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Oswald de Andrade profetizou, sobre sua produção literária: “a massa ainda comerá do fino biscoito que fabrico”. Infelizmente a profecia não se realizou, embora a obra de Oswald de Andrade, com suas teses antropofágicas, seja um conjunto saboroso de libelos libertários, deglutíveis  por qualquer pessoa com gosto para a leitura.

Me lembrei de Oswald de Andrade e sua frase famosa ao pensar na solidão intelectual de Ruy Fausto, professor emérito de filosofia da USP. Seus artigos são densos. Seu pensamento não busca qualquer “simplificação”, apenas o alargamento das questões que aborda.  São, por isso mesmo, um sopro de lógica e rigor em meio ao vendaval de informações equivocadas e reflexões levianas que nos assolam diariamente. Desconfio, pois, que seus leitores atentos não sejam tantos quanto seria desejável.

O artigo “O ciclo do totalitarismo e os impasses da esquerda mundial” publicado na REVISTA FEVEREIRO número 7 é, sem dúvida, mais um exemplo do que afirmei acima. De uma maneira geral, o artigo está em linha com as principais teses defendidas neste blog, ou, para respeitar as devidas proporções, as teses deste blog almejariam estar em linha com sua respeitável obra.

Separei abaixo alguns trechos em que reconheço pontes conceituais entre o artigo e o que defendemos por aqui. Como sempre, no final, há o link para o artigo completo.

(…) De fato, hoje não restam muitos governos totalitários no mundo. A rigor, um só: a Coréia do Norte. Ela tem os seus defensores (!) mas estes são provavelmente minoritários. O que sim é problema, e grande problema, no interior da esquerda, é o autoritarismo, sob forma populista frequentemente. É o autoritarismo e não o totalitarismo que parece ser o verdadeiro problema, na atualidade. Mas, embora eu esteja de acordo que é o autoritarismo o problema imediato e presente, ou, antes, é precisamente por isso que insisto na questão do totalitarismo. Explico-me. Há autoritarismos, como em primeiro lugar o chinês, que jogam a carta ideológica do “comunismo”. E o “comunismo” foi no passado, e continua se definindo como, um totalitarismo. E mesmo lá onde não se permanece fiel, sem mais (formalmente) a uma ideologia “comunista”, reivindica-se uma conexão histórica e ideológica. Os populismos autocráticos do nosso tempo reivindicam frequentemente as experiências do que teriam sido as revoluções russa ou chinesa. Por outro lado, ou por isso mesmo, eles conservam traços herdados do stalinismo e do maoísmo. Ou, dizendo de outro modo: o totalitarismo interessa, porque, se ele desapareceu, o seu desaparecimento não foi total. Ele antes se transmutou em autoritarismo. E a forma transmutada guarda laços com a forma original, conserva traços dela. Por isso, é preciso, ainda hoje, enfrentar um e outro. Um com o outro. (…)(…) Os poderes comunistas – pelo menos o russo – começam com formas que são autoritárias, e depois evoluem (involuem) para formas totalitárias. (…)(…) A partir de outubro de 1917, constituíram-se grande poderes ditos “comunistas”, mas esses poderes de “comunistas” não tinham (e hoje têm menos ainda) muito mais do que o nome. É como se, a partir de outubro de 1917, tivesse surgido um descompasso fantástico entre as coisas (as formações históricas) e o nome das coisas. Os nomes não têm mais muito que ver com o objeto nomeado. Talvez o melhor exemplo singular desse fenômeno esteja na expressão “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”. Como escreveram alguns (não sei quem foi o primeiro a dizer isso, talvez Souvarine) não se tratava nem de “união”, nem de “república”, nem de “socialista”, nem de “soviética”…. O que seria fácil mostrar. Assim, como afirmou uma vez Bentham (a propósito de fenômenos históricos do seus tempo), as coisas se separam dos nomes. Com a agravante, eu diria, de que, em muitos casos, os nomes já não correspondiam às coisas. Só que os indivíduos – no caso, os que compõem grande parte da esquerda – continuam acreditando que a correspondência se conservou, crença que teve e tem as consequências mais desastrosas. Raciocina-se não na base das coisas, mas dos nomes. É o que acontece com parte da esquerda europeia, e com uma grande parte, pelo menos, da extrema-esquerda nos países emergentes. (…)

(…) O comunismo conduziu a uma catástrofe histórica cujo custo para a humanidade, principalmente na pessoa de camponeses, foi de algumas dezenas de milhões de mortos. Essa história é um livro fechado para muita gente de extrema-esquerda, inclusive especialistas, particularmente nos países emergentes (…).

