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O GOLPE MILITAR E O RETROVISOR DA HISTÓRIA.

ditaduraw1181h827

Um bom texto é sempre sedutor, mesmo quando temos divergências profundas com o autor. É o caso deste artigo de Flávio Aguiar publicado no blog da Boitempo e que reproduzo abaixo para comentar no final. 

 

1964, 50 anos depois

Por Flávio Aguiar.

A tentação de fazer ficção científica é muito grande: o que teria acontecido nas nossas vidas se houvesse de fato resistência ao golpe?

Já nem digo se o golpe fosse derrotado. Mas simplesmente se houvesse resistência.

Certamente teria havido uma guerra civil.

Seria sustentável? Seria. Ainda no dia 2 de abril houve uma reunião (são estas coisas de Brasil: sei disto através do parente de um vizinho…) reunindo um pessoal da Petrobrás, o general Ladário Pereira Telles (nomeado às pressas comandante do 3º. Exército), Brizola, Jango, Sereno Chaise (que era o prefeito de Porto Alegre) e outros possíveis líderes da resistência.

Nesta reunião, os sindicalistas da Petrobrás apresentaram um plano de tomar todas as refinarias do sul do Brasil. Um eventual avanço de tropas de São Paulo para o Rio Grande do Sul encontraria pela frente um provável deserto de combustível. O que era necessário para isto? Armas.

Jango preferiu se exilar imediatamente no Uruguai. Um dos motivos alegados era o rápido deslocamento de uma força naval dos Estados Unidos do Caribe em direção ao Rio de Janeiro e o porto de Santos. Haveria uma invasão? Talvez.

Com a fuga de Jango, não houve a entrega das armas. Ficou tudo por isto mesmo. O plano teria funcionado? Hoje é impossível dizer que sim. Mas também é impossível dizer que não. São destas caixas pretas da história, mas sem leitura possível.

Outra caixa preta: haveria muitas mortes? Certamente. Mas não como a grande maioria que houve nos anos depois do golpe, com pessoas caçadas como ratos ou na tortura, em calabouços infames. Isto teria sido melhor? Impossível saber. A única coisa possível de se saber é que a falta de resistência naquele momento decisivo da história tornou mais amargo o fruto amargo que tivemos de comer sem vomitar. O resto fica no mistério da caixa preta.

Este é o principal efeito do golpe, ainda hoje, esta semeadura de caixas pretas ao longo das vidas posteriores. É claro que há um sem número de caixas pretas nas nossas vidas. O que teria acontecido comigo se eu não tivesse feito aquela escolha, naquele momento, ou fizessem outra escolha, tivesse outra namorada, aceitasse outro emprego, e por aí afora.

Somos os destino das nossas escolhas e também o seu desatino, ou ainda o destino de nossa falta de escolha por vezes. Mas a caixa preta do golpe é diferente. Porque as outras vão variando, diminuindo ou variando de importância conforme o tempo vai passando. A do golpe não. Ela não passa, ela fica, ela pesa sempre na memória. É a cicatriz do futuro que não houve. E por baixo da cicatriz a ferida ainda está aberta, ainda lateja.

Em alguns casos ela se transformou em câncer, e levou pessoas ao suicídio. Outras vezes ela levou pessoas ao suicídio moral, à adesão deslavada e descarada à direita. Até hoje isto acontece.

Esta caixa preta está irremediavelmente plantada na memória. A memória é um labirinto, onde frequentemente nos encontramos, mas também onde frequentemente nos perdemos. Se falarmos de memória, caixa preta, labirinto, perda, um caso que nos vem à mente – evocado em várias ocasiões – é o de Frei Tito de Alencar. Barbaramente torturado pelo delegado Sergio Paranhos Fleury durante a caçada a Carlos Marighella, Frei Tito ficou com algo de si preso a esta memória horrenda, como um anzol. A única maneira de se libertar desta verdadeira possessão demoníaca foi através da morte. Tão grave foi seu caso que apesar do suicídio ele recebeu as exéquias cristãs no convento onde residia, em Paris, quando de seu suicídio.

