Icaro_y_Dedalo

Frequentemente ouvimos palavras grávidas de boas intenções e que, postas em prática, terminam em sofrimento.

Isto se repete hoje, inclusive no Brasil, com as principais teses da esquerda. Tirando de lado os canalhas, que usam o disfarce de cordeiro para esconder seus dentes de lobo, há muita gente que realmente acredita nessas teses redentoras. É uma espécie de “nova religião” que arregimenta fiéis de bom coração, muitos com excelente escolaridade. Não importa que tais teses fracassem sempre. Não importa que, quando viram governo, na medida em que implantam sua agenda, terminem sempre em caos econômico.

O projeto dos “conselhos populares” da presidente Dilma se inscreve entre as iniciativas com potencial para o desastre. Tal afirmação sempre rende reações adversas, desmentidos categóricos, mas o fato concreto, palpável, é que emulam práticas e teses da esquerda que têm por objetivo solapar o que conhecemos por DEMOCRACIA, ou seja, a Democracia Liberal. No próprio DICIONÁRIO DE POLÍTICA, de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, lemos que (…) “para as esquerdas, o aprofundamento do processo de democratização da parte das doutrinas socialistas acontece de dois modos: através da crítica da Democracia apenas representativa e da consequente retomada de alguns temas da Democracia direta e através da solicitação de que a participação popular e também o controle do poder a partir de baixo se estenda dos órgãos de decisão política aos de decisão econômica, de alguns centros do aparelho estatal até à empresa, da sociedade política até à sociedade civil pelo que se vem falando de Democracia econômica, industrial ou da forma efetiva de funcionamento dos novos órgãos de controle (chamados “conselhos operários”), colegial, e da passagem do auto-governo para a autogestão.(…)”. O  decreto presidencial nº 8.243  apenas trocou a palavra “operário” por “popular”.

Quando estas práticas começaram a solapar a democracia na Venezuela, alguns denunciaram, mas a maioria ignorou ou apoiou. No caso do governo Brasileiro, sob o PT, a posição foi não de neutralidade, mas de apoio explícito.

Ainda hoje, diante da eloquente falência do modelo bolivariano da Venezuela, o apoio do PT e das esquerdas segue impávido. É por isso que costuma-se dizer que a esquerda não aprende nada, porque não reconhece seus erros.

PARALELOS TOTALITÁRIOS

Para ressaltar o viés totalitário das teses de esquerda, acho interessante retomar um trecho do “Hitler m’a dit” (1939), de Hermann Rauschning, que traz a seguinte declaração de Hitler: “Não sou apenas o vencedor do marxismo, sou seu realizador. Aprendi muito com o marxismo e não pretendo escondê-lo. O que despertou interesse nos marxistas e me forneceu ensinamentos foram seus métodos. Eu, simplesmente, levei a sério o que essas mentes de pequenos comerciantes e secretárias haviam vislumbrado timidamente. Todo o nacional-socialismo lá está contido. Veja bem: os grêmios operários de ginástica, as células empreendedoras, os desfiles monumentais, os folhetos de propaganda redigidos em linguagem de fácil compreensão pelas massas. Esses novos métodos de luta política foram praticamente inventados pelos marxistas. Eu só precisei me apoderar deles e desenvolvê-los para conseguir assim os instrumentos de que necessitávamos.”

Estas ideias se aprofundaram no nazismo, com a substituição do “internacionalismo” pelo “nacionalismo” (o que também aconteceu na URSS sob Stalin) e a adoção do judeu como símbolo do burguês explorador, causador de todos os males.

Há mais, muito mais. Leiam o artigo abaixo e observem as semelhanças com as teses que podemos encontrar nas diretrizes de partidos como PT, PCO, PSTU, PSOL e em boa parte da produção acadêmica publicada no Brasil.

(…)

“Antes que se tornasse um homicida em massa, ele já havia atentado contra a ordem democrática, mas o regime o anistiou. Deram a Hitler em nome dos valores democráticos o que ele jamais concederia a seus adversários em nome dos valores nazistas.

Antes que se tornasse um homicida em massa, ele fundiu a chancelaria com a Presidência da República. E se fez silêncio.

Antes que se tornasse um homicida em massa, ele anexou a Áustria e a Renânia. E se fez silêncio.

Antes que se tornasse um homicida em massa, ele já havia ordenado, em 1933, a conversão de uma antiga fábrica de pólvora, em Dachau, num campo de concentração. E se fez silêncio.

Antes que se tornasse um homicida em massa, a França e a Inglaterra aceitaram que anexasse a região dos Sudetos, na Tchecoslováquia. Assinaram com ele um “acordo de paz”. E se fez silêncio. No ano seguinte, ele entrou em Praga e começou a exigir parte da Polônia. Depois vieram Noruega, Dinamarca, Holanda, França… É que haviam feito um excesso de silêncios.