(…) A razão profunda do desconhecimento e dos mal-entendidos em relação a esse grande pedaço de história é o fato de que, mesmo se muitas vezes de modo mais ou menos inconsciente, o marxismo continua sendo hegemônico em grandes setores da intelectualidade dos países emergentes. Ora, ainda que isso possa surpreender alguns, eu diria que o marxismo está muito mal situado para entender aqueles fenômenos. E isto, não só porque eles se situam num tempo bem posterior ao da morte de Marx, mas porque o autor do Capital pouco teorizou o destino de governos pós-revoluções comunistas, e quando o fez, fez mal. Diria que, por paradoxal que isso possa parecer, outubro (novembro) de 1917 é uma data decisiva na história do envelhecimento do marxismo. É que ela assinala o ponto de partida de uma história que o marxismo estava muito mal preparado para teorizar, diria mais, uma história (futura, eventual) cuja realidade fora simplesmente denegada por Marx. (…)

(…) Diferentemente do bolchevismo, o nazismo nasceu depois da guerra e veio impregnado por ela, num grau que é, seguramente, maior do que o do bolchevismo. Como entender a relação entre os dois totalitarismos? Se o bolchevismo remete ao atraso russo, o nazismo tem certamente a ver, a observação não é nova, com o Sonderweg alemão. Mas o paralelismo não é preciso, e tem de ser explicitado, senão corrigido. Na Alemanha, houve uma industrialização tardia, acelerada e impulsionada pelo poder (vinda “de cima“), que veio a ser paralisada pela derrota na guerra. Essa constelação de sucesso nacional bloqueado por uma guerra mal-sucedida deve ser um elemento explicativo de por quê a dissolução dos valores que operaram os horrores da conflagração mundial gerou, na Alemanha, um totalitarismo de direita. O impulso dominante foi o da exigência de uma “revanche”. O que exige, primeiro, que tenha havido glória e sucesso no passado imediato (para que se vise uma “revanche” é preciso supor que nossa energia foi, e ainda é considerável), e, segundo, que a inversão do curso vitorioso tenha vindo de um acidente ou de uma manobra traiçoeira – o suposto golpe de punhal desferido pelas forças de dissolução, nas costas da Alemanha. A Rússia não teve industrialização tardia muito acelerada, e se, de certo modo, perdeu a guerra, não a perdeu como a Alemanha. Seu regime autoritário arcaico apodreceu e abriu o caminho para a esquerda. Aproveitando a incapacidade do governo provisório em resolver o problema da guerra, o bolchevismo hasteia a bandeira de um radicalismo que prega “o poder aos sovietes”. Sua vitória foi, entretanto, a morte de toda representação soviética livre. (…)

(…) Quanto à natureza do regime que viria depois do fim da “burocracia”, os trotskistas acreditavam numa “volta ao leninismo” o que, para eles, seria o equivalente de uma “volta ao marxismo”, como também um retorno a um projeto socialista não deformado (Foi sempre uma característica da posição trotskista, a de estabelecer uma separação marcada entre leninismo e stalinismo; na realidade, uma separação existe, mas não exclui uma continuidade “objetiva”). Ou então, na alternativa pessimista, a burocracia voltaria ao capitalismo. Os outros críticos acreditavam em geral que, em algum momento, e por uma iniciativa vinda “de baixo”, o poder burocrático seria minado e retornar-se-ia pelo menos a uma situação favorável a um combate em prol de um socialismo refundado. Antes de discutir quanto e o quê os acontecimentos parecem ter confirmado dessas teorias e previsões, e quanto e o quê elas parecem desmentir, reflitamos um pouco sobre a situação das esquerdas – penso também e particularmente nas esquerdas do “terceiro mundo” – durante aquele interregno. A tomada de posição não era difícil para os ortodoxos, e, até certo ponto, também não era para os trotskistas: seria preciso lutar contra o “imperialismo americano” e defender o Estado soviético (no caso dos trotskistas, a nuance, não tão insignificante, era a de que essa defesa não excluía uma crítica bastante aguda do stalinismo). A dificuldade existia para os outros, para a esquerda não ortodoxa nem trotskista. Ela se apresentava assim: como criticar o hegemonismo americano sem cair na idealização de um governo que, sob muitos aspectos, representava uma forma de exploração e opressão pior do que a que representava o capitalismo liberal-democrático do ocidente? (…)

