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A terminologia esquerda X direita é precisa quando indica posição geográfica em relação a um marco qualquer, ou na morfologia. No entanto, em ciências humanas, principalmente no Brasil, é cada vez mais uma simplificação pouco inteligente das teorias e da realidade para sequestrar a racionalidade do discurso (e das práticas) políticas e econômicas. Se em sua origem, na revolução francesa, fez sentido, certamente tal sentido se perdeu e há necessidade premente de redefini-las à luz dos sóis ideológicos, pondo tudo às claras, dentro dos marcos teóricos que definem cada uma das principais categorias do espectro político. Este é o caminho para a desconstrução da armadilha a que foi reduzida a questão.

Para que possamos discutir um assunto qualquer com alguma propriedade, com honestidade intelectual, é fundamental definir o sentido das palavras, dos conceitos. Quando o assunto envolve palavras e conceitos que funcionam como um caminhão baú em que vão se acomodando diversos adjetivos de uso intercambiável e significado genérico, tal necessidade se torna inescapável para quem quer clareza e liberdade de pensamento.

Que esta simplificação emburrecedora aconteça no embate político partidário é triste mas compreensível, uma vez que os grandes movimentos políticos (de todos os matizes) tratam “o povo” como massa de manobra lhes acenando com um futuro glorioso (e isto se faz com um discurso simplista, maniqueísta, ciente de que “o povo” é pouco afeito a sutilezas). No entanto, em ambiente universitário tal prática é um reducionismo tosco do qual não pode sair nada de bom.

A TEORIA DAS DUAS GAVETAS

O primeiro passo para libertar a razão desta caverna ideológica é desconstruirmos a prática de baixa sofisticação a que chamo de “teoria das duas gavetas”. Não sei se a nomenclatura (ou figura de linguagem) é original, mas a critica em si certamente não é. Ludwig von Mises, economista e filósofo que se refugiou nos EUA fugindo do nazismo disse em “Intervencionismo, uma Análise Econômica” (1940): “A terminologia usual da linguagem política é estúpida. O que é esquerda e o que é direita? Por que Hitler é de ‘direita’ e Stalin, seu amigo e contemporâneo, de ‘esquerda’? Quem é ‘reacionário’ e quem é ‘progressista’? Reação contra políticas pouco inteligentes não deve ser condenada. E progresso em direção ao caos não deve ser elogiado. Nada deve ser aceito apenas por ser novo, radical, e estar na moda.”

Hoje há duas correntes básicas que fazem uso desta simplificação nociva. Na primeira, prevalecente nas ciências humanas, principalmente no Brasil, a “gaveta da esquerda” abriga progressistas, ambientalistas, democratas, socialdemocratas, socialistas, comunistas, anarquistas, movimentos populares, movimentos por liberdades civis e secularistas. Na “gaveta da direita” estão conservadores, reacionários, fascistas, nazistas, capitalistas, neoliberais, liberais (estes três últimos como sinônimos de reacionários e/ou fascistas), grupos religiosos, meritocratas, monarquistas, “a mídia”, “a elite” e a famigerada classe média. Posto desta forma, a batalha já está ganha pela esquerda, uma vez que evidentemente praticamente detém o monopólio das virtudes, enquanto à direita sobram as iniquidades. É claro que, além de reducionista, tal divisão é absolutamente falsa.

A segunda corrente é rara na academia brasileira, mas quando surge ganha visibilidade, muitas vezes até como estratégia de luta da primeira, a denunciar a “intolerância da direita”. Para esta, a “gaveta da direita” guarda o respeito à propriedade privada (dos meios de produção), ao estado democrático e de direito, empreendedores, meritocracia, desenvolvimento sustentável, neo conservadores, direitos e liberdades civis. Na “gaveta da esquerda” estão o não reconhecimento das leis que balizam o “estado burguês” e a propriedade privada, comunistas, socialistas, anarquistas, centrais sindicais e movimentos sociais que promovem invasões e ocupações na cidade e no campo. Embora menos reducionista, esta divisão é igualmente falsa, ou insuficiente.

Proponho reduzir o problema aumentando o número de gavetas para que possamos redistribuir os conteúdos segundo critérios objetivos ditados pelas teses de referência de cada uma das categorias.