A memória tem destes redemoinhos. Há coisas que queremos lembrar e não podemos; há coisas que queremos esquecer e não conseguimos. A caixa preta de 64 está nesta encruzilhada: queremos por vezes lembrar-nos deste futuro que nos era prometido, que poderíamos construir, e que nos foi arrebatado pelo golpe, e isto se torna uma operação cada vez mais difícil e nebulosa; queremos esquecer do amargor de ter todo este futuro negado, e não conseguimos, pois a dor da perda é sempre presente, cada vez mais espessa e onipresente.

Virar a página? Sim, é necessário virar a página. Até porque os que não querem virar a página, os Bolsonaros da vida, os militares de pijama nostálgicos da ditadura, os amantes de privilégios em todas as classes sociais não querem virar a página. Querem ficar presos e deter-nos todos na prisão da reverência ao canalhismo de 64. Mas virar a página não significa esquecer. Porque se a metáfora é a do livro, o livro pode e deve ser folheado numa e noutra direção.

Haverá um ajuste de contas com este passado? É muito difícil prever. Duas coisas seriam necessárias: a revisão da Lei da Anistia e a abertura dos arquivos das Forças Armadas. Isto depende do STF e do Congresso Nacional, além da pressão dentro e fora do Brasil. Isto nos leva ao encontro de outra caixa-preta, mas esta cheia de possíveis surpresas, a da política.

A ver.

CONSIDERAÇÕES

Quem acompanha este blog sabe que considero TODA DITADURA NEFASTA, seja de direita, seja de esquerda, seja laica, seja religiosa. Mas não podemos deixar de analisar a História com isenção. Apesar das memórias insepultas, das cicatrizes do golpe de 64, a questão inicial proposta pelo artigo é o futuro possível se tivesse havido resistência ao golpe. Neste ponto, insinua um possível sucesso na resistência ao golpe, mas nem toca na hipótese mais provável: a falta de resistência ocorreu, majoritariamente, não por medo, mas por adesão.

Outro ponto de conflito, para mim, é a reverência do autor pela esquerda e a falta de coerência com as próprias crenças. Explico: como se trata de uma visão pelo retrovisor da história, em que o cenário é o ano de 1964, podemos dizer que todas as experiências socialistas que serviam de modelo para a esquerda brasileira eram ditaduras. Neste sentido, a crítica à brutalidade da ditadura brasileira, embora justa, embora necessária, deixa no ar duas questões.

Primeiramente, se os modelos da esquerda eram ditaduras, com que base moral podem questionar as ditaduras de direita? O raciocínio implícito no artigo de Flávio Aguiar é o seguinte: se a esquerda estiver empunhando os fuzis no pelotão de fuzilamento, a ditadura é justa. Se estiver sob a mira dos fuzis, é inaceitável. Para quem tem, como eu, a democracia como valor fundamental, esta postura não é eticamente ou filosoficamente defensável.

O segundo ponto é que faltou estabelecer uma régua para medir a brutalidade da ditadura brasileira. Para que o artigo seja justo com os próprios sonhos de um futuro alternativo, se faz necessário comparar o totalitarismo dos generais com totalitarismos contemporâneos de esquerda, como Cuba, China, Camboja, URSS etc. Se a comparação for estabelecida, os ditadores brasileiros vão ficar marcados na História pela baixa produtividade nos quesitos tortura, execuções e prisões arbitrárias. Me perdoem a ironia macabra, mas é a mais pura verdade. A Folha de São Paulo chegou a conclusão semelhante há alguns anos, quando causou grande indignação ao chamar a ditadura militar de “ditabranda”.

Acredito que os horrores dos anos de chumbo devem ser lembrados sim, não para lamentar o insucesso de desvarios socialistas, mas para que ninguém esqueça o valor da Democracia, que como já discutimos em artigos anteriores, é sinônimo de democracia liberal. O resto é ficção ou terror.