– Silêncio quando, em 1º de abril de 1933, com dois meses de poder, os nazistas organizaram um boicote às lojas de judeus.

– Silêncio quando, no dia 7 de abril deste mesmo ano, os judeus foram proibidos de trabalhar para o governo alemão. Outros decretos se seguiram — foram 400 entre 1933 e 1939.

– Silêncio quando, neste mesmo abril, criam-se cotas nas universidades para alunos não alemães.

– Silêncio quando, em 1934, os atores judeus foram proibidos de atuar no teatro e no cinema.

– Silêncio quando, em 1935, os judeus perdem a cidadania alemã e se estabelecem laços de parentesco para definir essa condição.

– Silêncio quando, neste mesmo ano, tem início a transferência forçada de empresas de judeus para alemães, com preços fixados pelo governo.

– Silêncio quando, entre 1937 e 1938, os médicos judeus foram proibidos de tratar pacientes não judeus, e os advogados, impedidos de trabalhar.

– Silêncio quando os passaportes de judeus passaram a exibir um visível “j” vermelho: para que pudessem sair da Alemanha, mas não voltar.

– Silêncio quando homens que não tinham um prenome de origem judaica foram obrigados a adotar o nome “Israel”, e as mulheres, “Sara”.

Os milhões de mortos do nazismo, muito especialmente os seis milhões de judeus, morreram foi de… SILÊNCIO. Morreram porque os que defendiam a ordem democrática e os direitos fundamentais do homem mostraram-se incapazes de denunciar com a devida presteza o regime de horror que estava em curso.

Nos nossos dias

É pouco provável que aquelas barbaridades se repitam. Mas não se enganem. Oitenta anos depois, a democracia ainda é alvo de especulações as mais destrambelhadas. Cometei aqui a tese delinquente de certa senhora, estudiosa do Islã e aboletada na Universidade Harvard, segundo quem os islâmicos estão dando à luz uma nova democracia, que ela classifica de “iliberal”. Pois é… Em 1938, um ano antes do início da Segunda Guerra, cogitou-se o nome de Hitler para o Nobel da Paz. As leis raciais contra os judeus já estavam em vigência…

Aquela tal senhora — Jocelyne Cesari — escreve, como quem diz “Bom dia!”, que essa forma particular de democracia não implica necessariamente o fim da discriminação religiosa ou de gênero. Dona Jocelyne acha possível chamar de “democrático” um regime que segregue as pessoas por sua religião e gênero…

Um “intelectual” como Salavoj Zizek dedica-se a especular sobre as virtudes do moderno terrorismo, conquista admiradores mundo afora, inclusive no Brasil, e passa a ser uma referência do pensamento de esquerda. Reitero: ele não está a falar na tal “redenção dos oprimidos”. Ele empresta valor afirmativo a ações terroristas.

Mundo afora, direitos individuais são solapados pelo Estado — em nome da igualdade ou da reparação —, e a criação de leis que discriminam homens segundo a cor de sua pele ou sua origem é vista como um avanço.

Programa

Não custa lembrar aqui algumas “exigências” do programa que os nazistas tinham para a Alemanha, que certamente deixam encantados alguns dos nossos esquerdistas ainda hoje — especialmente aqueles que defendem, como é mesmo?, o controle social da mídia. Eis aqui parte do que eles queriam para a Alemanha:

(…)