CINCO GAVETAS IDEOLÓGICAS

Embora também seja uma simplificação, a distribuição do antigo conteúdo em cinco gavetas (para mantermos a figura de linguagem) permite que esta divisão tenha melhores critérios. As novas gavetas seriam:

extrema esquerda – esquerda – centro – direita – extrema direita.

A divisão não é nova, muito pelo contrário, mas está em “conveniente” desuso. Em maior desuso ainda está a racionalidade nos critérios de classificação. Para separarmos os conteúdos antes amontoados, um bom começo é a distinção observada com lógica, elegância e argumentos concretos por Olavo de Carvalho em artigo para o Diário do Comércio em 10/11/2013: “a diferença de esquerda e extrema esquerda é de graus e de meios, a de direita e extrema direita é de natureza, de fins e de valores.

O esquerdista torna-se extremista quando quer realizar, por meios revolucionários e violentos, o mesmo que a esquerda moderada busca fazer devagar e pacificamente: a expansão do controle estatal na economia, visando à debilitação e, no fim, à extinção da propriedade privada dos meios de produção.

Totalmente diversa é a relação entre direita e extrema direita. Ser de direita, ou liberal, é ser a favor da economia de mercado, das liberdades civis e da democracia constitucional (a versão conservadora defende essas mesmíssimas políticas, mas o faz em nome da tradição judaico-cristã, que para o liberal não significa grande coisa). Se por extrema direita se entende aquilo que o vocabulário corrente e a esquerda em especial designam por esse nome, isto é, o fascismo e o nazismo, o fato que estou assinalando salta aos olhos da maneira mais clara e inequívoca: ser de extrema direita não é querer mais economia de mercado, mais liberdades civis, mais democracia constitucional — é querer acabar com essas três coisas em nome da ordem, da disciplina, da autoridade do Estado, às vezes em nome do anticomunismo, do combate à criminalidade ou de qualquer outro motivo. Não houve um só governo conhecido como de extrema direita que não fizesse exatamente isso. A conclusão é óbvia: passar da esquerda à extrema esquerda é somente uma intensificação de grau na busca de fins e valores que permanecem idênticos em essência. Passar da direita à “extrema direita” é mudar de fins e valores, é renegar o que se acreditava e, em nome de alguma urgência real ou fictícia, empunhar a bandeira do que se odiava, se desprezava e se temia.”

É possível refutar os argumentos de Olavo de Carvalho com a mesma lógica, elegância e clareza? Acho difícil e pouco provável. O método preferido de desqualificação em casos assim é a tosca acusação de ser um “direitista fascista”, o que é suficiente para os menos sofisticados; para convencer aqueles um pouco mais desconfiados ou com melhor formação intelectual, um dos métodos preferidos é fazer uso muito particular de um trecho de Althusser que se tornou praticamente uma cartilha de setores marxistas da USP: “O método precípuo da ideologia é a utilização do discurso lacunar. Nesse, uma série de proposições, nunca falsas, sugere uma série de outras, que o são. Desse modo, a essência do discurso lacunar é o não dito (porém sugerido).” Se tal argumento pode ser utilizado de maneira honesta, o mais comum é vê-lo utilizado dentro do famoso conceito de que “os fins justificam os meios”: abandona-se o que foi efetivamente dito, preenche-se lacunas imaginárias de forma arbitraria e assim chega-se a um novo discurso, que será finalmente combatido. É, basicamente, um truque de prestidigitação intelectual.