Artigo de Paulo Falcão.

PS – O artigo abaixo é bem posterior à publicação do artigo acima, mas achei oportuno incorporá-lo aqui porque dialoga de maneira clara e objetiva com ele. Juntos, formam um painel mais abrangente.

TABUS E VERDADE
01/12/2014 Opinião ­ Estadão por Denis Lerrer Rosenfieldprofessor de Filosofia na UFRGS.

Em 1970, no interior de São Paulo, o tenente Alberto Mendes Júnior da Polícia Militar rendeu-­se, durante um tiroteio, a um grupo de “revolucionários”, impondo como condição que subordinados seus, feridos, tivessem atendimento médico. Preocupou­-se, sobretudo, com a vida de seus subordinados, fiel ao seu espírito militar.

Após ainda algumas escaramuças, o tenente, sempre preocupado, aliás, com o que tinha acontecido com o restante de seus homens, foi levado para o interior do mato, onde ficou embrenhado com seus captores. Lá, o oficial foi objeto de um “tribunal revolucionário” por ter supostamente traído “companheiros”, “camaradas”, para utilizar o linguajar comunista, que tinham desaparecido. Fez parte desse tribunal e da ordem de sua execução Carlos Lamarca, o novo “herói” de alguns setores da carcomida esquerda brasileira.

A ordem foi cumprida da seguinte maneira. Os executantes aproximaram­se por trás do oficial, desferindo-­lhe poderosos golpes na cabeça com a coronha de um fuzil. Teve a base do crânio partida, da qual jorravam sangue e miolos. O pobre indivíduo contorcia-­se de dor. A sua cabeça foi esfacelada pelos heroicos “guerrilheiros”, que, com zelo, cumpriam as ordens recebidas.
Posteriormente a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um dos grupos esquerdistas da época, liderado por Lamarca, que se tornou seu comandante­geral, emitiu o seguinte comunicado ao “povo brasileiro”: “O tenente Mendes foi condenado a morrer a coronhadas de fuzil, e assim foi morto, sendo depois enterrado”.

Lamarca, anteriormente, havia desertado do Exército, traindo seus companheiros de farda, depois de ter criado uma célula revolucionária em seu regimento. Quando de sua fuga levou 63 fuzis automáticos leves com os respectivos acessórios, três metralhadoras INA e uma pistola 45. Nesse meio tempo, sua organização, com o respaldo dos cubanos, estava transferindo sua mulher e seus filhos para Cuba, onde passariam a viver. A ditadura comunista era a sua opção. Nesse sentido, falar de resistência à “ditadura” brasileira é manifestamente um contrassenso. Sua escolha era pela leninista “ditadura do proletariado”.

Ora, tal indivíduo está sendo agora celebrado como se fosse por ele merecida sua promoção post­-mortem a coronel com proventos de general de brigada. Do ponto de vista do relato histórico, alguns se atrevem a dizer que um tabu teria sido superado. Não dá para entender muito bem o que isso significa, considerando o seu próprio histórico de luta armada no estilo leninista da expressão, como, aliás, defendido em documentos por ele escritos à sua própria organização.

A família do tenente Mendes não foi jamais assistida pela Comissão da Anistia nem teve direito a polpudas indenizações, como as recebidas pelos assassinos do oficial da Polícia Militar de São Paulo. Alguns deles usufruem em paz seus “proventos revolucionários”. A perversão é total. O mesmo aconteceu com muitas outras pessoas. Como o soldado Mário Kozel Filho, morto em seu posto de sentinela do Comando Militar de São Paulo. Ou o piloto Orlando Lovecchio Filho, que teve uma perna destroçada e hoje vive com uma mísera pensão do INSS. Além de tantos outros “justiçados” por tribunais revolucionários. Nenhuma reparação lhes foi concedida. Será por que estavam do lado errado da “História”, a da redenção comunista da humanidade, fonte de um atroz totalitarismo?
A questão ganha ainda maior atualidade pelo fato de que a atual Comissão da Verdade deve terminar seu trabalho no final deste mês de dezembro. Padece ela da mesma parcialidade observada na Comissão da Anistia e, principalmente, de sua leitura ideológica da História do período.

