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COMO O MARXISMO ATRAPALHA A VISÃO (E A ÉTICA).

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O debate entre a marxista e titulada professora Maria Ribeiro do Valle e este livre pensador revelou, mais uma vez, a miopia e o caráter totalitário das ideias “de esquerda”, bem como a baixa capacidade de defender seus pontos de vista sem distorcer os fatos e a história. Coloco a frase no plural porque a professora faz parte do grupo de curadores que organizou o “Dossiê Hannah Arendt” e contou com apoio dos organizadores do blog marxismo21 às suas respostas. A íntegra do debate ficou um tanto longa e pode ser lida aqui. Abaixo, segue um resumo da ópera com trechos de minha última resposta, que eles censuraram (está documentado).

(…) Comecemos novamente por desfazer um mal-entendido: o socialismo, a ditadura do proletariado pode ser observada e estudada em sua forma teórica e prática. Pode ser tratada como ciência. O que pertence ao campo da fé (em Marx e suas ideias) é o comunismo, esta terra prometida em que não haverá mais a necessidade de ditaduras ou mesmo do estado, porque os desejos estarão em consonância. Esta é a miragem, a utopia contida no tal “dia em que todos os homens concordem”.

Quanto a suas postulações gerais sobre Hannah Arendt, vejamos alguns pontos. Ainda no primeiro parágrafo você diz: “Arendt é herdeira da concepção política advinda da tradição grega que considera a política como esfera da excelência, dela excluindo a participação de todos aqueles que pertencem ao reino da necessidade”. Deste ponto até o final do segundo parágrafo, seu esforço é ressaltar o caráter elitista e excludente das ideias arendentianas. Não vou me demorar em apontar possibilidades diferentes de interpretação aqui ou ali, vou dar como certa sua conclusão. Pois bem, me responda então: o que é a ditadura do proletariado se não alguns intelectuais assumindo o poder, para exercê-lo em nome do povo, enquanto os disciplina, enquanto os ensina a “pensar certo” e elimina quem insistir em pensar diferente? No fim, a (enorme) diferença é que em regimes democráticos a luta por direitos, a reivindicação, é mais do que tolerada: pode ser com suor, lágrimas e sangue, mas traz resultados, como ocorreu nos EUA com o movimento negro nos anos 60 e 70, para ficarmos no caso em questão – e com um presidente negro na Casa Branca.

Quanto ao terceiro parágrafo de seu texto, preciso dizer: forçou-se um bom tanto “a barra”. A insinuação de que Hannah Arendt endossa o trabalho escravo e que “quando defende a elaboração de leis, a criação de organismos políticos seguindo a experiência da “Revolução” Americana, ela também está legitimando uma Constituição que institucionaliza a escravidão” é ignorar o óbvio: a revolução americana (e sua constituição) é modelar porque traz consigo a possibilidade de reciclar-se, adaptar-se, evoluir. Arendt não discute um país escravocrata, mas um país que fez uma guerra civil para acabar com a escravidão. Mais do que isto: um país em que as pessoas lutam e conquistam direitos. Este é o aspecto modelar. Ou seja, “Arendt pensa no espaço de reivindicação e luta por direitos dentro do estado democrático e de direito, para aperfeiçoá-lo, para incluir atores no jogo político” como disse anteriormente.

Outra afirmação sua que merece reparo é que “ mesmo para os pensadores liberais o Estado é em princípio o monopólio da força”. Considerando que não se trata de erro de redação e que você quis mesmo dizer o que ali está escrito, o equívoco está no verbo e na falta de um adjetivo. O correto é: “o estado, em princípio, TEM o monopólio LEGAL da força. Isto faz toda a diferença. Para o liberal, o Estado não é a força, mas um poder de regulação das diversas tensões inerentes à atividade humana em grupos. Isto ocorre com ou sem democracia (e nas democracias este poder é bem melhor regulado e mais contido).