Para aprofundarmos um pouco mais esta questão, gostaria de lembrar que a democracia, esta democracia que vem se aperfeiçoando dentro do estado liberal, não é um valor fundamental para Marx, Lenin, Stalin e seus seguidores. Nesta categoria teórica, a democracia liberal aparece apenas como estratégia de luta, a ser superada no momento possível. Mais do que isto, vários autores marxistas, como o próprio Althusser, reafirmam o anti-humanismo na teoria marxista e a superação da ideologia burguesa de humanidade. Sendo assim, se formos minimamente rigorosos com o sentido das palavras, não há como dizer que uma ideia essencialmente marxista, leninista ou stalinista, ou ainda uma ideia comunista e/ou socialista, seja democrática e/ou humanista. Há uma contradição conceitual insanável, o que não impede alguns autores de tentarem demostrar o contrário, embora suas teses pareçam mais uma oração, um desejo, do que um fundamento teórico. Um dos nomes importantes no Marxismo brasileiro, Carlos Nelson Coutinho, é autor do ensaio “A democracia como valor universal”. Não duvido do coração puro do autor, mas observo que a contradição conceitual que apontei acima permanece em seu ensaio. Se para Marx a luta de classes é inerente ao capitalismo e o fim da propriedade privada dos meios de produção um objetivo a ser alcançado, tal só pode se realizar pela remoção da “burguesia” desta equação econômica, o que por sua vez só se realiza plenamente com a ruptura do estado democrático e de direito. Vale à pena lembrar que o “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, obra de referência inclusive da esquerda, no verbete DEMOCRACIA nos diz que o Estado Liberal é o único que reconhece e garante alguns direitos fundamentais, como são os direitos de liberdade de pensamento, de religião, de imprensa, de reunião, etc. (a social democracia está contida neste conceito).  Diz também que a única Democracia compatível com o Estado liberal é a Democracia representativa ou parlamentar. Quando marxistas falam em democracia, estão falando da DEMOCRACIA DIRETA, que tem outra natureza e impõe a vontade da maioria sobre a minoria.

Assim, aquele que reconhece a democracia liberal como um valor fundamental; que reconhece o humanismo como um ideal a ser perseguido na forma de política de estado (política pública); reconhece e defende o direito de minorias e a liberdade de expressão, este indivíduo precisa saber que não é de esquerda. É, no máximo, de centro. Ok, centro não é direita, mas tão pouco é esquerda. A questão fundamental aqui é que, ao fim e ao cabo, considerando atentamente o que propõem marxistas, comunistas e socialistas, simplesmente não existe, do ponto de vista teórico, uma esquerda humanista e/ou democrática (no sentido de respeito aos direitos de minorias). A ideia subjacente de justiça social que emerge de suas teorias é a construção de uma sociedade igualitária pelo convencimento do “proletariado” e pela eliminação física de quem se oponha (proletário, correligionário, burguês, intelectual etc. – neste quesito eles têm preferências, mas não preconceito). No fim, é a persuasão que “só brota em ponta de cano e em brilho de punhal puro” cantada por Milton Nascimento na belíssima música Canto Latino, dele e Ruy Guerra (e que ecoa a convicção proclamada por Mao-Tsé Tung de que “o poder brota do cano de um fuzil”). Se alguém lhe disse o contrário, questione e recuse as respostas fáceis.

Chegamos assim ao momento de distribuirmos o conteúdo das duas primeiras gavetas, usando as definições dos próprios ideólogos de esquerda.

GAVETA DA EXTREMA ESQUERDA 

Na gaveta da extrema esquerda temos: marxismo, socialismo, comunismo, revolução, luta de classes, assassinato ou prisão de opositores, fim da propriedade privada dos meios de produção, expropriação, distribuição da riqueza, ditadura do proletariado (que por ser numericamente superior é eufemisticamente chamada de “Democracia Direta”), abolição do estado burguês, abolição de valores burgueses como democracia representativa, meritocracia, humanismo, direitos humanos e direito de minorias.

GAVETA DA ESQUERDA 

Na segunda gaveta, reservada à esquerda, temos: marxismo, socialismo, comunismo, luta de classes, fim da propriedade privada  dos meios de produção, expropriação, distribuição da riqueza, conquista do poder pela via democrática, superação da democracia representativa por vias políticas, fim do estado burguês, ditadura do proletariado que por ser numericamente superior é eufemisticamente chamada de “Democracia Direta”), abolição de valores burgueses como democracia representativa, meritocracia, humanismo, direitos humanos e direito de minorias.

GAVETA DE CENTRO 

Passemos então para a Gaveta do Centro. É para cá que convergem ideias e práticas que se provam globalmente eficientes no que diz respeito a prover bem-estar social e distribuição de renda (pela racionalidade na arrecadação e utilização de impostos e não pela expropriação). São exemplo destas práticas governos frequentemente acusados de serem “liberais” ou “neoliberais”, evidentemente como ofensa. Governos como os da Alemanha, Canadá, Noruega, Finlândia, Suíça e Suécia são bons exemplos (e não estamos falando aqui de políticos de turno, mas de práticas políticas continuadas). Desta maneira, na Gaveta de Centro temos: democracia liberal como valor fundamental, humanismo, meritocracia, distribuição de renda via racionalidade tributária, respeito à propriedade privada, valorização e defesa da livre iniciativa, liberdade de expressão, direito de minorias, direitos trabalhistas, politicas de bem-estar social como sistema público de saúde e educação eficientes.

