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DÚVIDA EXISTENCIAL: SER DE ESQUERDA É SER NAZISTA? OU: A TURMA QUE NÃO LEU E NÃO GOSTOU.

livros queimando

Nos diversos grupos de debates na internet não há ninguém mais odiado que o Olavo de Carvalho. É perfeitamente justo e aceitável ler um artigo e discordar radicalmente de suas teses, mas não é este o caso. A grande maioria que o odeia é composta de pessoas com uma curiosa atitude: NÃO LEU E NÃO GOSTOU. Simples assim. Recentemente um grupo predominantemente de esquerda discutia sobre Nazismo e eventuais diferenças e semelhanças com o socialismo, repudiando totalmente esta proximidade. Propus a leitura de um artigo com uma breve citação deste odiado personagem e imediatamente começou uma chuva de agressões gratuitas. As agressões eram contra Olavo e contra quem o tivesse lido!

Eu e outro debatedor, Victor Chamum, nos esforçamos para que alguém lesse o texto e apontasse seus erros, suas inconsistências. Nada. Insistimos. Nada além de impropérios. Depois de muitas ofensas, uma debatedora pergunta:

“Agora, uma dúvida: não estávamos falando sobre nazismo?”

Foi a melhor pergunta possível naquele momento, pois me permitiu formular uma resposta que sintetizava tanto o tema em discussão quanto as práticas que os diversos debatedores adotavam.

Segue a resposta:

“Sim, estávamos e estamos falando sobre nazismo, e de uma maneira que se revelou bastante didática em relação à espinha dorsal do tema. 

Uma das práticas tradicionais do Nazismo é queimar livros, queimar ideias discordantes. É o que várias pessoas estão fazendo aqui, simbolicamente, com Olavo de Carvalho. 

Num dos textos que sugeri, de Eça de Queiroz, lê-se: “Mas que diremos do movimento na Allemanha? Que em 1880, na sabia e tolerante Allemanha, (…) é realmente a uma perseguição de judeus que vamos assistir, das boas, das antigas, das Manuelinas, quando se deitavam á mesma fogueira os livros do Rabbino e o proprio Rabbino, exterminando assim economicamente, com o mesmo feixe de lenha, a doutrina e o doutor.” 

Ora, neste grupo temos vários praticantes desta ancestral arte de eliminar o discordante, e curiosamente são todos de esquerda.  Fica comprovada assim, de forma muito clara, a proximidade entre práticas socialistas e nazistas no quesito intolerância, o que, aliás, também foi observado por Hannah Arendt em escala muito maior.”

É por esta razão que o odiado Olavo de Carvalho, em “A verdadeira direita” diz: “o que há de mais radicalmente oposto ao socialismo é a democracia liberal. Esta é a única verdadeira direita. É mesmo a extrema direita: a única que assume o compromisso sagrado de jamais se acumpliciar com o socialismo.”

Para encerrar, lembro que a prática da eliminação do discordante, do dissidente, do “opressor” é comum aos totalitarismos, sejam de esquerda, sejam de direita. A questão, portanto, é: por que mesmo diante de sintomas tão eloquentes, muitos “doutores” não os reconhecem? Mais ainda: porque continuam prescrevendo intolerância onde deveriam prescrever simplesmente democracia?

Alguém se habilita a explicar?

Artigo de Paulo Falcão.

PS – A citação recomendada no debate foi esta:  “a diferença de esquerda e extrema esquerda é de graus e de meios, a de direita e extrema direita é de natureza, de fins e de valores.

O esquerdista torna-se extremista quando quer realizar, por meios revolucionários e violentos, o mesmo que a esquerda moderada busca fazer devagar e pacificamente: a expansão do controle estatal na economia, visando à debilitação e, no fim, à extinção da propriedade privada dos meios de produção.