Por que abominar, com toda a razão, a tortura e ser extremamente omissa quanto aos miolos e ao sangue de um oficial militar e à vida e amputação de membros de tantos outros? A “verdade” aplica­-se a alguns, e não a outros? Ou os “direitos humanos” só valem para os que estão do lado “certo” dos companheiros revolucionários? Fora estes, os demais não são humanos?

A discussão desse assunto é mais do que oportuna, porque o relatório a ser apresentado pela dita Comissão da Verdade volta à pauta pública. Estará igualmente em questão o que fazer com ele, sobretudo considerando que se trata de um trabalho que não seguiu o mínimo rigor de uma pesquisa histórica.

Apesar de alguns pontos positivos, como o do resgate do que aconteceu com o ex-­deputado Rubens Paiva, ele se caracteriza por uma orientação ideológica que o faz incapaz de retratar o que realmente aconteceu em tão importante período da História brasileira. Um retrato distorcido e deformado altera o objeto retratado.
Não é possível que seja levada seriamente em consideração uma pesquisa que privilegie a “História” ­ seguindo a visão dos que procuraram implantar no Brasil o totalitarismo comunista, avesso, por princípio, à democracia ­ em detrimento da História, retratando o que verdadeiramente ocorreu, tida por algo completamente secundário.

Uma verdadeira reconstituição dos fatos deveria voltar­-se para todos os lados envolvidos. Assim, sim, sob diferentes perspectivas, poder-se-­ia abordar a realidade de forma isenta. Da forma como foi feito, o relatório só propicia novos erros presentes e passados, em nada contribuindo para o futuro. Não podem as próximas gerações “aprender” ­ na verdade, “desaprender” ­ que a “esquerda” era “boa” por definição, enquanto a “direita” era visceralmente “malvada”.

Ademais, fugia igualmente do escopo dessa comissão qualquer proposta de revogação ou, eufemisticamente, de “reinterpretação” da Lei da Anistia, pedra basilar do País que se veio a formar como uma democracia a partir da Constituição de 1988. Trata-­se de uma espécie de contrato do Brasil consigo mesmo, cuja obediência enseja assumir compromissos passados, na plena adesão ao que foi politicamente acordado.

Espera-­se que o bom senso prevaleça e esse relatório seja meramente arquivado. É o País respeitando-­se a si mesmo.

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Sugestões de artigos complementares:

A ESPERANÇA E A FÁBRICA DE SOFRIMENTO.

http://goo.gl/QfPDbN

A ESQUERDA E OS CAMINHOS QUE SE BIFURCAM.

http://goo.gl/bQL5kY

DEMOCRACIA SOCIALISTA:

http://goo.gl/k8X4C9

Aviso sobre comentários:

Comentários contra e a favor são bem vindos, mesmo que ácidos, desde que não contenham agressões gratuitas, meros xingamentos, racismos e outras variantes que desqualificam qualquer debatedor. Fundamentem suas opiniões e sejam bem-vindos.

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18 comentários em “O GOLPE MILITAR E O RETROVISOR DA HISTÓRIA.

  1. Geraldo Villela
    04/08/2017

    Leia o artigo 142 da constituição, você vomita merda, esquerdista tentando defender o indefensável!!

    • Questões Relevantes
      04/08/2017

      “Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são
      instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes
      constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.”

      Observe que não há neste artigo qualquer previsão de intervenção militar a não ser que solicitada com fim específico pelo executivo, pelo legislativo ou pelo judiciário. O exército não pode se auto convocar para intervir, a não ser que rasgue a constituição, como em 64. O nome disto é GOLPE.

      • Geraldo Villela
        04/08/2017

        A pedido da população pode. Fato.

      • Questões Relevantes
        04/08/2017

        Encontre na constituição onde está escrito isto ou reconheça que você está enganado.