Este conjunto de valores pode ser chamado, hoje, de social democracia, mas com alguns cuidados. Nos primórdios, a social democracia ficaria na gaveta da esquerda, porque era uma tentativa de aplicar os ideais socialistas ao capitalismo, mas sem ceder a este. Isto explica porque diversas pessoas que realmente têm a democracia como valor fundamental ainda se dizem de esquerda (são os ex-esquerdistas que temem ser chamados de “direitistas” no ambiente acadêmico). Vejam este esclarecedor texto de João Amazonas, publicado pela Fundação Maurício Grabois na Revista Princípios, edição 2, Jun, 1981, Pág. 5-12 (Transcrição: Diego Grossi). Os negritos são meus:

“A social-democracia nasceu como corrente revolucionária. Surgiu depois que o marxismo derrotou, no campo ideológico, o proudhonismo e o lassalismo, concepções anarquistas e pequeno-burguesas que predominavam no movimento operário dos meados do século XIX até a Comuna de Paris.

Passo a passo, nos países economicamente desenvolvidos, criaram-se novos partidos proletários, baseados na doutrina marxista, para lutar contra a burguesia, por uma democracia social. Veio daí a sua designação. Em 1889, agruparam-se na II Internacional. Marx e Engels acompanharam com atenção o surgimento de tais partidos, procurando imprimir-lhes um nítido caráter de classe, vigilantes contra os remanescentes de idéias adversas(…)

(…) Essas novas organizações de combate dos trabalhadores obtiveram, em curto prazo, importantes êxitos. Difundiram os ideais dos fundadores do socialismo científico, contribuíram para a elevação da consciência política do proletariado. Suas fileiras ampliaram-se. Em diversos pleitos eleitorais alcançaram sucessos consideráveis.(…)

(…) Contudo, aqueles partidos ainda não haviam chegado a assimilar completamente os métodos revolucionários da luta de classes, pois atuaram num período de evolução relativamente pacífica. Sua base ideológica, marxista, não estava consolidada. Além das concepções reformistas subsistentes, a maioria deles não se desprendera totalmente dos preconceitos nacionalistas burgueses (…).

(…) Dessa traição aos interesses cardeais do proletariado e da renúncia aos postulados revolucionários do marxismo nasceu a corrente social-democrata contemporânea. (…)

(…) Tudo que sirva para retirar a classe operária dessa perspectiva, ajuda à burguesia. Não há meio termo. Ou o proletariado segue o seu próprio caminho, da luta sem quartel contra a classe exploradora, ou o caminho da burguesia, da conciliação de classes, da harmonia impossível de interesses entre o capital e o trabalho; ou constrói um partido da revolução ou um partido das reformas sociais que, em si mesmas, não visam à substituição do capitalismo, mas simplesmente aperfeiçoar as leis trabalhistas e melhorar as condições de vida dos explorados.

Nesse contexto, a social-democracia contemporânea apresenta-se como um movimento de caráter burguês no seio do proletariado, tentando esquivar a solução revolucionária. Arma de engodo e divisão dos trabalhadores, tem por base social a aliança de uma parte dos operários (em geral da aristocracia semi-pequeno-burguesa da classe operária) com a burguesia, contra os interesses fundamentais do proletariado. (…)

(…) Em sua atividade, exalta a precária e limitada democracia burguesa, pregando o advento do socialismo através de eleições e do parlamentarismo.”

O texto de João Amazonas deixa claro que, para os verdadeiros marxistas, a social-democracia é hoje um projeto político burguês (e, portanto, à direita no espectro político, ou centro direita). Outros autores veem a social-democracia, até por sua origem, como “centro esquerda”. Mas em ambos os casos, concordam que está no centro e abandonou as principais postulações marxistas, socialistas e comunistas, substindo-as por humanismo, o bom e velho humanismo que as esquerdas combatem com sendo um ranço burguês.

Apesar de tudo que foi demonstrado até aqui, frequentemente a esquerda (não a extrema esquerda) sequestra alguns destes conceitos que definem a social-democracia contemporânea e os usa como iscas para atrair simpatizantes, mas não o fazem por convicção e sim como estratégia de luta. E o pior (para a clareza no debate político) é que muita gente morde a isca.

