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No primeiro e longo artigo que escrevi para este blog, ESQUERDA x DIREITA: A TEORIA DAS GAVETAS OU COMO NÃO CHAMAR URUBU DE “MEU LÔRO” incluí um post scriptum que agora revisito. Diante de algumas polêmicas que ganharam relevância ultimamente, achei oportuno dar nova e maior visibilidade a ele, de maneira autônoma.

Segue abaixo artigo que teve origem nos comentários do Professor Ruy Fausto na edição de número 6 da revista “Fevereiro” sobre o livro “Uma esquerda que não teme dizer o seu nome” de Vladimir Safatle que lhe fora enviado pelo autor.

Título do artigo na revista Fevereiro:

“Na sequência do meu texto “Esquerda/Direita: em busca dos fundamentos e reflexões críticas”, e do seu post scriptum (Como uma resposta a Vladimir Safatle)” por Ruy Fausto,  Revista Fevereiro Número 6.

(…) qualquer que seja a seriedade do debate, o principal não está no debate, mas nos textos e na teoria de base; (…) Começo pelos aspectos mais propriamente polêmicos, centrados sobretudo em Uma esquerda que não teme dizer o seu nome. (…) A resposta de Vladimir, embora erudita, na aparência pelo menos, é bastante agressiva. (…) Lá eu apareço (mesmo se não literalmente) como arcaico, também como infantil (isto literalmente), e alguns dos meus argumentos são postos em paralelo com os de gente de extrema-direita…

(comentário meu, não de Ruy Fausto: Vladimir Safatle fez exatamente o que afirmo ser a tática número 1 da esquerda: desqualifica o discurso acusando o oponente de práticas análogas a de críticos da extrema direita. Mas retomemos o artigo de Ruy Fausto).

(…) De que se trata? Ao falar da experiência do século XX, Safatle bate principalmente num tema e num argumento amplamente utilizado pela dupla Zizek/Badiou. A de que uma ideia “precisa inicialmente fracassar para posteriormente se realizar” (ETDN, p. 84, cf. p. 62). E de que portanto, é preciso tentar de novo. O tema, de fato, está muito presente em Alain Badiou e Slavoj Zizek. Eles invocam um texto famoso de Beckett, que Safatle utiliza como epígrafe em um dos seus livros. Zizek serve-se do texto para pensar o que seria a situação atual das lutas revolucionárias na sua relação com o passado, isto é, para com o comunismo dito real. Mas o que importa aqui é que, ao apelar ao “falhe de novo, erre melhor”, Zizek acaba estabelecendo com isso, queira ele ou não (na realidade, ele quer), uma espécie de continuidade de fato e de direito entre o totalitarismo maoista-stalinista e as tarefas do presente; o que tem o efeito de limpar, a barra, mesmo se parcial ou contraditoriamente, desse mesmo totalitarismo. De fato, quem diz tentemos “de novo” e “melhor”, mesmo se reconhecendo com isso que houve fracasso, estabelece uma linha de continuidade entre o passado comunista e o que deveria ser a esquerda no presente. Mas, o que escreve Safatle?: “(…) valeria a pena perguntar se aqueles que desqualificam o século XX como era da violência desmedida em nome do novo estariam dispostos a responder a uma questão fundamental, a saber: quantas vezes uma ideia precisa fracassar para poder se realizar? A efetivação de uma ideia nunca é um processo que se realiza em linha reta. Por exemplo, durante séculos, o republicanismo foi considerado um retumbante fracasso. Ser republicano no século XIII significava defender uma ideia que havia apenas produzido catástrofes e o enfraquecimento do Estado. Hoje, dificilmente encontraremos alguém para quem o republicanismo não seja um valor fundamental. Ou seja, o republicanismo precisou fracassar várias vezes para encontrar seu próprio tempo, para forçar o tempo a aproximar-se de sua realização ideal. Isso apenas demonstra como, graças à internalização de seus fracassos, ao fato de ela ter aparecido ‘cedo demais’, a ideia pôde efetivamente se realizar” (ETDN, p. 62, grifo de RF) .

Retomo aqui este post scriptum. Na sequencia do artigo, o Professor Ruy Fausto demole de forma bastante erudita e fundamentada as teses de Safatle (o link está no final). Quanto a mim, limito-me a apontar os absurdos que saltam aos olhos.