      • Geraldo Villela
        04/08/2017

        Se o país entrar em caos total, como tá entrando, o que você acha que será feito? Em uma guerra civil o que vai acontecer? Você sabe muito bem que estamos caminhando pra isso.

      • Questões Relevantes
        04/08/2017

        Não existe previsão constitucional para um governo militar. Eles podem intervir nas ruas, obedecendo ao presidente. Fora disso, é golpe.

      • Gabriella Dantas
        04/08/2017

        As Forças Armadas destinam-se à defesa da pátria e a garantia dos poderes constitucionais,ok.
        E quando estes poderes deixam de funcionar? E quando os governantes começam a massacrar o povo ? O presidente da República manda nas FFAA, mas o. POVO manda nas FFAA e no presidente! porque TODO O PODER EMANA DO POVO e para o povo!!! Se todo o povo sair aos milhões nas ruas e exigir uma INTERVENÇÃO nas esferas do governo, a voz do povo terá que ser ouvida!!!
        Quando o país entra em guerra civil, a constituição fica de lado e o que passa a valer é o código penal militar!!!

      • Questões Relevantes
        04/08/2017

        Gabriella Dantas , você pode achar isto lindo, épico, mas o nome disto é ruptura institucional, também conhecida como GOLPE. Trata-se de um sonho que acomete tanto a esquerda quanto a extrema direita. Se tiver tempo, leia:
        DEMOCRACIA DESACREDITADA: O PERIGOSO FLERTE COM O AUTORITARISMO.
        http://wp.me/p4alqY-Dt

      • Geraldo Villela
        04/08/2017

        Se é ruptura por parte do governo nada mais plausível que os militares tomem conta, correto, para garantir a ordem da nação, ou você acha que algum partido tem poder para isso? Acorda!

        Se você quer dar o nome de golpe, tudo bem, mas isso que tem que ser feito, fato.

      • Questões Relevantes
        04/08/2017

        O problema de sua lógica é que ela legitima ditaduras, sejam de direita (como a que você sonha) sejam de esquerda (como sonham seus antípodas).

  2. Antonio Renato Arantes Cançado
    04/02/2017

    Esta reunião de fato existiu, e sei de fonte mais que segura e fidedigna, que quem a convocou foi Leonel Brizola. Ele expôs a situação a Jango, e passou a palavra ao general Ladário, que informou que várias das unidades militares do RS estavam prontas para se levantar contra o golpe, e impor uma resistência que, quase certamente, levaria realmente a uma guerra civil. A situação no RJ já estava definida, mas a de SP ainda não. O general Amaury Kruel, comandante do IIo. Exército, e que havia sido ministro da Guerra de Jango, aguardava o desenrolar dos acontecimentos para se posicionar e ver de qual lado ficaria. Jango, então, informou a Brizola e ao general Ladário que um levante estava fora de questão, pois não queria ser responsável pelo derramamento de sangue que resultaria. Ao saber disso, o general Kruel tomou posição, e o resto é História.

    • Questões Relevantes
      04/02/2017

      Obrigado pela contribuição.

  3. Orlando
    06/26/2014

    É interessante ressaltar um ponto q foi apenas parcialmente desenvolvido aqui. Os exemplos de tomada por Comunistas, afora a União Soviética e a China, que se tinha na época eram a Coréia do Norte e Cuba. Os Americanos achavam que o Brasil se tornarem uma China Latino-americana. Com certeza um cenário bem assustador. Por esta ótica, uma ditadura militar relativamente branda, q incluiu um revezamento no poder, foi uma alternativa bastante aceitável.

    • Questões Relevantes
      06/27/2014

      Orlando, este é um terreno minado. Sou contra ditaduras, sejam de direita, sejam de esquerda. Mas sem dúvida me incomoda menos seu julgamento sobre a ditadura do passado do que o sonho da esquerda pela ditadura em nosso futuro.