A GAVETA DA DIREITA

Para abordarmos este tema, é fundamental seguir peneirando o conteúdo ideológico das gavetas pelas teorias que as definem, pelas teses de referência. Aqui, comecemos por Adam Smith, que está para o liberalismo econômico como Marx está para o comunismo e o socialismo. Em sua obra, defende que o liberalismo econômico se caracteriza pela organização da economia com base no individualismo, compreendido aqui como o resultado da iniciativa econômica individual em ocorrência múltipla, como os galos tecendo a manhã no poema do comunista João Cabral de Melo Neto. Tais ações/iniciativas levam a uma total descentralização das decisões econômicas, que se atomizam no maior número possível de indivíduos com a menor interferência possível de instituições ou organizações coletivas. É nesta soma de capacidades individuais, de busca da prosperidade e desenvolvimento econômico ocorrendo simultaneamente em diversas áreas e direções que residiria a capacidade de gerar riquezas. Esta proposição já foi confundida com um elogio da ganância, mas certamente não é. Trata-se da valorização da liberdade econômica e da meritocracia que traria benefícios para toda a sociedade, regulando excessos através da soma de interesses particulares e da concorrência, em uma auto regulação que tenderia ao equilíbrio. No entanto, embora defenda a baixa interferência de governos na economia, defende também que o Estado tem um papel legítimo no fornecimento de bens públicos.

Outro nome de peso nesta gaveta ideológica é John Locke, que tem reflexões importantes sobre a origem e a natureza do conhecimento, sobre o Estado liberal e a propriedade privada. Também formulou um severo questionamento sobre o direito divino dos reis. Para Locke, todos os homens, ao nascer, tinham direitos naturais – direito à vida, à liberdade e à propriedade (no mínimo, a propriedade de sua própria força de trabalho, o que tornava – e continua tornando – a escravidão e a servidão inaceitáveis). Foi para garantir, da melhor maneira possível, que esses direitos naturais se realizassem que os governos foram criados. No caso de um governo que não respeitasse a vida, a liberdade e a propriedade, seria legítimo o povo revoltar-se contra ele e não aceitar decisões arbitrárias.

Estes conceitos evoluíram e deram origem ao moderno estado capitalista (liberal) que teve no governo de Margaret Thatcher uma aplicação radical. Já há alguma distância (temporal) do calor dos eventos, o que permite fazer uma avaliação melhor do que significou aquela experiência.

Em primeiro lugar, seu governo teve início em 1979 após um longo período (30 anos) de predominância das ideias socialistas de gestão que, após o fim da segunda guerra mundial, conseguiram implantar muitas de suas teses na Inglaterra. Ao assumir o governo, Thatcher encontrou uma economia em crise, fortemente estatizada, sindicalismo forte e frequentemente violento, governo inchado e ineficiente, gastos públicos elevados e inflação alta (quase 25% ao ano em 1978). Elaborou um programa rigoroso para inverter este cenário, com elevação dos juros (para reduzir consumo e ajudar a controlar a inflação), ajuste das contas públicas via redução dos gastos governamentais (contas públicas elevadas também pressionam a inflação) e redução da presença do estado na economia via privatização da maioria das empresas estatais. O resultado destas medidas, em um primeiro momento, foi negativo: a economia desacelerou, empresas e bancos quebraram, o desemprego triplicou, os conflitos com sindicalistas foram brutais (de ambos os lados e em todas as acepções do termo). Mas uma vez feitos os ajustes, a Inglaterra, que estava em rápido declínio econômico desde o pós-guerra, voltou a crescer, o emprego subiu, o investimento externo (não especulativo) triplicou.  Não foi uma retomada livre de sobressaltos, mas alguns números são importantes: em 1981 o PIB já havia retornado a patamar superior ao de 1979 com a inflação reduzida a ¼ da registrada quando assumiu o governo, e continuou crescendo com inflação em queda até 1989 quando o mundo foi sacudido por uma sucessão de crises. Para quem tiver curiosidade, os números da economia britânica no período Thatcher podem ser vistos no site http://www.economicshelp.org/blog/274/uk-economy/economic-impact-of-margaret-thatcher/

Assim, na Gaveta da Direita vamos encontrar a defesa do estado democrático e de direito (democracia liberal), da livre iniciativa, de menor intervenção do estado na economia (afetando inclusive a qualidade de serviços públicos como saúde e educação, onde os EUA surgem como a maior vitrine negativa), a defesa do livre comércio, do empreendedorismo, da meritocracia, o reconhecimento de direitos e liberdades civis. Pode-se acrescentar algum conservadorismo religioso e uma certa ignorância arrogante, mas, para sermos justos, a ignorância arrogante está presente também nas demais gavetas (no fim, é uma característica humana estatisticamente bem distribuída).