Totalmente diversa é a relação entre direita e extrema direita. Ser de direita, ou liberal, é ser a favor da economia de mercado, das liberdades civis e da democracia constitucional (a versão conservadora defende essas mesmíssimas políticas, mas o faz em nome da tradição judaico-cristã, que para o liberal não significa grande coisa). Se por extrema direita se entende aquilo que o vocabulário corrente e a esquerda em especial designam por esse nome, isto é, o fascismo e o nazismo, o fato que estou assinalando salta aos olhos da maneira mais clara e inequívoca: ser de extrema direita não é querer mais economia de mercado, mais liberdades civis, mais democracia constitucional — é querer acabar com essas três coisas em nome da ordem, da disciplina, da autoridade do Estado, às vezes em nome do anticomunismo, do combate à criminalidade ou de qualquer outro motivo. Não houve um só governo conhecido como de extrema direita que não fizesse exatamente isso. A conclusão é óbvia: passar da esquerda à extrema esquerda é somente uma intensificação de grau na busca de fins e valores que permanecem idênticos em essência. Passar da direita à “extrema direita” é mudar de fins e valores, é renegar o que se acreditava e, em nome de alguma urgência real ou fictícia, empunhar a bandeira do que se odiava, se desprezava e se temia.”

A verdadeira direita: http://www.olavodecarvalho.org/semana/verdadireita.htm

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2 comentários em “DÚVIDA EXISTENCIAL: SER DE ESQUERDA É SER NAZISTA? OU: A TURMA QUE NÃO LEU E NÃO GOSTOU.

  1. Chrystian Mariana
    02/23/2014

    Sobre a intolerância:
    A prática da intolerância diz respeito a governos intolerantes, ou pelo menos que não querem nenhuma possibilidade subversiva. Até as aclamadas democracias liberais como a americana passam por estes momentos, já foram proibidos não só livros mas também símbolos, grupos. Às vezes a chamada “democracia” só não aparenta agir desta forma porque se expandiu tanto que sua cultura e ideologia já foram assimiladas pelas pessoas sem questionamento. Mas se houvesse qualquer risco de subversão, elas seriam as primeiras a cometer todo tipo de opressão e terror para impedir. Portanto, o uso deste tipo de argumento é uma forma de “argumento contra a pessoa”, pois desvia seu foco das ideologias e teses para atacar o que governantes fizeram.

    Sobre o Olavo:
    Isso é comum do comportamento de massa. Se você for em uma comunidade onde a maioria é de direita ou fascista, ocorre a mesma coisa se você falar “Marx”.

    • Questões Relevantes
      02/23/2014

      Chrystian Mariana gosto de suas participações, mas continuo discordando de suas posições (que desta vez estão um pouco confusas). As sociedades humanas são, de fato, cheias de conflitos, contradições, lutas, disputas etc. Ocorre que, de todas as soluções já idealizadas e testadas para lidar com estas características, a democracia é o melhor “acordo social” que a civilização conseguiu elaborar. Como expliquei em outro artigo (inspirado em um comentário seu) “a democracia é o único sistema político que, ao realizar um governo resultante da vontade da maioria, respeita o direito das minorias. Mais do que isso: é o único sistema político em que grupos têm o direito constitucional de confrontar ideias dominantes e pleitear direitos.” (DEMOCRACIA PARA QUE, POR QUE E PARA QUEM?).

      Quanto à sua justificativa para a atitude de certos grupos para com o Olavo de Carvalho e outros “direitistas”, é totalmente furada. Se não há nada de errado em LER E NÃO GOSTAR, está TUDO ERRADO em NÃO LER E NÃO GOSTAR.

      Quando entro nos grupos de discussão, não procuro quem concorde comigo, mas quem divirja, quem me obrigue a pensar mais, a olhar por ângulos diferentes. Esta é a verdadeira riqueza do debate de ideias. Por exemplo, eu entrei em um blog chamado marxismo21 e li vários artigos de um “Dossiê Hannah Arendt” que eles organizaram. DEPOIS DE LER fiz comentários críticos e iniciei um debate teórico com a autora de dois dos artigos, a professora doutora Maria Ribeiro do Valle. O resultado deste debate ficou interessante e virou o artigo SABE COM QUEM VOCÊ ESTÁ FALANDO? DEBATE ENTRE A IDEOLOGIA MARXISTA E A LÓGICA LIBERAL.

      Percebeu a diferença?

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