Observemos que os textos de referência sobre o republicanismo, como nos demonstra Cícero Romão Resende de Araújo em “A Forma da República – Da constituição mista ao estado”, permanecem atuais e conceitualmente corretos ao refletir e pregar o poder sujeito a regulação que iniba ou controle impulsos autoritários. É certo que se trata de um equilíbrio relativamente frágil, uma “construção civilizadora” que muitas vezes já foi demolida pela barbárie totalizante (mas que renasce pela força de seus fundamentos). Repúblicas e democracias também não são as formas mais ágeis em tempos de guerra ou crises agudas. Estes “defeitos” são reais, mas a comparação de Safatle é mera ignorância (na hipótese benigna) ou picaretagem. Ao fazer esta comparação, esquece (propositalmente?) o fundamental: as teses que sustentam o conceito de república vão na direção da administração permanente de conflitos e tensões inerentes à atividade humana através de um sistema de distribuição de poderes que atuam de forma independente e complementar ao mesmo tempo. Já as teses que Safatle tem como “missário” não só negam as ideias centrais no conceito de república (que ele muito sonsamente quer fazer crer respeitar) mas também professam o equilíbrio pela força do porrete. A força do porrete não requer muitas explicações, basta olhar para as experiências de totalitarismos do século XX, como Leninismo, Stalinismo, Maoismo, Nazismo e Fascismo, entre outras ainda mais radicais. No entanto, o conceito de República, ou republicanismo, é menos conhecido e exige alguma explicação. Mas antes de entrarmos no conceito de república, acho conveniente evidenciar o erro primário de Vladimir Safatle ao afirmar que “Ser republicano no século XIII significava defender uma ideia que havia apenas produzido catástrofes e o enfraquecimento do Estado”. Como alguém que se diz intelectual e atua nesta área pode “esquecer” as experiências de Esparta e de Roma, por exemplo. Foram fracassos? Em que termos? Comparados com o que? Mas vamos adiante.

Para ficar mais claro o engano ou engodo de Safatle, vejamos o que nos diz logo a abertura de “A Forma da República – Da constituição mista ao estado” de Cícero Romão Resende de Araujo: “Este livro é um estudo sobre a forma política. Suas balizas fundamentais são os conceitos de constituição Mista e Estado, ambos associados à longa busca da inteligência política por um padrão adequado de convívio humano: a república. (…) Assim, entende-se a república não como um objeto empírico perfeitamente decantado, mas como um conjunto de práticas no qual seres humanos investidos de um determinado papel, o de “cidadãos”, orientam suas ações para promover certos valores comunitários, entre os quais a liberdade, a igualdade, o império da lei e a própria participação política. (…) Essas práticas nunca são exatamente o que deveriam ser, mas também nunca deixam de remeter a concepções a respeito do que o mundo social é capaz de gerar – ou seja, a visões do campo de possibilidades da ação humana, incluindo a capacidade de realizar os valores a que as práticas visam. No fundo, toda prática constitui uma tensão entre o que é, o que deve ser e o que é possível. Como a tensão ocorre numa certa estrutura de tempo e espaço, seu significado concreto varia de acordo com a concepção dessa estrutura implícita na respectiva forma política (…). De qualquer modo, segurar essa tensão, nunca deixando que ela relaxe e finalmente se reduza à mera acomodação ao que aí estiver, é o que empresta dignidade à forma política. E a república é o nome que se dá a essa dignidade.”

Para fechar a crítica desta comparação infeliz de Safatle, lembro, parafraseando a última frase do parágrafo anterior, que o nome que se dá ao que resulta das ideias do próprio Vladimir Safatle, de Zizek e Bideou é totalitarismo, sem qualquer dignidade. A proposta que defendem, contida no “falhe de novo, erre melhor” pode funcionar para alguém estudando para uma prova, ou se preparando para uma tarefa, em departamentos de pesquisa e desenvolvimento ou até como frase de incentivo em curso de autoajuda, mas aplicada às causas defendidas pelo trio, nada mais é que uma tara autoritária de funestos resultados a cada tentativa. Há uma variante deste conceito utilizada pelos rappers americanos para justificar ações criminosas de toda ordem: “fique rico ou morra tentando”. É boçal, mas não é covarde. Mas a turma de Vladimir Safatle, Alain Badiou, Slavoj Zizek e congêneres certamente não gosta deste tal “morrer tentando”, o negócio deles é “matar tentando” (o que lhes falta é a oportunidade, felizmente).

Artigo de Paulo Falcão

Segue o link para o fundamental artigo de Ruy Fausto http://www.revistafevereiro.com/pag.php?r=06&t=07

NOTA: Para quem deseja se aprofundar no tema, sugiro este artigo que analisa o verbete DEMOCRACIA do  “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino

https://questoesrelevantes.wordpress.com/2014/03/12/quando-a-patrulha-ideologica-compromete-a-logica/

 

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