Para alguém que não seja de esquerda, de extrema esquerda ou de extrema direita, a principal crítica que se pode fazer ao que está contido nesta gaveta é a defesa às vezes intransigente e exagerada do estado mínimo, mínimo ao ponto de não prover o que hoje se entende como uma obrigação: saúde e educação de qualidade de maneira universal para a população. Com o crescimento do humanismo, esta postura encontra cada vez menos espaço nos países chamados de “Primeiro Mundo”. Nos demais, sua ocorrência é bastante irregular.

GAVETA DA EXTREMA DIREITA.

A extrema direita, como o nome diz, está no extremo direito do espectro ideológico, mas, como Olavo de Carvalho aponta no artigo citado acima, guarda pouco parentesco com a direita. Podemos dizer mesmo que o principal ponto de contato seja a aversão às teses da esquerda e da extrema-esquerda, embora, para os adeptos da “teoria da ferradura” extrema direita e extrema esquerda tenham mais em comum entre si do que com seus vizinhos imediatos no espectro político.

A extrema direita pode chegar ao poder por meio de golpes (Espanha, Brasil, Argentina, Chile etc) ou via eleitoral (nazismo na Alemanha e fascismo na Itália). Uma vez no poder, rapidamente se transforma em ditadura (mesmo quando continuam ocorrendo eleições) através da desconstrução de valores que encontramos nas gavetas de centro e de direita, como o estado de direito, a democracia (que não se define apenas pela ocorrência regular de eleições), o direito de minorias, a liberdade de expressão e outros “conceitos burguêses” que “atrapalham” o exercício do poder.

Há diferenças importantes entre a ditadura militar brasileira, a chilena, o nazismo e o fascismo (para enumerarmos algumas das ocorrências mais conhecidas) mas, como todo totalitarismo, cometem as mais variadas atrocidades em nome do “bem”, através de expurgos, depurações, eliminação de oponentes políticos e outras mazelas. Fazem parte também (como de resto em qualquer totalitarismo) prisões arbitrárias, controle do judiciário e do legislativo.

Em outro grau e com diferentes características, podemos citar como partícipes destas experiências totalizantes as teocracias, que também podem ser mais ou menos esclarecidas, mas igualmente arbitrárias.

Assim, ao contrário da propaganda promovida por influentes membros das esquerdas e por outros que simplesmente ignoram os conceitos sobre os quais falam, na Gaveta da Extrema Direita vamos encontrar: repudio ao estado democrático e de direito, recusa do livre mercado (em nome de nacionalismos), eliminação de direitos civis, perseguição étnica, autoritarismo, fascismo, nazismo, teocracias e racismos, além de repúdio ao marxismo, ao socialismo e ao comunismo.

CONCLUSÃO 

É óbvio que o assunto não se esgota aqui, mas acredito que esta reflexão colabore para que o debate político ocorra de forma mais racional, respeitando “os marcos regulatórios” pensados e construídos através da história. Chamar cada coisa pelo seu nome, sem prestidigitações intelectuais, é o mínimo que podemos fazer para termos um debate de ideias honesto.

POST SCRIPTUM

Dois ou três dias após ter escrito o artigo acima me deparei com um artigo do Professor Ruy Fausto na edição de número 6 da revista Fevereiro que é, este sim, um artigo denso, que vai às minúcias de algumas das questões de abordei levemente aqui (e com uma competência que não tenho). Além disso, exemplifica de forma veemente algumas das imposturas (não do professor Ruy Fausto) que apontei. A origem deste texto foram comentários do professor sobre o livro Uma esquerda que não teme dizer o seu nome de Vladimir Safatle que lhe fora enviado pelo autor. Seguem trechos do artigo e alguns comentários meus sobre eles. Recomendo a leitura inicial do que vai abaixo e depois a leitura do artigo integral.