(…) Se se puder admitir que chegamos a um quase-final – muito relativo, claro – de um caminho, isto é, se se supuser, como estou supondo, que, da situação histórica em que nos encontramos, é possível fazer um balanço suficientemente rigoroso e esclarecedor, deveríamos fazer as seguintes considerações. Em primeiro lugar sobre a essência daquele poder revolucionário, ou daqueles poderes revolucionários. À luz de tudo o que hoje se sabe sobre a história dos regimes chinês e russo – o grande salto para a frente, a revolução cultural, a fome camponesa dos anos 1930, o grande Terror, mais todo o “pequeno” horror que se situa entre esses momentos apoteóticos, além daquilo que revela a análise dos modos de exploração e de opressão inerentes a esses regimes – é difícil não dar razão à esquerda e à extrema-esquerda não-trotskistas, que viam no regime russo e no regime chinês um tipo de poder opressivo e explorador (além de genocida e terrorista). Um poder que merecia, sem dúvida, uma denominação especial, e que, em todo caso, de forma alguma deveria ser considerado como sendo “de transição para o socialismo” (nem como o de um “estado operário deformado”!). Qual dessas denominações conviria melhor não vou discutir aqui, mas o termo “totalitarismo” vale, certamente, como também o de “poder burocrático”. Quanto ao destino desses poderes, que a realidade atual parece revelar, pode-se dizer que ela não confirma, em geral, as perspectivas de uns e de outros. Mas havia elementos de verdade em algumas daquelas previsões. Vejamos isso mais de perto. Os acontecimentos desmentem a perspectiva ortodoxa: a história da China pós-revolucionária e a da Rússia pós-outubro não levou à construção de nenhum tipo de sociedade socialista (os devotos poderão sempre dizer que houve forças contrárias que inibiram o processo etc…).

(…) Quanto às perspectivas trotskistas, que eram, na alternativa otimista, a “volta ao leninismo”, e na alternativa pessimista, a “volta ao capitalismo”, a primeira não se realizou, e, quanto à segunda, se ela se efetivou de algum modo, foi, como veremos mais de perto, de maneira muito sui generis, e em forma bem mais complexa do que eles haviam suposto (de resto, na medida em que esta era a alternativa pessimista, eles, otimistas, que eram, como todos os bons marxistas, nunca apostaram muito seriamente nessa eventualidade). Entretanto – como observei já há bastante tempo ­–, a ideia de que o regime não duraria muito tempo se confirma. É talvez o único ponto em que a perspectiva trotskista acerta. Mas isso é pouco, se pensarmos em tudo o que os acontecimentos desmentem da sua construção em torno dos “Estados operários deformados ou degenerados”. As oposições não-trotskistas pensavam, em geral, numa sobrevivência mais longa, porém não é claro que todos fizessem disso uma tese bem precisa. Eles acertaram mais no diagnóstico da essência desses regimes do que no do seu destino. Como os trotskistas, eles acreditavam, em geral, que a ruptura viria de um movimento “de baixo”. E não foi o que aconteceu. Foi a partir de cima, como se o totalitarismo se revelasse inviável, que foi se operando a transformação. Enfim, o resultado, no seu conteúdo como no seu encaminhamento, foi inesperado e original. Mas seria preciso explicar melhor até onde se chegou, e como se chegou até aí. (…)

ARREMATE

Como se nota, o tema é para poucos, embora as consequências destes erros persistentes de marxistas de diversas cepas recaiam sobre muitos, com diferentes graus de severidade. Espero que o professor Ruy Fausto perdoe a simplificação (talvez demasiada) que fiz e que pretendeu funcionar como um menu degustação de seu banquete teórico.

Segue o link para o artigo integral: http://www.revistafevereiro.com/pag.php?r=07&t=02

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