  1. A supressão dos rendimentos a que não corresponda trabalho ou esforço, o fim da escravidão do juro;
  1. Levando-se em conta os imensos sacrifícios em bens e em sangue derramado que toda guerra exige do povo, o enriquecimento pessoal graças à guerra deve ser qualificado de crime contra o povo. Exigimos, portanto, a recuperação total de todos os lucros de guerra;
  1. Exigimos a nacionalização de todas as empresas (já) estabelecidas como sociedades (trustes);
  1. Exigimos participação nos lucros das grandes empresas;
  1. Exigimos que se ampliem generosamente as aposentadorias;
  1. Exigimos a constituição e a manutenção de uma classe média sadia, a estatização imediata das grandes lojas, e o seu aluguel a preços baixos a pequenos comerciantes, cadastramento sistemático de todos os pequenos comerciantes para atender às encomendas do Estado, dos Länder e das comunas;
  1. Exigimos uma reforma agrária apropriada às nossas necessidades nacionais, a elaboração de uma lei sobre a expropriação da terra sem indenização por motivo de utilidade pública, a supressão da renda fundiária e a proibição de qualquer especulação imobiliária;
  1. Exigimos uma luta impiedosa contra aqueles cujas atividades prejudicam o interesse geral. Os infames criminosos contra o povo, agiotas, traficantes etc. devem ser punidos com pena de morte, sem consideração de credo ou raça;
  1. Exigimos que se substitua o direito romano, que serve à ordem materialista, por um direito alemão;
  1. Com o fito de permitir a todo alemão capaz e trabalhador alcançar uma instrução de alto nível e chegar assim ao desempenho de funções executivas, deve o Estado empreender uma reorganização radical de todo o nosso sistema de educação popular. Os programas de todos os estabelecimentos de ensino devem ser adaptados às exigências da vida prática. A assimilação dos conhecimentos de instrução cívica deve ser feita na escola desde o despertar da inteligência. Exigimos a educação, custeada pelo Estado, dos filhos – com destacados dotes intelectuais – de pais pobres, sem se levar em conta a posição ou a profissão desses pais;
  1. O Estado deve tomar a seu cargo o melhoramento da saúde pública mediante a proteção da mãe e da criança, a proibição do trabalho infantil, uma política de educação física que compreenda a instituição legal da ginástica e do esporte obrigatórios, e o máximo auxílio possível às associações especializadas na educação física dos jovens;
  1. Exigimos a abolição do exército de mercenários e a formação de um exército popular;
  1. Exigimos que se lute pela lei contra a mentira política deliberada e a sua divulgação através da imprensa. Para que se torne possível a constituição de uma imprensa alemã, exigimos:
  2. a) que todos os redatores e colaboradores de jornais editados em língua alemã sejam obrigatoriamente membros do povo (Volksgenossen);
  3. b) que os jornais não-alemães sejam submetidos à autorização expressa do Estado para poderem circular. Que eles não possam ser impressos em língua alemã;
  4. c) que toda participação financeira e toda influência de não-alemães sobre os jornais alemães sejam proibidas por lei, e exigimos que se adote como sanção para toda e qualquer infração o fechamento da empresa jornalística e a expulsão imediata dos não-alemães envolvidos para fora do Reich.

Os jornais que colidirem com o interesse geral devem ser interditados. Exigimos que a lei combata as tendências artísticas e literárias que exerçam influência debilitante sobre a vida do nosso povo, e o fechamento dos estabelecimentos que se oponham às exigências acima.

(…)

Começando a encerrar

Não, senhores! Qualquer semelhança com um programa de esquerda — e me digam quais esquerdistas não endossariam ainda hoje o que vai acima — não é mera coincidência. O fascismo, também na sua vertente nazista, sempre foi de esquerda nos seus fundamentos mais gerais. Erigiu, sim, uma concepção de poder e de organização de estado diferente daquelas estabelecidas pela Internacional Comunista e repudiava o entendimento que tinha esta do “internacionalismo”. Mas o ódio ao liberalismo econômico, à propriedade privada e às liberdades individuais era o mesmo.

Essa cultura da “engenharia social”, que cassa direitos individuais em nome de um estado reparador, ainda está muito presente no mundo. Como se percebe, ela se estabelece oferecendo o paraíso na terra, um verdadeiro reino de justiça e igualdade. Deu no que deu. (…)”

O artigo citado acima é de Janeiro de 2013, bem antes da edição do decreto bolivariano de PT (o qual Marina Silva endossa, lembre-se). Seu autor é Reinaldo Azevedo e não o revelei antes porque há muita gente que teria parado de ler se soubesse ser dele o artigo. Como acredito que no mundo das ideias é sempre mais importante “o que se diz” do que “quem diz”, deixei a revelação para o final, permitindo esta reflexão adicional.

Quanto ao paralelo entre a agenda da esquerda, o decreto bolivariano da presidente Dilma, o modelo venezuelano e as diretrizes nazistas, não se trata de uma “teoria da conspiração”. Quem colocar de lado os preconceitos e se ativer aos conteúdos, verá que o artigo costura de maneira lúcida o que é um perigo real. No episódio do “acordo de paz” citado acima, quando em 1938, França e Inglaterra aceitam que os nazistas anexem a região dos Sudetos, na Tchecoslováquia em nome do fim das hostilidades, fez-se festa nas ruas de Londres, reverenciando a decisão dos pacifistas Chamberlain e Daladier (negociador francês). Churchill discordou totalmente da decisão e avaliou: “Entre a desonra e a guerra, escolheram a desonra e terão a guerra”. Os sinais eram claros, mas a esperança nublou a visão de muitos e abriu os portões para o pesadelo real.

Links:

A íntegra do artigo de Reinaldo Azevedo está aqui:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/ha-exatos-70-anos-ele-chegou-ao-poder-em-nome-da-reparacao-e-da-igualdade-exterminou-milhoes-de-vidas-e-a-marcha-do-terror-se-fez-no-silencio-cumplice/

Íntegra do Dicionário Político:http://www.4shared.com/office/XskicYK2/dicionario_de_politica_-_norbe.html

 

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Inclusão de artigo complementar em maio de 2017:

O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita?

http://www.bbc.com/portuguese/salasocial-39809236?ocid=socialflow_facebook

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