Título do artigo:

“Na sequência do meu texto “Esquerda/Direita: em busca dos fundamentos e reflexões críticas”, e do seu post scriptum (Como uma resposta a Vladimir Safatle)” por Ruy Fausto,  Revista Fevereiro Número 6.

(…) qualquer que seja a seriedade do debate, o principal não está no debate, mas nos textos e na teoria de base; (…) Começo pelos aspectos mais propriamente polêmicos, centrados sobretudo em Uma esquerda que não teme dizer o seu nome. (…) A resposta de Vladimir, embora erudita, na aparência pelo menos, é bastante agressiva. (…) Lá eu apareço (mesmo se não literalmente) como arcaico, também como infantil (isto literalmente), e alguns dos meus argumentos são postos em paralelo com os de gente de extrema-direita…

(comentário meu, não de Ruy Fausto: Vladimir Safatle fez exatamente o que afirmei ser a tática número 1 da esquerda: desqualificou o discurso acusando o oponente de práticas análogas a de críticos da extrema direita. Mas retomemos o artigo de Ruy Fausto).

(…) De que se trata? Ao falar da experiência do século XX, Safatle bate principalmente num tema e num argumento amplamente utilizado pela dupla Zizek/Badiou. A de que uma ideia “precis(a) inicialmente fracassar para posteriormente se realizar” (ETDN, p. 84, cf. p. 62). E de que portanto, é preciso tentar de novo. O tema, de fato, está muito presente em Alain Badiou e Slavoj Zizek. Eles invocam um texto famoso de Beckett, que Safatle utiliza como epígrafe em um dos seus livros. Zizek serve-se do texto para pensar o que seria a situação atual das lutas revolucionárias na sua relação com o passado, isto é, para com o comunismo dito real. Mas o que importa aqui é que, ao apelar ao “falhe de novo, erre melhor”, Zizek acaba estabelecendo com isso, queira ele ou não (na realidade, ele quer), uma espécie de continuidade de fato e de direito entre o totalitarismo maoista-stalinista e as tarefas do presente; o que tem o efeito de limpar, a barra, mesmo se parcial ou contraditoriamente, desse mesmo totalitarismo. De fato, quem diz tentemos “de novo” e “melhor”, mesmo se reconhecendo com isso que houve fracasso, estabelece uma linha de continuidade entre o passado comunista e o que deveria ser a esquerda no presente. Mas, o que escreve Safatle?: “(…) valeria a pena perguntar se aqueles que desqualificam o século XX como era da violência desmedida em nome do novo estariam dispostos a responder a uma questão fundamental, a saber: quantas vezes uma ideia precisa fracassar para poder se realizar? A efetivação de uma ideia nunca é um processo que se realiza em linha reta. Por exemplo, durante séculos, o republicanismo foi considerado um retumbante fracasso. Ser republicano no século XIII significava defender uma ideia que havia apenas produzido catástrofes e o enfraquecimento do Estado. Hoje, dificilmente encontraremos alguém para quem o republicanismo não seja um valor fundamental. Ou seja, o republicanismo precisou fracassar várias vezes para encontrar seu próprio tempo, para forçar o tempo a aproximar-se de sua realização ideal. Isso apenas demonstra como, graças à internalização de seus fracassos, ao fato de ela ter aparecido ‘cedo demais’, a ideia pôde efetivamente se realizar” (ETDN, p. 62, grifo de RF) .

