução de mais de 80% dos casos de diarreia infantil. Foi justamente este ponto que me veio à memória quando li o artigo abaixo, que começa com uma paródia de uma piada de mau gosto, mas com aquela capacidade necessária de colocar o dedo na ferida. Segue o artigo do Dr. Drauzio Varella:

 

INTELIGÊNCIA E INDIGÊNCIA

Mil vezes ser filho de intelectuais ricos do que ter pais pobres e ignorantes.

Nutrição inadequada, infecções de repetição e indigência cultural comprometem o desenvolvimento do cérebro da criança.

Vamos à pobreza.

O cérebro é o órgão que mais consome energia. No recém-nascido, 87% das calorias ingeridas são consumidas por ele. Esse número cai para 44% aos cinco anos; 34% aos dez; 23% nos homens e 27% nas mulheres adultas.

As infecções parasitárias interferem com o equilíbrio energético, porque prejudicam a absorção de nutrientes e obrigam o organismo a investir energia na reparação dos tecidos lesados e na mobilização do sistema imunológico, para localizar e atacar os germes invasores.

As diarreias na infância têm custo energético especialmente elevado. Antes de tudo, por causa da alta prevalência: estão entre as duas principais causas de óbitos em menores de cinco anos; depois, porque dificultam a absorção de nutrientes.

Quadros diarreicos de repetição, durante os primeiros cinco anos de vida, podem privar o cérebro das calorias necessárias para o desenvolvimento pleno e comprometer para sempre o quociente intelectual (QI).

Diversos estudos demonstraram que infecções parasitárias e quociente intelectual trilham caminhos opostos. Um deles, realizado no Brasil pelo grupo de Jardim-Botelho, mostrou que crianças em idade escolar com ascaridíase, apresentam performance mais medíocre nos testes de capacidade cognitiva. Naquelas parasitadas por mais de um verme intestinal, os resultados são piores ainda.

A hipótese de que infecções parasitárias prejudicariam as faculdades intelectuais, explica por que a média do QI aumenta rapidamente quando um país se desenvolve (efeito Flynn), por que o QI é mais alto nas regiões em que o inverno é mais frio (menos parasitoses) e por que, nos países pobres, os valores médios do QI são mais baixos.

Agora, à ignorância.

Aos três anos de idade, o cérebro da criança atingiu 80% das dimensões do adulto. Nessa fase, já existem 1.000 trilhões de conexões entre os neurônios (sinapses), aparato essencial para que o desenvolvimento intelectual aconteça em sua plenitude.

Dos 18 meses aos quatro anos de idade, a maturação do córtex pré-frontal acontece com velocidade máxima. Essa área, que coordena linguagem, resolução de problemas, comunicação, interações sociais e autocontrole, funções de altíssima complexidade, depende de estímulos cognitivos múltiplos e variados, para formar novas sinapses e reforçar a arquitetura das já existentes.

Enquanto conversam, brincam, contam e leem histórias para os filhos, os pais os ajudam a construir as conexões necessárias para o pensamento bem articulado.

O estresse causado por ambientes domésticos conturbados interfere com a construção de novas sinapses, deixando falhas duradouras no cérebro infantil.

Estudos com ressonância magnética funcional mostram que existem diferenças marcantes entre as crianças mais pobres e as mais ricas, não apenas no córtex pré-frontal, mas também no hipocampo, área essencial para a memória e o aprendizado.

Estrutura cuja característica fundamental é a plasticidade, isto é, a capacidade de formar novas conexões neuronais para suprir as que se perderam ou nem chegaram a se formar, o cérebro adulto poderá se recuperar mais tarde. A reconstrução, no entanto, será um processo trabalhoso, lento e imperfeito. Alfabetizar pessoas de idade, ensinar-lhes um novo idioma e a linguagem dos computadores é possível, mas não é tarefa simples.

Sem minimizar o impacto da escolaridade e sua influência na formação do cérebro adulto, o papel da família é crucial. Vivam juntos ou separados, mães e pais que conversam, contam histórias, leem e criam um ambiente acolhedor, promovem no cérebro dos filhos respostas hormonais e neuronais decisivas para o desenvolvimento pleno.

No Brasil, existem 38% de residências sem saneamento básico. Quase metade dos bebês nascidos anualmente pertencem à classe E, que sobrevive com renda familiar abaixo de dois salários mínimos. Mais de 20% dos partos do SUS são realizados em meninas de 10 a 19 anos.

A esse caldo de cultura, acrescentamos um sistema educacional de baixa qualidade.

http://drauziovarella.com.br/drauzio/inteligencia-e-indigencia/

Questões finais.

A prática comum no Brasil (mas não só aqui) de ser tolerante com a formação de favelas está longe de ter qualquer viés humanitário.  É óbvio que pessoas que não conseguem pagar aluguéis ou obter algum tipo de moradia formal precisam de assistência, mas fechar os olhos para a formação de favelas não é assistência, é omissão e, ao mesmo tempo, uma forma de perpetuar as desigualdades.

Os recursos públicos são finitos, é preciso eleger prioridades e, certamente, combater a propagação do veneno da ignorância tem que estar entre elas.

Isto se faz atuando sobre os bolsões existentes em que são prevalentes e impedindo que novos bolsões surjam (através da ampliação dos diversos programas de moradia popular, municipais, estaduais e federais, que deveriam incluir escolas e quadras esportivas para cada grupo de 500 casas, por exemplo).

Se a construção de moradias e educação de qualidade são demandas mais complexas de serem universalizadas, ao menos é possível e viável atacar de imediato parte importante do problema. Como ficou comprovado na experiência do Hospital Israelita Albert Einstein na favela de Paraisópolis, o trabalho de difusão de noções básicas de higiene e saneamento é relativamente barato, preventivo, e desonera de forma importante os custos de atendimento nos postos de saúde (esta conta fecha, fácil), além de reduzir o custo moral e financeiro de condenar uma parcela da população a um futuro de limitações que poderiam ser evitadas com medidas simples.

 

Abertura e arremate deste artigo por Paulo Falcão.

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