Relativity

Desde que iniciei este blog, que explora o universo da teoria política, tenho batido constantemente em uma tecla: a necessidade de circunscrever o sentido das palavras.

Imagino que esta frase possa indicar certo ímpeto de censura ou controle. Esclareço: não é isto, absolutamente. Bebo em outra fonte.

Em sua aula inaugural no Colégio de França, Roland Barthes (que não tinha a titulação necessária para o posto, mas tinha todo o resto), diz, parafraseando explicitamente Jákobson, que a língua é fascista, não porque nos impede de dizer algo, mas porque nos obriga a dizer de certa maneira para que nos façamos entender. Para que fique mais claro, cito: “(…) a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”.

Barthes vê na literatura e no domínio da língua formal a alternativa para subverter este fascismo e ampliar o universo da linguagem. Mas se a literatura é o território deste combate, com suas metáforas abertas, com experimentações na pontuação, com criação de palavras ou a ampliação de significados, no campo da teoria política temos o oposto: a imprecisão não liberta, apenas confunde; não define, apenas manipula.

Este ponto salta aos olhos quando analisamos o conceito de DEMOCRACIA, por exemplo, como o fiz no artigo anterior.

Chegou a vez de chamar a atenção para o “choque de versões” da própria esquerda e de sua história. A imprecisão semântica e conceitual é, seguramente, um dos combustíveis para este caminhar trôpego e contraditório que assistimos, em que os caminhos se bifurcam e jamais chegam a lugar algum. É a versão léxica dos labirintos ilusórios que são presença constante na obra de Escher. A diferença é que lá os labirintos são desafios explícitos, são uma crítica ao racionalismo.

Vamos para exemplos práticos.

Até os mais desavisados conhecem algo do que foram os governos de Lenin e Stalin na ex União Soviética. Diante do desastre gerencial e humanitário, o conceituado intelectual americano Noam Chomsky saiu-se com a tese de que estes foram, na verdade, governos de direita, que suas ações foram contrárias às teses de esquerda. É evidente que para isto dá várias piruetas temáticas e uns mortais teóricos, mas a imprecisão é tudo nestas horas.

Com visão oposta e ainda mais cínica, temos o atualmente badalado Domenico Losurdo e seu livro “Stalin: História e Crítica de uma Lenda Negra” em que tenta resgatar o prestígio de um dos mais frios e virulentos assassinos da história. Contrariando o bom senso, seu esforço teve boa acolhida em vários círculos da esquerda. Felizmente, também colheu críticas, como a demolidora resenha do professor da USP Cícero Araújo, intitulada “O stalinismo recauchutado de Domenico Losurdo”. Cito aqui um parágrafo que sintetiza o absurdo: “E o que dizer do Terror que ceifa não só o que resta da velha guarda bolchevique, além de seus familiares, mas leva de roldão uma enorme quantidade de quadros políticos e técnicos, agora com prejuízos incalculáveis para a administração civil? E isso de modo ainda mais impressionante que os anteriores, pois que o expurgo, como estipulavam as famigeradas “ordens operacionais” do NKVD, se faz através de quotas, vale dizer, metas puramente quantitativas para as diferentes seções do partido espalhadas pelo país: não importa se inocentes ou culpados (de quê?), se leais ou não ao regime, o aparato repressivo deveria “produzir” um tanto de fuzilados, outro tanto de condenados a prisões mais ou menos longas, ou ainda a trabalhos forçados …”

Outra estrela da esquerda contemporânea é Slavoj Žižek, de quem Vladimir Safatle é porta-voz e porta-teses no Brasil. Pois bem, esta estrela contemporânea protagonizou uma virulenta polêmica com Noam Chomsky, estrela cadente para uns, cometa reluzente para outros. O fato é que ambos atribuem, um ao outro, certo charlatanismo explícito. Tendo a concordar com ambos: os dois defendem teses que só podem resultar em desastres. Não vou detalhar a polêmica, que tem uma boa síntese feita por João Alexandre Peschanski e que pode ser lida aqui.

Há diversas outras contradições e polêmicas, mas todas têm a mesma gênese: a imprecisão semântica e conceitual. Não há caminho certo quando se distorce o sentido das palavras, apenas bifurcações que não levam a nada. Quando passamos a respeitar o sentido das palavras, também teremos bifurcações, mas já não há labirinto.

Quem leu outros artigos deste blog ou o verbete DEMOCRACIA do “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino conhece a tese central: certos conceitos como liberdade de pensamento, de religião, de imprensa, de reunião, bem como o respeito aos direitos das minorias, pertencem ao campo da DEMOCRACIA LIBERAL (que engloba a social-democracia), sem exemplos práticos em outros sistemas políticos.

Ao tentar se apropriar destas bandeiras a esquerda consegue sucessos imagéticos e marketeiros, mas falha no campo prático, porque conflitam com suas teses centrais.

Querem um exemplo? Quando a esquerda fala em igualdade, parece uma coisa bacana, mas como nos lembra Barthes e o fascismo da língua, isto significa a eliminação da diferença e, quase sempre, do diferente também.

Quando fala em liberdade, fala em abrir mão da liberdade individual (de empreender, por exemplo) em prol da “liberdade coletiva”, um ente mítico se a liberdade individual foi suprimida.

Quando fala em fraternidade, fala em apoio mútuo entre iguais (de classe e/ou ideologia), mas em guerra sangrenta com os desiguais (qualquer um que não reze por sua cartilha).

Não me iludo: a esquerda, ou melhor, as diversas esquerdas, continuarão com este ilusionismo semântico. Se parasse de torcer e torturar o sentido das palavras, certamente perderia boa parte de seu charme e teria menos adeptos desavisados.

Outro efeito colateral seria tornar mais fácil e confortável para muita gente escapar desta irmandade “cool” e de sua metafísica influente para dizer, com todas as letras: não sou de esquerda.

Como sabemos que a mudança é improvável, deixo uma dica: seja fiel ao sentido das palavras. Se realmente acredita na importância dos direitos individuais, da liberdade de expressão, da alternância de poder sem ruptura institucional, se defende o respeito aos direitos de maiorias e minorias, se valoriza a administração pacífica de conflitos, saiba: você não é de esquerda. Pode ser até um social-democrata, mas, se as palavras fazem sentido, de esquerda não é.

Artigo de Paulo Falcão.

Notas:

Sugestões de links complementares: “Democracia socialista”:

https://questoesrelevantes.wordpress.com/2014/03/02/democracia-socialista-e-o-saci-perere-da-ciencia-politica-nao-passa-de-folclore/

“Teoria das Gavetas”:

https://questoesrelevantes.wordpress.com/2013/12/12/esquerda-x-direita-a-teoria-das-gavetas-ou-como-nao-chamar-urubu-de-meu-loro/
Segue link para a íntegra do Dicionário Político: http://www.4shared.com/office/XskicYK2/dicionario_de_politica_-_norbe.html

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