Finalmente, chegamos à síntese de tudo que discutimos, contida neste trecho de seu texto, que revela com maior clareza o antagonismo entre as ideias de Hannah Arendt e o marxismo: “Assim busco mostrar como segundo o pensamento humano tanto ocidental como Oriental, a violência é inerente não apenas à natureza humana como à esfera política desde o “início dos tempos”. As interpretações de Hegel e de Marx sobre a questão social, inserindo-a na esfera política, remetem diretamente à construção do conceito universal de homem e de uma filosofia da história que admite a necessidade da transformação social e da utilização da violência para tanto. Há uma contradição social diante da qual não há resolução que não seja a força, a violência. (…) A tradição hegeliano-marxista que legitima a Revolução Francesa, ao contrário de Arendt, que implica na transformação violenta da sociedade, fenômeno fundamental para a conquista da autonomia e da racionalidade do indivíduo.”

Traduzindo em miúdos o que afirmou acima: para você e outros marxistas, é melhor a ditadura certa do que a democracia errada.

(Veja que curioso: esta frase também pode ser usada sem qualquer retoque de redação e se coaduna perfeitamente com a ideologia de alguém da extrema direita).

No entanto, após assistir aos horrores do nazismo e do socialismo, após ver tanto sangue ser derramado, a violência deixou de ser uma alternativa para Hannah Arendt. Ao assumir a democracia e o estado de direito como valor fundamental, a ideia contida nesta frase é, efetivamente, o mal banalizado.

Atenciosamente, Paulo Falcão.

Segue o link para a íntegra do “Dossiê Hannah Arendt”:

http://marxismo21.org/hannah-arendt/

NOTA:

Para quem deseja se aprofundar no tema, sugiro este artigo que analisa o verbete DEMOCRACIA do  “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino

https://questoesrelevantes.wordpress.com/2014/03/12/quando-a-patrulha-ideologica-compromete-a-logica/

A frese citada por mim sobre o comunismo ser uma questão de fé e não científica foi este: https://questoesrelevantes.wordpress.com/2014/01/24/do-socialismo-ao-comunismo-uma-questao-de-fe-2/

Foto por Lehmann Maupin, Alan Teo, Eric Harvey Brown, CamWall de escultura de artista coreano Do Ho Suh

Aviso sobre comentários:

Comentários contra e a favor são bem vindos, mesmo que ácidos, desde que não contenham agressões gratuitas, meros xingamentos, racismos e outras variantes que desqualificam qualquer debatedor. Fundamentem suas opiniões e sejam bem-vindos.

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12 comentários em “COMO O MARXISMO ATRAPALHA A VISÃO (E A ÉTICA).

  1. Genival Lima da Silva
    08/17/2016

    Sofisma e negação da verdade histórica, a partir do momento em que se absolutiza aquilo que, pela própria circunstância, deveria ser considerado como relativo… Ao sabor do analista, confunde-se deliberadamente stalinismo com socialismo… isso é por demais velho, tornando textos como este, o tetra-neto do anticomunismo rasteiro, além de extemporâneo…

    • Questões Relevantes
      08/17/2016

      Genival, eu não confundo Stalinismo com Socialismo. Aliás, para boa parte da esquerda nem existe stalinismo, o que Stalin aplicou foi marxismo-leninismo. Mas o ponto que desmonta sua argumentação é que simplesmente não existe exemplo virtuoso de governo de esquerda. Todas as experiências resultaram em totalitarismos. Logo, o adepto do sofismo não sou eu, é você. Além disso, não há nada de extemporâneo já que o debate se deu em função da publicação de um “Dossiê Hannah Arendt” pelo site Marxismo XXI.

      • Genival Lima da Silva
        08/17/2016

        Cara tu não sabe perder mesmo, né? Por que tu não muda o nome para “Sofista Relevante”… Vou abdicar do direito de mandar você se foder, em respeito aos demais…

        Já que nem a cara tu mostra?…

      • Questões Relevantes
        08/17/2016

        Genival, sua falta de argumentos seria comovente se você fosse um ignorante. Como é só um idiota prepotente, não tenho dó nenhuma.