  4. Matheus L. Brinhosa
    06/15/2014

    Ninguém entende o que é a ditadura do proletariado, Marx deveria ter colocado outro nome nisso. É verdade que em algumas experiências faltou/falta democracia, mas o plano soviético de democracia era superior ao ocidental, o governo seria o resultado final de eleições em conselhos de base (onde o candidato eleito não é só uma pessoa, mas uma proposta) e o eleito pode ser removido se não agradar os eleitores. Numa estrutura piramidal, de conselho em conselho, até chegar o que seria equivalente ao presidente, na pessoa do secretário geral. Stalin distorceu bastante isso, mesmo Lênin ficou aquém da sua vontade (por motivos históricos, de guerra e necessidade de austeridade, Brasil, Portugal, Espanha, e tantos outros países também eram ditaduras na época)

    E Cuba mantém um modelo que podemos chamar sim de democrático, para saber mais: http://www.youtube.com/watch?v=oZWz78D301c

    Para saber mais sobre a ditadura do proletariado: https://www.youtube.com/watch?v=NjjWnGFwPJk

    Democracia e liberalismo só se encontram recentemente, o liberalismo surge em países não democráticos à princípio, até pela necessidade de impor uma nova forma econômica (que nada tem de natural, apesar dos devaneios de alguns autores). Foi necessária a desapropriação das terras comuns, que havia desde o regime feudal, e também a desapropriação dos instrumentos de trabalho, para que pudesse haver alguém sem terra e sem meio de ganhar a vida disposto a vender a mão de obra. Esse processo inicial foi chamado de acumulação primitiva. A partir do momento que essa situação foi criada, foi possível contratar mão de obra e expandir o capital através do trabalho alheio.

    Este tipo de trabalho sempre consiste em exploração, mesmo que o patrão seja amoroso, mesmo que a remuneração tenha percentual nos lucros. E o valor não precisa ser valor-trabalho, até sob uma perspectiva de valor-subjetivo há exploração entre a diferença do produto gerado e o equivalente recebido. Sem contar que foi um período de livre-mercado, ainda que dentro de estados política e moralmente autoritários, as pessoas trabalhavam 16h por dia, mulheres e crianças também (a primeira lei de trabalho infantil na Inglaterra proibia apenas crianças menores de 9 anos de trabalhar). As pessoas morriam com a idade de cristo e tão pobres quanto iniciavam.

    Por isto, mas não só por isto, os empresários e os economistas liberais tinham verdadeiro asco da democracia. Foi um escândalo quando Bentham (1748-1832), um liberal utilitarista, defendeu o voto universal. Os empresários tinham certeza de que se houvesse voto universal, todos os privilégios de classe acabariam (porque os assalariados sempre são maioria, e só pode ser assim numa sociedade de pirâmide).

    Deste este primeiro momento, até a instituição real de um modelo com voto universal, foram muitas lutas, muitos mortos, e muitas conquistas. Os empresários também perceberam que podiam tratar seus funcionários como seres humanos, a exploração ficou com uma face mais humana. As instituições de ensino e religiosas, à princípio, deram sustentabilidade ao sistema capitalista quando a democracia surgia (atuando ideologicamente para justificar o capitalismo, “deus ajuda quem cedo madruga”…). E com a invenção do rádio, a propaganda de massas, se tornou possível ter voto universal e “manipular o consenso”, nas palavras de Eric Fromm.

    Então dizer democracia-liberal com naturalidade é, no mínimo, falta de conhecimento histórico. Sem contar que democracia não é uma palavra inequívoca, existem tradições: por mais que os conservadores, desde Tocqueville, Burke, Mosca, Schumpeter, e outros, achem que ela é essa escolha de representantes periódica, muitos autores que seguem a tradição mais clássica, grega, onde a democracia significa liberdade para opinar nas decisões na pólis e não liberdade na vida privada (segundo a distinção de Benjamin Constant de liberdade dos antigos e dos modernos); deste modo, os que seguem os gregos, seguem posteriormente Rousseau, que postula que numa democracia ninguém possa ser tão rico que possa comprar outrem, e portanto a democracia também é material. Essa tendência ganha força com Marx, que comprova não só o prejuízo que a propriedade privada do Capital trás para a democracia, mas também que o Capital é indubitavelmente uma construção coletiva e que portanto deveria ser gerido com participação de seus construtores. Até liberais percebem isto, e tradições inicialmente conservadoras de teoria política, como o pluralistas, já pensam que seria impossível uma democracia entre os grupos plurais se uns grupos tem muito mais poder econômico que outros. E mesmo liberais como Bobbio e Macpherson ampliam e trabalham na perspectiva de democracias mais participativas.