Retomo aqui este post scriptum. Observemos que os textos de referência sobre o republicanismo, como nos demonstra Cícero Romão Resende de Araújo em “A Forma da República – Da constituição mista ao estado”, permanecem atuais e conceitualmente corretos ao refletir e pregar o poder sujeito a regulação que iniba ou controle impulsos autoritários. É certo que se trata de um equilíbrio relativamente frágil, uma “construção civilizadora” que muitas vezes já foi demolida pela barbárie totalizante (mas que renasce pela força de seus fundamentos). Repúblicas e democracias também não são as formas mais ágeis em tempos de guerra ou crises agudas. Estes “defeitos” são reais, mas a comparação de Safatle é mera ignorância (na hipótese benigna) ou picaretagem. Ao fazer esta comparação ele esquece (propositalmente?) o fundamental: as teses que sustentam o conceito de república vão na direção da administração permanente de conflitos e tensões inerentes à atividade humana através de um sistema de distribuição de poderes que atuam de forma independente e complementar ao mesmo tempo. Já as teses que Safatle tem como “missário” não só negam as ideias centrais no conceito de república (que ele muito sonsamente quer fazer crer respeitar) mas também professam o equilíbrio pela força do porrete. A força do porrete não requer muitas explicações, basta olhar para as experiências de totalitarismos do século XX, como Leninismo, Stalinismo, Maoismo, Nazismo e Fascismo, entre outras ainda mais radicais. No entanto, o conceito de República, ou republicanismo, é menos conhecido e exige alguma explicação. Mas antes de entrarmos no conceito de república, acho conveniente evidenciar o erro primário de Vladimir Safatle ao afirmar que “Ser republicano no século XIII significava defender uma ideia que havia apenas produzido catástrofes e o enfraquecimento do Estado”. Como alguém que se diz intelectual e atua nesta área pode “esquecer” as experiências de Esparta e de Roma, por exemplo. Foram fracassos? Em que termos? Comparados com o que? Mas vamos adiante. Para ficar mais claro o engano ou engodo de Safatle, vejamos o que nos diz logo a abertura de “A Forma da República – Da constituição mista ao estado” de Cícero Romão Resende de Araujo: “Este livro é um estudo sobre a forma política. Suas balizas fundamentais são os conceitos de constituição Mista e Estado, ambos associados à longa busca da inteligência política por um padrão adequado de convívio humano: a república. (…) Assim, entende-se a república não como um objeto empírico perfeitamente decantado, mas como um conjunto de práticas no qual seres humanos investidos de um determinado papel, o de “cidadãos”, orientam suas ações para promover certos valores comunitários, entre os quais a liberdade, a igualdade, o império da lei e a própria participação política. (…) Essas práticas nunca são exatamente o que deveriam ser, mas também nunca deixam de remeter a concepções a respeito do que o mundo social é capaz de gerar – ou seja, a visões do campo de possibilidades da ação humana, incluindo a capacidade de realizar os valores a que as práticas visam. No fundo, toda prática constitui uma tensão entre o que é, o que deve ser e o que é possível. Como a tensão ocorre numa certa estrutura de tempo e espaço, seu significado concreto varia de acordo com a concepção dessa estrutura implícita na respectiva forma política (…). De qualquer modo, segurar essa tensão, nunca deixando que ela relaxe e finalmente se reduza à mera acomodação ao que aí estiver, é o que empresta dignidade à forma política. E a república é o nome que se dá a essa dignidade.”

Para fechar a crítica desta comparação infeliz de Safatle, lembro, parafraseando a última frase do parágrafo anterior, que o nome que se dá ao que resulta das ideias do próprio Vladimir Safatle, de Zizek e Bideou é totalitarismo, sem qualquer dignidade. A proposta que defendem, contida no “falhe de novo, erre melhor” pode funcionar para alguém estudando para uma prova, ou se preparando para uma tarefa, em departamentos de pesquisa e desenvolvimento ou até como frase de incentivo em curso de autoajuda, mas aplicada às causas defendidas pelo trio, nada mais é que uma tara autoritária de funestos resultados a cada tentativa. Há uma variante deste conceito utilizada pelos rappers americanos para justificar ações criminosas de toda ordem: “fique rico ou morra tentando”. É boçal, mas não é covarde. Mas a turma de Vladimir Safatle, Alain Badiou, Slavoj Zizek e congêneres certamente não gosta deste tal “morrer tentando”, o negócio deles é “matar tentando” (o que lhes falta é a oportunidade, felizmente).

Artigo de Paulo Falcão

Segue o link para o fundamental artigo de Ruy Fausto http://www.revistafevereiro.com/pag.php?r=06&t=07

NOTA – Para quem deseja se aprofundar no tema, sugiro este artigo que analisa o verbete DEMOCRACIA do  “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquin

https://questoesrelevantes.wordpress.com/2014/03/12/quando-a-patrulha-ideologica-compromete-a-logica/

Aviso sobre comentários:

Comentários contra e a favor são bem vindos, mesmo que ácidos, desde que não contenham agressões gratuitas, meros xingamentos, racismos e outras variantes que desqualificam qualquer debatedor. Fundamentem suas opiniões e sejam bem-vindos.

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