      • Genival Lima da Silva
        08/17/2016

        aaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii que meda… Não sei porque, mas tenho a impressão de que você gosta de agasalhar…

      • Questões Relevantes
        08/17/2016

        Você continua afundando. Tenha um pouco de amor próprio.

      • Geraldo Mirabeau
        08/17/2016

        Típico de esquerdopata… E ainda por cima homofóbico!

  2. Questões Relevantes
    10/15/2014

    Recentemente publicamos outro post, sobre artigo do professor emérito da USP, Ruy Fausto. Nele encontramos muitas pontes conceituais com o que defendemos por aqui, demonstrando que nossa base teórica é bem fundamentada, apesar de várias alegações em contrário. Neste artigo, ele afirma algo que defendemos desde o primeiro artigo que publicamos: “o “comunismo” foi no passado, e continua se definindo como, um totalitarismo.”
    Vale à pena ler: DISCUSSÃO PARA POUCOS, CONSEQUÊNCIAS PARA MUITOS.

    https://questoesrelevantes.wordpress.com/2014/09/19/discussao-para-poucos-consequencias-para-muitos/

  3. Homero Amaral
    02/27/2014

    Acho, digo acho, pois sou leigo, que seria mais relevante e atual a discussão sobre a ação do Estado Democrático na forma dele conduzir a economia, ou seja onde ele deve interferir ou se omitir. Assim seria, ao meu ver, mais relevante discutir o que seria mais eficiente : liberalismo ou keynesianismo, ou outra teoria, que realmente tornasse o Brasil uma verdadeira democracia, pois escolher seus representantes através do voto, ter um arcabouço legal democrático (não marxista, diga-se de passagem) não basta,pois não temos uma justa distribuição de renda, uma distribuição de justiça satisfatória, nem educação pública de qualidade, mobilidade social acessível a todos, atendimento à saúde eficaz, etc. As últimas citações se referem às reivindicações das manifestações – que considero legítimas – de junho de 2013.

    • Questões Relevantes
      02/27/2014

      Prezado Homero, seu comentário traz dois blocos distintos.

      Com o primeiro, concordo: seria mais relevante não apenas este espaço, mas o Brasil discutir as diferentes teses do liberalismo econômico com o objetivo de aumentar a eficiência da economia na geração de empregos, na capacidade de competição global e na distribuição de renda (esta última quase sempre através de uma gestão responsável dos impostos arrecadados).

      Do segundo, discordo: a ideia de que não temos uma verdadeira democracia porque que não temos uma justa distribuição de renda, uma distribuição de justiça satisfatória, nem educação pública de qualidade, mobilidade social acessível a todos, atendimento à saúde eficaz, etc é uma armadilha retórica que traz subjacente a conclusão de que não temos uma democracia, mas sim uma ditadura, o que nos leva de volta ao velho papo marxista de que minha ditadura é melhor que a sua.

      A democracia é, por definição, uma obra em processo. A cada conquista, surgem novas demandas. Mesmo neste período relativamente curto da democracia brasileira pós-golpe militar é inegável que houve avanços na conquista de direitos por maiorias e minorias. Isto não quer dizer que está bom. Quer dizer apenas que a democracia, do ponto de vista legal e prático, traz nela o direito de reivindicar, de protestar, de exigir mudanças, de alternância de poder – tudo isto sem ruptura institucional e com a maioria vencedora tendo que respeitar os direitos das minorias derrotadas.

      É preciso melhorar? Evidentemente. Temos uma verdadeira democracia? Por enquanto, sim.

      Espero que as teses que podem ser lidas nos sites de partidos como PT, PSOL e PSTU não prosperem e acabem com esta desprezada democracia brasileira.

  4. Homero Amaral
    02/26/2014

    Francamente! Discutir marxismo depois da queda do muro de Berlim é uma batia perda de tempo. Abs

    • Questões Relevantes
      02/27/2014

      Sempre foi perda de tempo, porque a ideia já nasceu errada. No entanto, continua causando muitos problemas nas escolas, nas universidades, na política e nos corações e mentes desavisados. Demonstrar o engodo Marxista é resistir ao progressivo emburrecimento do debate filosófico e político.

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