    Para saber mais sobre a conflituosa relação entre liberalismo e democracia: http://mpassosbr.files.wordpress.com/2013/03/bobbio-norberto-liberalismo-e-democracia.pdf

    • Questões Relevantes
      06/15/2014

      Prezado Matheus, seu comentário tem dois erros fatais: a idealização extremamente complexa de um sistema político destinado a falhar sempre, por desconsiderar a natureza humana (Leninismo); e uma defesa de governos em que as pessoas não possuem nem mesmo o direito de ir e vir (socialismo). Pode chamar isto de democracia, mas não é.

      Neste outro trecho, você leva ainda mais longe a simploriedade intelectual do debate, embora de forma aparentemente erudita: “Foi necessária a desapropriação das terras comuns, que havia desde o regime feudal, e também a desapropriação dos instrumentos de trabalho, para que pudesse haver alguém sem terra e sem meio de ganhar a vida disposto a vender a mão de obra. Esse processo inicial foi chamado de acumulação primitiva. A partir do momento que essa situação foi criada, foi possível contratar mão de obra e expandir o capital através do trabalho alheio.” Isto não passa de baboseira, como se fossemos fantoches do grande deus mercado. O mercado existe, mas não tem consciência ou plano divino, é a soma das ações individuais em um sistema de pressão e contra-pressão. Quem acredita em planos divinos são os seguidores da fé marxista. Aqui, dois artigos podem ser bons pontos de partida para entender melhor esta questão:
      ESQUERDA x DIREITA: A TEORIA DAS GAVETAS OU COMO NÃO CHAMAR URUBU DE “MEU LÔRO”.
      http://wp.me/p4alqY-a

      e DEMOCRACIA SOCIALISTA
      http://wp.me/p4alqY-3n

      Aproveitando citou Bobbio, penso que seria interessante ler também o artigo abaixo, que analisa o verbete DEMOCRACIA no dicionário de política que ele ajudou a organizar:
      http://wp.me/p4alqY-3B

  5. Álvaro Daniel
    05/09/2014

    Concordo: a reflexão sobre o golpe militar deve servir para reafirmar a importância da democracia, não para flertar com a “nostalgia” de uma frustrada ditadura de esquerda.

    Acredito que este trecho defina o beco sem saída de quem insiste em unir socialismo e liberdade, como se fosse possível conciliar os dois conceitos: “O raciocínio implícito no artigo de Flávio Aguiar é o seguinte: se a esquerda estiver empunhando os fuzis no pelotão de fuzilamento, a ditadura é justa. Se estiver sob a mira dos fuzis, é inaceitável. Para quem tem, como eu, a democracia como valor fundamental, esta postura não é eticamente ou filosoficamente defensável.”

    Por mais que criem frases de efeito e metáforas de libertação, a realidade insiste em desmentir este grande e persistente erro histórico e conceitual que chamam de marxismo. Basta olhar os desastres que foram as experiências práticas desta teoria.

  6. Flávia Alcântara
    04/09/2014

    Gostei do artigo “dois em um”. E gostei mais ainda da crítica direta e bem fundamentada a esta impostura moral da esquerda brasileira que vê todo o mal da ditadura dos generais, que é real, como você ressalta, mas não vê mal nenhum nas ditaduras dos camaradas. Mesmo depois de todos estes anos, eles não aprenderam nada.

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